Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Alvo da PF, líder do governo no Senado coloca cargo à disposição de Bolsonaro

Onyx definirá com presidente a situação de Bezerra Coelho (MDB); Marcos Rogério, do DEM, é o favorito para uma eventual troca

Daniel Carvalho Gustavo Uribe
Brasília

Principal articulador do presidente Jair Bolsonaro no Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) deixou seu cargo de líder do governo à disposição depois que foi alvo de uma operação da Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (19).

Bezerra disse que conversou sobre o tema com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. "Tomei a iniciativa de colocar à disposição o cargo de líder do governo para que o governo possa, ao longo dos próximos dias, fazer uma avaliação se não seria o momento de proceder uma nova escolha ou não", afirmou.

A Polícia Federal realizou pela manhã uma operação no Congresso que tem como alvo Bezerra Coelho e um de seus filhos, o deputado Fernando Coelho Filho (DEM-PE).

Os fatos investigados são da época em que Bezerra Coelho era ministro da Integração Nacional de Dilma Rousseff (PT). Um dos focos são as obras de transposição do rio São Francisco.

"Quero deixar, desde pronto, o governo à vontade para que, fazendo o juízo da necessidade de um novo interlocutor, que não haverá, da minha parte, nenhuma dificuldade. Vou continuar ajudando na agenda que acredito, que é a agenda da área da economia", disse o senador.

Bezerra Coelho disse estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e afirmou entender que houve excesso na decisão judicial que autorizou a operação.

"Não havia nenhuma necessidade dessas diligências nas minhas residências e nos meus locais de trabalho", disse o senador, que deixou seu apartamento para reunir-se com advogados em outro local.

Em evento, Onyx disse que definirá no final de semana, em conversa com Bolsonaro, a situação de Bezerra Coelho, mas que a posição do governo, neste momento, é de "aguardar os acontecimentos". Ele ponderou que a investigação se refere a "fatos passados".

"A posição de nosso governo é de aguardar os acontecimentos. Eu estou sendo informado agora que ele colocou o cargo à disposição. No final de semana, vou conversar com o presidente e nós vamos ver que atitude vai ser tomada. Mas, neste momento, nós temos de aguardar. É uma questão individual dele e de vida pregressa", disse.

No Palácio do Planalto, assessores lembram que o presidente foi eleito com a bandeira da ética e da nova política e que, por isso, a permanência de Bezerra Coelho como líder é considerada remota.

Nas discussões internas, dois nomes surgiram como opções: Marcos Rogério (DEM-RO) e Izalci Lucas (PSDB-DF).

O primeiro é considerado favorito. Além de ser próximo a Bolsonaro, tem uma boa relação com Alcolumbre e com Onyx. O fato de ser filiado ao DEM, no entanto, deve ser alvo de queixas do PSL, para quem a sigla já tem ocupado muito espaço na Esplanada dos Ministérios.

Marcos Rogério riu ao ser abordado pela reportagem e negou qualquer contato até o início da tarde. “Ninguém me consultou. Esta é uma decisão do presidente da República e passa pelo presidente do Senado. Primeiro, o governo tem que saber o que fazer em relação ao líder Fernando Bezerra, se vai aceitar a entrega do cargo ou não”, afirmou.

Izalci, que é vice-líder do governo no Senado, disse à Folha que não foi procurado pelo governo e que não acredita na saída de Bezerra Coelho. 

​Davi Alcolumbre soube por volta das 6h, pela Polícia Legislativa, que a Polícia Federal estava nas dependências do Congresso para cumprir mandados de busca e apreensão contra Bezerra Coelho. Sua primeira preocupação foi com a imagem do Senado.

O presidente do Senado orientou a Polícia Legislativa a autorizar e acompanhar a entrada da PF, mas explicitou que não queria espetacularização, com imagens de arrombamento de gabinetes, o que poderia acontecer, já que a Casa não funciona nas primeiras horas da manhã e as salas ficam fechadas.

Segundo pessoas próximas ao presidente do Senado, ele vê na operação o início de uma nova crise tanto para a Casa como para o Palácio do Planalto. 

Ele e demais parlamentares da Casa consideram Bezerra Coelho um articulador respeitado por todos os senadores, capaz de estabelecer diálogo inclusive com a oposição. A cúpula do Congresso não vê um nome para substituí-lo, caso Bolsonaro resolva tirar o senador do cargo.

Nomes como Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e do líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), são vistos por senadores como inviáveis. O primeiro por ser filho do presidente e protagonizar polêmicas que vão desde investigações a brigas com senadores de seu próprio partido.

Uma das brigas é justamente com Olímpio, com quem discutiu por causa do apoio do colega à CPI da Lava Toga, comissão parlamentar de inquérito que um grupo de senadores tenta instalar desde o início do ano para investigar integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal).

Olímpio desgastou-se por causa do entrevero e há grandes chances de que ele deixe o partido e migre para o Podemos, como aconteceu nesta quarta-feira (18) com a senadora Juíza Selma (MT), com quem Flávio também brigou.

Polícia Federal faz operação de busca e apreensão no gabinete do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), líder do governo no Senado, e no gabinete da liderança do governo - Pedro Ladeira/Folhapress

Alvo de operação da Polícia Federal, Bezerra Coelho comandou o Ministério da Integração de 2011 a 2013, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), quando Eduardo Campos rompeu com o PT para começar sua campanha presidencial e obrigou o PSB a entregar todos os cargos.

Um dos focos da investigação da PF desta quinta-feira são as obras de transposição do rio São Francisco. A transposição é a maior obra hídrica do Brasil. O eixo leste foi inaugurado às pressas e, o norte segue sem previsão para conclusão. O orçamento inicial de toda a obra saltou de R$ 4,5 bilhões para R$ 12 bilhões.

A obra, sempre apontada como a redenção do Nordeste a partir do beneficiamento de 12 milhões de pessoas e do impulsionamento de um novo modelo econômico, hoje apresenta sinais visíveis de deterioração, como mostrou a Folha em reportagem no início deste mês: paredes de concreto rachadas, estações de bombeamento paralisadas, barreiras de proteção rompidas, sistema de drenagem obstruído e assoreamento do canal em alguns trechos. 

Devido aos atropelos gerados pela conveniência do prazo político, o empreendimento hídrico não suportou entrar em funcionamento antes do tempo. Foi inaugurado sem nem sequer ter a drenagem completamente executada e o sistema operacional de controle implantado.

O eixo leste, que corta Pernambuco e Paraíba, foi inaugurado às pressas pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), em março de 2017, e logo em seguida, de maneira simbólica, pelo petistas Lula e Dilma Rousseff. A água sumiu há cinco meses e parte da região, que vislumbrou o fim da indústria da seca, continua sendo abastecida por carros-pipas.

 
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