Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Apelidado de 06, secretário da Pesca critica onda verde e é fã de Bolsonaro

Desbocado, Seif costuma aparecer em lives nas redes do presidente, por quem se diz apaixonado

Talita Fernandes
Brasília

Apelidado de 06 por Jair Bolsonaro (PSL), Jorge Seif Jr. usa o termo "apaixonado" para definir seu sentimento pelo chefe do Poder Executivo, mimetizando o próprio presidente, que usa a expressão quando quer demonstrar intimidade com alguém ou ironizar quem o desagrada.

A relação entre eles começou antes da posse de Bolsonaro. Seif Jr. foi escolhido para o cargo de secretário de Aquicultura e Pesca em 17 de novembro de 2018 –data que lembra sem fazer esforço e à qual se refere com orgulho.

Na manhã daquele sábado, ele e o pai, o empresário do ramo pesqueiro Jorge Seif, estavam no apartamento da família na Barra da Tijuca, região oeste do Rio de Janeiro. Foi o filho que insistiu que tentassem ser recebidos pelo "capitão".

O secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., durante evento em Brasília em que distribuiu peixe assado, no dia 7
O secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., durante evento em Brasília em que distribuiu peixe assado, no dia 7 - Pedro Ladeira/Folhapress

A família Seif é carioca, mas há algumas décadas se instalou em Itajaí, no litoral catarinense, para desenvolvimento da atividade pesqueira.

Eles são donos da JS Pescados –nome definido com ironia pelo secretário como "muito criativo"–, que tem embarcações e empresas de gelo e de pesca, em especial de sardinhas e atum.

O secretário, de 42 anos, estudou administração de empresas na Univali (Universidade do Vale do Itajaí) e trabalhava na empresa da família antes de ocupar seu primeiro cargo público.

Vê como sua principal missão à frente da pasta garantir "acessibilidade" aos que atuam no ramo da pesca.

Lembra com certo amargor da vez em que desembarcou em Brasília, em 2017, para tentar ter uma licença liberada. Sem horário marcado, tomou um chá de cadeira na Secretaria da Pesca e voltou para casa de mãos abanando.

Reclama do tom cerimonioso que as autoridades costumavam adotar em gestões anteriores. "Ficavam num pedestal, à direita de Deus Pai", reclamou durante conversa com a Folha em seu gabinete, no prédio que abriga o Ministério da Agricultura.

Seif Jr. disse que sua admiração por Bolsonaro começou ainda durante a campanha e que sempre defendeu ideias de direita. Segundo ele, "não por ideologia", mas por acreditar numa visão mais liberal de mundo.

Ele conta ter feito propaganda gratuita para o candidato do PSL, o que levou a romper com parentes, em especial com aqueles que diz serem "ligados às universidades".

Seif Jr. e o presidente Jair Bolsonaro
Seif Jr. e o presidente Jair Bolsonaro - @jorgeseif no Twitter

A aproximação da família Seif com Bolsonaro aconteceu em janeiro de 2018, quando um vídeo de Jorge Seif pai, em tom de elogio ao então deputado federal, chegou ao conhecimento do capitão.

Grato pela homenagem, o então pré-candidato à Presidência ligou para agradecer ao empresário. Esse contato telefônico garantiu o primeiro encontro do hoje secretário com o então presidente eleito, no fim de 2018.

Pouco depois, pai e filho estavam no condomínio Vivendas da Barra, endereço fluminense de Bolsonaro, tomando café e água com o futuro ocupante do Palácio do Planalto. A foto do encontro virou a capa do Twitter de Seif Jr.

Ele disse ter à mão naquele dia cinco páginas de Word impressas "com letras grandes porque o pai não enxerga direito" com as reivindicações do setor pesqueiro. "Imaginava que em algum momento ia precisar disso", diz.

Seif Jr. garante que foi esse documento e seu jeito "espontâneo e visceral" que convenceram o presidente a oferecer o cargo sem que ele pedisse.

"Na verdade, creio que ele acaba fascinado quando você, não to falando de mim, quando a pessoa domina a matéria", justificou. "Eu sou um cara muito risonho, muito divertido. Acho que ele acaba se identificando comigo por esse jeito espontâneo, falo com o coração. Eu falo o que eu quero, da minha boca para fora e está falado, não tenho filtro, pareço muito com ele."

Na campanha, Bolsonaro usou como slogan um versículo bíblico que trata da verdade. Seif Jr. tem a palavra como mantra. "Quem fala a verdade não merece castigo", repete.

Na conversa com a reportagem, adotou tom brincalhão em quase todos os momentos, mas elevou o tom de voz ao ser questionado sobre uma multa aplicada pelo Ibama, em agosto, a uma embarcação da sua família.

"Qual o nome que está na multa ambiental? É Jorge Seif Jr? Não! Então por que estão me perguntando?"

O secretário se diz vítima de "mimimi" e "perseguição barata" por ser um "xodó" do presidente. "Ele já declarou ter amor hétero de pai e filho e tão pegando agora, vão investigar agora o colégio para dizer que Jorge Seif roubava lanche do amiguinho!"

​Seif Jr. demonstra felicidade ao ser comparado pelo presidente. Passou a falar "tá ok?" ao fim de frases em vídeos que posta em suas redes e emojis de bandeiras do Brasil e de peixes são constantes em suas publicações.

Tal qual o chefe, critica ambientalistas. "Existe o green talebã que eu abomino", diz, ao criticar o "cara que vem aqui, não cuidou do país dele, não tem interesse que o agronegócio brasileiro bombe e vem falar que isso e que aquilo."

Na visão dele, é possível equilibrar produção e preservação do meio ambiente.

Partiu do secretário, como mostrou a Folha, um pedido feito pelo Ministério da Agricultura ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para a suspender a lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção.

O argumento usado é que o cadastro de animais em risco gerou repercussão negativa no setor pesqueiro e prejuízos econômicos.

No dia 7 de agosto, Seif Jr. promoveu um inusitado evento no gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para divulgar o tambaqui, peixe típico da região amazônica. Ele considerou a ação "um sucesso" depois de distribuir 4.000 senhas que poderiam ser trocadas por um peixe assado para todos que doassem um quilo de alimento.

O secretário é lembrado com frequência por Bolsonaro em suas redes sociais e transmissões ao vivo. O presidente costuma falar com carinho que Seif Jr. é uma indicação pessoal para compor sua equipe.

O apelido de 06 tem referência militar, mas é também assim que Bolsonaro se dirige aos seus cinco filhos. Seif conta que o presidente chegou recentemente a chamar sua mulher de "minha nora".

A intimidade entre eles é notada pelo número de vezes que o secretário é convidado a participar das transmissões ao vivo feitas por Bolsonaro em sua conta do Facebook, às quintas-feiras.

Das 24 lives do presidente, Seif esteve em 6. Durante os vídeos, eles se unem nas piadas e nas críticas ao que chamam de "radicalismo ambiental".

Em uma das ocasiões, como um filho que reivindica igualdade de tratamento do pai, o secretário sacou uma folha de papel sulfite com os endereços de suas redes sociais impressos e pediu justiça.

"Capitão, o senhor fez esses dias uma propaganda das redes sociais do Moro, faz da minha também, eu só tenho 4.000 seguidores. Eu quero mais seguidores para falar da pesca", brincou, arrancando risadas dos participantes.

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