Descrição de chapéu

Biografia revela nuances de Irmã Dulce e pessoas cruciais em sua trajetória

Religiosa gostava de futebol e de dar apelidos, mas foi gestora exigente que construiu obra social com mão de ferro

João Pedro Pitombo
Salvador

Um frade alemão que foi seu conselheiro, um médico comunista que era seu braço direito e um empreiteiro que deu suporte financeiro à sua obra social. Uma tia carola que lhe mostrou a pobreza, uma faxineira que virou sua confidente e até um presidente da República que um dia lhe beijou os pés.
 
A biografia “Irmã Dulce, a Santa dos Pobres”, do jornalista Graciliano Rocha, revela as nuances da freira para além de sua obra social e dá protagonismo a homens e mulheres que ela amalgamou à sua trajetória.

A religiosa, que será canonizada no próximo dia 13 de outubro no Vaticano e se tornará Santa Dulce dos Pobres, a primeira mulher brasileira a ser declarada santa pela Igreja Católica, foi uma personagem complexa e cheia de camadas.

Na superfície, há a história que o Brasil conhece: uma freira que, a partir do galinheiro do convento, construiu um dos maiores complexos de assistência médica e social gratuita do país.
 
Indo mais a fundo, surgem novas Irmãs Dulces: a menina que era louca por futebol, a adolescente que trocou a torcida do time do Ypiranga por visitas aos cortiços de Salvador, a religiosa que fazia piadas e gostava de dar apelidos e a gestora exigente que tocou sua obra social com voz suave e mãos de ferro.
 
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em uma família de classe média alta em 1914, em Salvador. Na adolescência, despertou a sua vocação para a religião, e, em 1933, seguiu para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em Sergipe.
 
Dois anos depois, em 1935, voltou a Salvador. É a partir daí que a trajetória da freira assume camadas mais profundas e ganham protagonismo os homens e as mulheres que foram determinantes em sua formação e na construção de sua obra social.
 
Alguns deles são pouco conhecidos até mesmo entre os baianos, caso do frade alemão Hildebrando Kruthaup. Fundador do Círculo Operários da Bahia, ele levou Irmã Dulce para evangelizar no chão de fábrica. Foi um protetor, conselheiro e professor da freira na arte de arrancar contribuições dos poderosos para bancar o seu trabalho social.
 
Outro aliado em sua trajetória foi o seu pai, o dentista e professor Augusto Lopes Pontes, que fazia boa parte dos contatos com o empresariado e com a elite do clero baiano e foi responsável pela forte carga de personalização das obras sociais da filha.
 
Ao longo do livro, ainda surgem outros personagens menores, mas não menos instigantes: a tia carola Maria Magdalena, que a levou pela primeira vez à favela dos Alagados, e a funcionária Walkíria Maciel, que se tornou sua confidente e, com alguns quilos a mais, era chamada jocosamente pela freira de “Esqueleto”.

O livro ainda revela a face pragmática de Irmã Dulce em sua relação com os poderosos. Em seus dez anos de pesquisa para escrever o livro, o jornalista Graciliano Rocha não encontrou um momento sequer no qual a freira tenha tomado partido de um determinado grupo político.
 
Enquanto os associados do Círculo Operário da Bahia e do Colégio Santo Antônio, ambos fundados pela freira, participavam de manifestações a favor do golpe de 1964, Irmã Dulce tinha como braço direito o médico comunista Gerson Mascarenhas.
 
Ele foi preso duas vezes: a primeira após o golpe e depois, em 1968, com o recrudescimento do regime militar. A freira interveio por sua soltura: “General, preciso desse médico”, disse. Não teve sucesso.
 
Foi apoiada por empresários como o empreiteiro Norberto Odebrecht e o banqueiro Ângelo Calmon de Sá, que ajudaram as obras sociais não só com dinheiro, mas também contribuindo para a gestão da entidade.
 
Teve uma relação dúbia com políticos como o então governador Antonio Carlos Magalhães e com os presidentes da República, do general Eurico Dutra (1946-1951) ao general João Figueiredo (1979-1985). Mas gozava de uma a amizade sincera do presidente José Sarney, que a visitou na Bahia em 1992 e beijou seus pés no leito de morte.
 
A biografia ainda se debruça sobre a espiritualidade da freira, sua saúde frágil, o calvário das penitências que promoveu para si mesma, seu trabalho social junto à população pobre e o reconhecimento que a tornou, ainda em vida, uma das religiosas mais populares do Brasil.
 
É a história que agora chega ao seu ápice, com a canonização de Irmã Dulce pelo papa Francisco. Um caminho que, por si só, já valeria o livro. 

Irmã Dulce, a Santa dos Pobres

  • Preço R$ 49,90
  • Autor Graciliano Rocha
  • Editora Planeta

A FÉ NO BRASIL

Alguns dos santos e beatos

Madre Paulina (1865-1942)
Nascida na Itália, foi canonizada em 2002, 60 anos após a sua morte

Frei Galvão (1739-1822)
Nascido no Brasil, recebeu o título de santo em 2007, 185 anos após a morte

José de Anchieta (1534-1597)
Canonizado em 2014, num processo iniciado em 1597. Não tem milagres comprovados –o papa Francisco dispensou a necessidade

Mártires do RN
Em 2017, o papa canonizou 30 mártires assassinados no século 17 no Rio Grande do Norte, no período de dominação holandesa

Irmã Dulce (1914-1992)
Beatificada em 2011, será proclamada santa pelo Vaticano em outubro

Padre Donizetti
Morreu em 1961 em Tambaú (SP) e foi beatificado pelo papa Francisco

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