Doria está morto para 2022 e chefe da AGU é mais 'supremável' que Moro, diz Bolsonaro

Declarações vêm em meio a troca de farpas com tucano e desgaste com ministro

Danielle Brant
Brasília

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), está “morto” para a disputa das eleições presidenciais de 2022, na avaliação do presidente Jair Bolsonaro (PSL). 

Também na opinião de Bolsonaro, o ministro da AGU (Advocacia-Geral da União), André Mendonça, é mais “supremável” que o ministro Sergio Moro (Justiça).

As declarações foram dadas por Bolsonaro neste sábado (31) durante conversa de 1h30 com um grupo de jornalistas no Quartel-General do Exército, em Brasília.

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta populares no Palácio da Alvorada - Antonio Cruz/Agência Brasil

A relação entre o presidente e o ministro está desgastada, com recentes episódios envolvendo a tentativa de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, subordinada a Moro, e no Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão que tinha um aliado do ministro no comando.

Os jornalistas foram convidados por Bolsonaro a participar de um almoço, organizado por militares. Não foram permitidos o uso de gravadores nem a entrada de telefones celulares. Ao final do almoço, Bolsonaro sentou à mesa com os jornalistas presentes para conversar.

Descontraído, Bolsonaro comentou um eventual indicação de Moro a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). Segundo ele, isso vai depender do “dia a dia” e de como o Senado avaliaria o ministro em uma sabatina.

Bolsonaro chegou a dizer neste ano que havia reservado uma das vagas a Moro, ex-juiz da Lava Jato que deixou a magistratura para se tornar ministro da Justiça do governo. Depois, negou haver qualquer acordo e disse apenas buscar alguém com o perfil dele.

O presidente também já disse algumas vezes que indicará a uma das vagas do STF um nome "terrivelmente evangélico".  

“Não me comprometi com o Moro no STF. Durante a campanha, o que eu prometi foi alguém do perfil do Moro”, disse novamente neste sábado. 

Ainda durante o almoço, o presidente disse então que o ministro da AGU é “terrivelmente supremável".

Não é a primeira vez que Bolsonaro elogia Mendonça. Em julho, ele já havia dito que o ministro da AGU era “terrivelmente evangélico” e um bom nome para o STF.

O primeiro ministro do Supremo que deve deixar a corte é o decano Celso de Mello, que completa 75 anos —a idade de aposentadoria obrigatória— em novembro de 2020. A segunda vaga no STF deve ficar disponível com a aposentadoria de Marco Aurélio Mello, em julho de 2021.

Doria em 2022

Na conversa, Bolsonaro também falou sobre a corrida presidencial de 2022. Para ele, Doria está morto como candidato na próxima eleição. Na opinião, o tucano não tem chances na disputa. “Não dá para forçar ser quem você não é.”

Neste sábado, Doria comentou a fala do presidente. "Não é hora de eleição, é hora de gestão. Nós temos que governar. Não temos que polemizar", disse.

O governador lembrou que o país tem quase 13 milhões de desempregados e emendou: "Acredito que a melhor opção para o presidente Jair Bolsonaro é cuidar do país". 

Doria disse ainda que perdoa Bolsonaro, que não leva seus ataques a mal e que não incorpora as palavras ditas contra ele. 

"Eu reconheço as agruras, a dificuldade e a pressão que ele sofre. Então, da minha parte, ele tem o perdão e o bom sentimento. Nós vamos continuar trabalhando juntos. [...] Portanto, da minha parte, ele não vai ter um antagonismo e muito menos um antagonista."
 
O governador de São Paulo pegou carona em Bolsonaro para se eleger na eleição de 2018. O slogan "Bolsodoria", no entanto, é coisa do passado —Doria tem buscado se distanciar do presidente. 

Bolsonaro já se declarou candidato à reeleição em 2022, enquanto Doria também aparece como postulante ao Palácio do Planalto nas próximas eleições. 

Apesar da troca de ataques cada vez mais constante, Doria negou neste sábado que haja ruptura. "Nunca tivemos aliança com o governo Bolsonaro, apoiaríamos todas as medidas que julgássemos positivas", disse. 

