Bolsonaro promete divulgar gastos pessoais com cartão corporativo

Em novas provocações à imprensa, presidente diz que levará grupo de jornalistas a caixa eletrônico para conferir extrato

Gustavo Uribe
Brasília

Após fazer críticas à cobertura da imprensa, o presidente Jair Bolsonaro prometeu nesta quinta-feira (8) divulgar aos veículos de comunicação seus gastos pessoais com o cartão corporativo da Presidência da República.

Em live semanal, nas redes sociais, ele disse que levará um grupo de jornalistas a um caixa eletrônico para que tenham acesso ao seu extrato bancário de janeiro a julho deste ano.

"Eu vou abrir o sigilo do meu cartão. Para vocês tomarem conhecimento quanto gastei de janeiro até o final de julho. Ok, imprensa? Vamos fazer uma matéria legal?", afirmou.

Segundo ele, o objetivo é desmentir acusações de que teria gasto cerca de R$ 1 milhão por mês. Na transição de governo, a equipe do presidente chegou a cogitar a extinção do cartão, mas desistiu.

O presidente Jair Bolsonaro ao sair do Palácio da Alvorada
O presidente Jair Bolsonaro ao sair do Palácio da Alvorada - Antonio Cruz/ Agência Brasil

"Agora, gostaria que a imprensa fizesse uma materiazinha com meu gasto com cartão corporativo. Não vou falar quanto gastei, não, está desafiada a imprensa. Vou com vocês, na boca do caixa, digito a senha e vai aparecer todo meu gasto com cartão corporativo", ressaltou.

Os cartões corporativos são usados no serviço público para despesas como compra de materiais, prestação de serviços e abastecimento de veículos oficiais, por exemplo. Os valores totais da gestão pública são abertos, mas há sigilo sobre despesas consideradas de segurança nacional, como a alimentação e o transporte do presidente.

Na transmissão online, Bolsonaro voltou a ironizar a imprensa ao citar medida provisória que permite a empresas de capital aberto a publicação de balanços no site da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou do DO (Diário Oficial), em vez de veículos impressos. Segundo ele, a iniciativa evita que se derrubem árvores no país.

"As projeções não precisas são que, por ano, os empresários vão deixar de gastar R$ 1,2 bilhão com jornais. Então, um lucro que vai ser comemorado com toda a mídia. A mídia é favorável e eu tenho certeza de que todos os jornais são favoráveis a essa medida. Ajudar a não desmatar mais para fazer o jornal", disse.

Ele voltou a citar o jornal Valor Econômico, que, dedicado à cobertura econômica, recebe um volume maior de balanços das empresas. Ele é controlado pelo Grupo Globo, que também publica o jornal O Globo.

"E eu tenho certeza de que o Valor Econômico não deve mais publicar balancetes. Ele vai buscar uma outra fonte para a receita aí, para o seu jornal", disse. "O Valor Econômico é do Globo. Boa sorte aí para o Valor Econômico. Boa sorte para o jornal O Globo."

O presidente voltou a afirmar que avalia também estender a medida para editais do serviço público por meio de uma nova medida provisória.

Moro

O ministro da Justiça, Sergio Moro, participou da live semanal de Bolsonaro nesta quinta (8). 

Após sofrer uma derrota na Câmara, Moro tentou dissociar a sua imagem do pacote anticrime, apresentado como o seu cartão de visita na pasta.
 
Na live, ele disse que a proposta não é sua, mas do governo Jair Bolsonaro, e apelou à sensibilidade dos deputados federais para que ela seja aprovada neste ano.
 
 "A gente respeita muito a pauta da Câmara, apenas estamos chamando a sensibilidade desse projeto. Se me permite uma correção: não é um projeto do Moro, é um projeto do governo Jair Bolsonaro e é um projeto que interessa a sociedade em geral", disse.
 
Na terça-feira (8), o grupo de trabalho que analisa o pacote rejeitou a inclusão no texto final do chamado “plea bargain”, tipo de solução negociada entre o Ministério Público, o acusado de um crime e o juiz.
 
Bolsonaro lamentou nesta quinta a derrota sofrida pelo ministro, mas ressaltou que o ex-juiz federal "não julga mais ninguém" e que não pode decidir as coisas de forma unilateral, o que causou constrangimento no Ministério da Justiça.
 
A repercussão negativa levou o presidente a convidar o ministro a participar da live semanal, em uma tentativa de prestigiá-lo. Na transmissão online, ele disse esperar que o Poder Legislativo trate o tema com "velocidade" e "responsabilidade".
 
"Nós esperamos que o Parlamento se debruce sobre isso e coloque em votações. Com certeza, vão fazer  algumas alterações, isso é natural", afirmou.
 
Moro disse ainda que a sociedade clama por mais segurança e que o Ministério da Justiça tem atuado para garanti-la. Segundo ele, o pacote anticrime tem condições de diminuir a violência.
 
"Ninguém vai conseguir zerar a violência no Brasil. Nós temos de ter medidas que desestimulem quem, por ventura, queira cometer o crime", disse o presidente.

Na live, o presidente, em tom descontraído, fez uma brincadeira de duplo sentido com Sergio Moro. Ao se despedir, o ministro da Justiça disse que trocaria seu lugar com o colega de Esplanada, Ricardo Salles, do Meio Ambiente, como coadjuvante na gravação presidencial. "Vai fazer um troca-troca com o Salles, aí", disse Bolsonaro.

Depois da frase, Bolsonaro emendou: "é brincadeira".
 
O presidente afirmou ainda que pedirá ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que paute projeto que reduz a maioridade penal para crimes graves, como sequestro, tráfico de drogas e lesão corporal seguida de morte.
 
"Vou pedir a ele para colocar em pauta a redução da maioridade penal para esses crimes", disse. "Não é o que gostaria. Eu queria que passasse para 16 anos para todos crimes", ressaltou.
 
Em julho, a Casa já havia imposto uma derrota ao ministro de Bolsonaro ao rejeitar a possibilidade de prisão em segunda instância, que era prevista no pacote.

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