Descrição de chapéu Lava Jato

Federação pede para PF rever punição de agente que pôs grampo a mando de delegada

Como a Folha revelou, policial foi punido por escuta que investigou suspeita de opositores na Lava Jato

José Marques
São Paulo

A Federação Nacional dos Policiais Federais vai pedir à Corregedoria da PF a revisão de punição aplicada contra um agente responsável pela instalação de dois grampos na superintendência do órgão em Curitiba.

O pedido será feito após a Folha revelar que, em sindicância interna, a delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues afirmou ter ordenado ao agente Dalmey Werlang a instalação de uma das escutas no fumódromo do prédio para investigar a conduta de policiais suspeitos de atuarem contra a Operação Lava Jato.

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Fachada da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR) - Guilherme Pupo/Folhapress

A delegada disse, no depoimento, que não havia autorização judicial para a instalação dessa escuta. Os episódios aconteceram entre 2014 e 2015, mas ainda há apurações internas a respeito dos casos.

Segundo a nota da entidade, "uma vez que a própria delegada confessou que deu a ordem para a instalação do grampo clandestino", sem ter providenciado mandado judicial, será discutida com a chefia da corporação "a revisão da punição, com absolvição do agente federal Dalmey Werlang".

Antes do grampo do fumódromo, de 2015, foi instalada em 2014 uma escuta na cela do doleiro Alberto Youssef, que gravou 260 horas (11 dias) de conversas no local. Laudo da PF identifica inclusive falas de outros presos, como o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e a doleira Nelma Kodama.

"A Fenapef (federação nacional) e o Sindicato dos Policiais Federais do Paraná acompanham o caso desde o início, inclusive durante a CPI que averiguou os grampos na cela de Alberto Youssef e no local chamado 'fumódromo', ambos instalados irregularmente no interior da superintendência do Paraná", diz a nota da entidade.

"Foram instaurados um processo administrativo e um inquérito sigiloso, numa tentativa de alcançar o agente Dalmey e também o presidente do sindicato à época. Ambos foram arquivados pela Justiça, por absoluta falta de provas."

Na sindicância do grampo do fumódromo, a delegada Daniele e o agente Dalmey admitiram ter instalado uma escuta dentro da superintendência do órgão em Curitiba, sem autorização judicial, para investigar funcionários da corporação suspeitos de atuar contra a Lava Jato nos primeiros anos da operação.

No entanto, após três anos de apurações sobre a conduta dos dois, apenas o agente foi punido —não pela instalação clandestina do equipamento, mas por ter informado “de forma imprópria” a outros policiais federais sobre o grampo.

A delegada que ordenou o grampo ilegal ao agente era a então chefe do NIP (Núcleo de Inteligência Policial) do Paraná.

Vídeos e documentos da Sindicância Investigativa nº 5/2015, que tramitou sob sigilo e investigou o episódio do grampo, foram obtidos pela Folha. Procurada, a Polícia Federal confirmou que houve a apuração e que foi aplicada a punição ao agente —18 dias de suspensão, em novembro de 2018.

Daniele é casada com o delegado Igor Romário de Paula, que foi integrante da força-tarefa da Lava Jato na PF de Curitiba. Depois que o ex-juiz Sergio Moro se tornou ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, o delegado virou diretor de combate ao crime organizado da corporação, em Brasília. 

Já ela foi designada em maio substituta da divisão antiterrorismo da Diretoria de Inteligência Policial. Procurado, o agente Dalmey Werlang não se manifestou.

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