O tucano tem feito uma série de críticas indiretas à atuação do presidente. A mais recente na crise do desmatamento, durante visita à Alemanha nesta semana.

O presidente também tem feito ataques a Doria. Na quinta (29), disse que o tucano havia "mamado nas tetas do BNDES", em referência à compra de jatinho a juros subsidiados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

"Nunca precisei mamar em teta nenhuma", rebateu Doria no dia seguinte.

Eleições municipais

Em relação às eleições municipais do próximo ano, ele afirmou ainda não ter decidido se apoiará a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), na disputa à Prefeitura de São Paulo. “Não estou apoiando ninguém agora”, disse. Ele pretende indicar nomes para dez capitais, mas não detalhou quais.

“Se eu não mandar, tô fora”, disse, sem especificar se poderia deixar o PSL caso suas sugestões não sejam acatadas. Para ele, o presidente do PSL, Luciano Bivar, só deveria indicar candidatos às prefeituras onde o próprio Bolsonaro não tivesse nenhum nome a apontar. “E mesmo assim vai ter que passar pelo meu crivo.”

Sucessão de Dodge

O presidente comentou ainda o perfil das próximas indicações que deve fazer em seu governo, como à PGR (Procuradoria-Geral da República). Segundo ele, o nome ainda não foi escolhido, mas será decisão unicamente sua.

Bolsonaro recebeu cinco candidatos à chefia do MPF, mas, entre os que compõem a lista tríplice, somente o primeiro colocado, Mário Bonsaglia, o procurou. Os outros dois, disse, não o buscaram. 

O presidente não se esquivou de nenhuma das perguntas feitas pelos jornalistas. Em alguns momentos, como ao relembrar das cirurgias pelas quais precisou passar após a facada na barriga dada por Adélio Bispo de Oliveira, Bolsonaro se emocionou e chorou. Afirmou não sentir dor alguma.

Quase um ano depois, o presidente negou ainda que o episódio tenha sido responsável por sua eleição. “A facada não me elegeu. Eu já estava eleito.”

Vestindo uma blusa branca com um adesivo da Festa do Peão de Boiadeiro e um colete à prova de balas, Bolsonaro a toda hora era cumprimentado por presentes. Participou de uma live com a família de uma convidada e tirou muitas fotos com quem estava lá.

Apesar do bom humor, o presidente expressou descontentamento com alguns tópicos. Disse, por exemplo, ter ficado magoado com a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial a penas mais rígidas a quem dissemina fake news: “Fiquei chateado”. 

Afirmou ainda que pretende vetar 9 dos 10 pontos da lei de abuso de autoridade contestados por Moro, conforme antecipado pela coluna Painel. Entre os itens que Bolsonaro estaria pensando em vetar está o artigo que proíbe o uso de algemas em caso de não resistência do preso à atuação policial.

Após a derrubada do veto na lei das fake news, ele não descartou sofrer nova retaliação do Congresso caso ele decida vetar trechos da lei de abuso de autoridade.

Indulto

O capitão reformado confirmou uma proposta polêmica anunciada recentemente, de que pode dar indulto no final do ano a policiais presos “injustamente”. Tradicionalmente o presidente da República edita ao final do ano um decreto de indulto de Natal.

O presidente estabelece no decreto determinados requisitos mínimos para definir quem pode ser beneficiado com o perdão. Essa prerrogativa presidencial gerou polêmica em 2017.

Bolsonaro, que disse que o indulto terá critérios, afirmou, por exemplo, que concederia o benefício ao coronel Ubiratan Guimarães, assassinado em 2006, e a outros policiais condenados pelo massacre no Carandiru

No episódio, 111 presos foram mortos por policiais militares após uma rebelião em São Paulo, em 1992. Mais tarde, o julgamento em que eles foram condenados acabou anulado. A Justiça no ano passado determinou novo júri sobre a chacina. 

O presidente afirmou ainda que daria o indulto aos policiais acusados de assassinar, em 1996, trabalhadores rurais sem-terra no massacre de Eldorado do Carajás, no Pará, e também aos policiais acusados —e absolvidos— pela morte de Sandro do Nascimento, autor do sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro. 

Colaborou Carolina Linhares, de São Paulo

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