Sem apoio federal, índios mundurucus expulsam madeireiros ilegais no Pará

Em expedição de cerca de 100 km, indígenas deram prazo de três dias para madeireiros encontrados saírem do território

Indígenas mundurucus realizam ação contra madeireiros ilegais que atuavam dentro da Terra Indígena Sawre Muybu, no oeste do Pará

Indígenas mundurucus realizam ação contra madeireiros ilegais que atuavam dentro da Terra Indígena Sawre Muybu, no oeste do Pará Anderson Barbosa

Fabiano Maisonnave
Manaus

Sem apoio dos órgãos de fiscalização, guerreiros mundurucus realizaram nos últimos dias uma expedição a pé de cerca de 100 km expulsar madeireiros e palmiteiros da Terra Indígena (TI) Sawré Muybu, no sudoeste do Pará. 

Segundo comunicado dos mundurucus, a expedição encontrou diversos madeireiros, a quem deram um prazo de três dias para saírem do território.

“Ficamos muito revoltados por ver as nossas árvores derrubadas e as nossas castanheiras como tora de madeira em cima de um caminhão. E sabemos que, quando retiram madeira, vão querer transformar nossa terra em um grande pasto para criar gado.”

“Nós estávamos armados com nossos cânticos, nossa pintura, nossas flechas e a sabedoria dos nossos antepassados. E, com muita pressão, eles passaram a madrugada toda retirando 11 máquinas pesadas, 2  caminhões, 1 quadriciclo, 1 balsa e 8 motos. Todos sem placa. Na retomada, andamos 26 km vigiando os ramais [estradas] que os madeireiros fizeram no nosso território e bebendo água suja do rio Jamanxim, que está poluída pelo garimpo”, afirma o texto dos mundurucus. ​

Com 178 mil hectares de floresta, a TI Sawré Muybu teve seus estudos de identificação e delimitação publicados no Diário Oficial da União em 2016.

O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, diz que não homologará mais terras indígenas, além de prometer abri-las para mineração e outras atividades econômicas de grande impacto ambiental. 

Com a tramitação paralisada em Brasília, os mundurucus fizeram, junto com a fiscalização, a quinta etapa da chamada autodemarcação, em que eles mesmos delimitam o território reclamado por meio da colocação de placas na floresta. 

As declarações de Bolsonaro têm estimulado um aumento de invasões de terras indígenas por grileiros e garimpeiros desde o início do ano, mesmo em áreas já homologadas. É o caso das Tis Uru-eu-wau-wau (RO), Apyterewa (PA) e da Cachoeira Seca (AP). 

Sem apoio federal, índios mundurucus expulsam madeireiros ilegais no Pará
Sem apoio federal, índios mundurucus expulsam madeireiros ilegais no Pará - Arquivo dos mundurucus

Na TI Munduruku, vizinha a Sawré Muybu, já homologada, os mundurucus perderam controle de parte do território, tomado por garimpeiros de ouro. Alguns rios, como o Tropas, foram devastados.

Trata-se de uma das etnias mais populosas do país, com cerca de 14 mil pessoas. Na semana passada, garimpeiros invadiram a TI Waiãpi, no oeste do Amapá, resultando na morte de uma liderança, segundo relatos dos indígenas.

“Será que vai precisar morrer outros parentes, como aconteceu com a liderança waiãpi, para que os órgãos competentes atuem?”, questionam os mundurucus. “Sozinhos, conseguimos expulsar madeireiros que nem o ICMBio, Ibama e Funai conseguiram”, dizem os mundurucus.

“Os invasores estão matando a nossa vida e derramando o sangue da nossa floresta. A nossa vida está em perigo. Mas, por isso, nós vamos continuar mostrando a nossa resistência e a nossa autonomia. Somos capazes de cuidar e proteger o nosso território para nossos filhos”, afirma a nota.

 “Ninguém vai fazer medo e ninguém vai impedir porque nós mandamos na nossa casa que é nosso território. Estamos aqui defendendo o que é nosso, e não dos pariwat [brancos]. Por isso, sempre vamos continuar lutando pelas demarcações dos nossos territórios. Nunca vão nos derrubar. Nunca vamos negociar o que é sagrado.”

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