Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Na Câmara do Rio, Carlos Bolsonaro usa presença para defender governo do pai

Vereador em quinto mandato mantém estilo estridente das redes no convívio com colegas

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

Para marcar os seis meses deste ano legislativo, a Folha acompanhou a atuação parlamentar dos três filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que mantêm cargo eletivo: o senador Flávio (PSL-RJ), o deputado federal Eduardo (PSL-SP) e o vereador Carlos (PSC-RJ) no Rio de Janeiro.

Enquanto na Câmara Municipal do Rio temas do governo federal ganham destaque com a presença de Carlos, em Brasília Eduardo se tornou uma espécie de guardião do pai nas comissões e no plenário da Câmara dos Deputados. Mais discreto, o primogênito Flávio se destaca pelas costuras políticas que realiza nos bastidores no Senado.

Nos primeiros meses da nova legislatura na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, 36, que está no quinto mandato, pouco falou. E quando o fez, o motivo foi um só: defender o governo do pai, o presidente Jair Bolsonaro.

Na tarde do dia 26 de junho, o filho 02 foi à tribuna xingar alguns de seus pares —rompante similar aos que o pai apresentava na Câmara dos Deputados em Brasília.

Minutos antes, o vereador Reimont (PT) havia citado o caso do sargento que integrava a comitiva da viagem presidencial ao Japão e que foi preso com 39 kg de cocaína na Espanha. Ele disse que Jair Bolsonaro não poderia ser responsabilizado, mas que deveria fornecer explicações.

Foi o suficiente para que Carlos saísse da inércia e xingasse Reimont de "cabeça de balão". Quando Tarcísio Motta (PSOL) pediu respeito, o filho do presidente respondeu: "E você tem que ir para a Venezuela fazer um regime porque está muito gordinho, tá bom?".

Mas foi no auditório da Câmara —não no plenário—, que Carlos fez seu maior discurso do ano.

No início de junho, o vereador aproveitou uma audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, da qual é vice-presidente, para tentar minimizar o seu papel nas decisões do governo federal.

"Eu carrego um peso comigo, nas minhas costas, de ser filho do meu pai. (...) É algo que bônus eu não consegui encontrar ainda. Infelizmente, eu carrego um ônus grande nas costas. Não faço parte do governo federal. Não encontro com meu pai há algum tempo", disse.

Em sua fala, durante reunião que tratou do risco de novos deslizamentos em importante avenida da cidade, Carlos informava sobre a possibilidade de a União descentralizar a arrecadação dos impostos, passando a responsabilidade para estados e municípios.

"Eu não sendo governo, do pouco que eu sei do que acontece lá dentro, mesmo contrariando o que grande parte da mídia diz, que eu sou um dos mandantes daquilo ali, o que eu acho um pouco absurdo...", completou.

Quando o vereador Alexandre Isquierdo (DEM), próximo a Carlos, criticou a falta de planejamento na administração pública, exemplificada pelas graves consequências das fortes chuvas que atingiram o Rio no primeiro semestre, o filho do presidente cometeu um aparente ato falho.

Carlos respondeu: "Vereador Isquierdo, e quando nós somos procurados... Quando nós, não, desculpe, quando o governo federal é procurado, ele sempre se propôs a ajudar".

Mesmo sem cargo formal no governo (embora a possibilidade tenha sido aventada logo após a eleição de Jair Bolsonaro), o vereador é o filho com mais influência sobre o pai.

Carlos administrou as redes sociais do presidente, contribuiu para a queda de ministros e causou polêmicas que ameaçaram a estabilidade da nova administração.

Tamanha influência não passa, é claro, despercebida entre seus pares. No plenário, quando não está vidrado no celular, Carlos costuma se encontrar rodeado de outros vereadores, aos quais distribui abraços e batidinhas nos ombros. É possível perceber que usa um colete de balas, marcado sob a roupa.

Pelas redes sociais, o vereador busca afastar as críticas de que estaria mais interessado na condução do país do que na sua própria atividade parlamentar.

"Mais um dia se acabando. Dentre muitas tarefas de minha função, leitura de e-mails para envio de reclamações de problemas dos cidadãos ao poder executivo municipal (...) Entretanto nada me impede de falar sobre outros assuntos. A limitação de idiotas úteis somente tem o intuito de nos calar", escreveu no dia 10 de junho, em foto tirada em seu gabinete.

Carlos faltou apenas uma vez desde o início da legislatura. Assinou um projeto de lei, fez sete indicações (a exemplo, pavimentação de calçada em rua na zona oeste) e três requerimentos de informação (tal como a respeito do escoamento das águas pluviais na avenida Niemeyer).

Duas leis de sua coautoria foram promulgadas neste ano: uma torna obrigatório o projeto Defesa Civil das escolas e a outra declara a família de lutadores Gracie como patrimônio de natureza imaterial da cidade do Rio.

A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Teresa Bergher (PSDB), diz que Carlos tem sido ativo e assíduo nos trabalhos como vice-presidente.

Ela afirma não ter percebido mudanças no comportamento do vereador após a eleição do pai. "Temos posições políticas diferentes, mas [Carlos] continua gentil e educado", diz.

Em seu gabinete, o vereador emprega 18 servidores comissionados. Como noticiou a Folha em abril, Carlos fez uma limpeza no início do ano, quando exonerou nove funcionários. Entre eles estavam uma idosa que mora a mais de 50 quilômetros da Câmara e uma faz-tudo da família

As reportagens sugerem que o filho do presidente possa ter contratado servidores fantasmas —aqueles que recebem remuneração, mas não prestam serviços efetivamente.

A mesma suspeita recai sobre seu pai, durante seus mandatos como deputado federal, e sobre seu irmão Flávio, hoje senador, (PSL-RJ), quando era deputado estadual no Rio.

Raio-x 

01
Flávio Bolsonaro, 38

Senador eleito no ano passado pelo PSL-RJ, foi deputado estadual no Rio por quatro mandatos, de 2003 a 2018. É formado em direito

  • 18 propostas apresentadas na legislatura (até junho)
  • 5 pronunciamentos
  • 20 funcionários no gabinete
  • R$ 57 mil em gastos neste mandato, 44% com passagens aéreas

02
Carlos Bolsonaro, 36

Vereador no Rio pelo PSC, está no quinto mandato. Já foi filiado ao PTB e PP. É formado em ciências aeronáuticas

  • 1 projeto de lei apresentado na legislatura
  • 18 funcionários no gabinete

03
Eduardo Bolsonaro, 35

Deputado federal pelo PSL-SP, foi reeleito para um segundo mandato em 2018 com votação recorde de 1,8 milhão de votos. É formado em direito

  • 4 projetos de lei apresentados na legislatura
  • 8 pronunciamentos
  • 9 funcionários no gabinete
  • R$ 100 mil em gastos neste mandato

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