Leia perguntas e respostas sobre conspirações criadas após facada em Bolsonaro

Boatos a respeito do ataque, que completa um ano nesta sexta, alimentam teorias

Joelmir Tavares Fernanda Canofre
Juiz de Fora e Belo Horizonte

A facada em Jair Bolsonaro (PSL) completa um ano nesta sexta-feira (6) envolta em boatos, especulações e fake news, que alimentam teorias.

O autor do atentado, Adélio Bispo de Oliveira, está preso pelo crime no presídio federal de Campo Grande (MS), onde mantém a obsessão de matar o presidente.

Entre rumores e evidências, veja o que se sabe até agora sobre o ataque contra o então candidato, hoje presidente da República. O caso é investigado pela Polícia Federal.

A hipótese de que a facada tenha sido uma simulação foi investigada?  A informação foi considerada, mas a Polícia Federal não se aprofundou na possibilidade, por considerá-la absurda. Os médicos que atenderam Bolsonaro confirmaram o ferimento a faca. Além disso, havia vestígios do DNA dele na lâmina, e a cena do ataque foi registrada por várias câmeras.

O agressor agiu por conta própria?  Adélio diz que teve a ideia de matar Bolsonaro sozinho e que não recebeu ajuda. A PF não conseguiu identificar, até o momento, a participação de ninguém mais.

Por que Adélio tentou matar Bolsonaro?  Ele diz que ouve a voz de Deus e que foi a mando dele que tentou matar o candidato, para “proteger o Brasil”. Afirma que Bolsonaro representa ideologia da qual discorda e que seu governo teria como objetivo dizimar minorias, inclusive negros como ele. Após a prisão, laudo médico concluiu que Adélio é doente mental.

As suspeitas levantadas no documentário apócrifo “A Facada no Mito”, disponível no YouTube, foram averiguadas?  Sim, e descartadas. A maioria dos homens que o vídeo aponta como supostos ajudantes de Adélio eram policiais à paisana trabalhando na segurança de Bolsonaro. 

Um deles, alvo de xingamentos e ameaças, pediu licença médica por causa do vídeo. Já o jovem de camiseta branca, indicado como alguém que entrega um pacote a Adélio, se identificou como apoiador do presidente e se disse indignado pelas acusações.

Seguranças de Bolsonaro facilitaram o acesso de Adélio?  A hipótese, que aparece no vídeo “A Facada no Mito”, foi descartada pelos investigadores, que tomaram depoimentos dos membros da escolta, de voluntários e de apoiadores que participavam do ato pró-Bolsonaro e presenciaram o crime.

Adélio agiu a mando do PCC (Primeiro Comando da Capital)?  A suposta ligação com o PCC também foi derrubada. A PF confirmou que um dos advogados de defesa tem clientes da facção criminosa, mas concluiu que não há ligação entre eles e Adélio. A polícia investigou a possibilidade de que um sobrinho de Adélio, que esteve preso, tivesse algum vínculo com o grupo, mas não confirmou a suspeita.

Quem está pagando os advogados de Adélio?  A dúvida é investigada em um segundo inquérito da PF, que só depende dessa informação para ser concluído. A apuração busca saber se o pagamento relatado pelos advogados de defesa realmente existiu.

O que o advogado Zanone Manuel de Oliveira, do escritório que representa Adélio, fala sobre os honorários?  Ele diz que foi procurado por uma pessoa de uma igreja evangélica frequentada por Adélio que lhe entregou R$ 5.000 em dinheiro em seu escritório. Mas, segundo o advogado, essa pessoa sumiu e não fez mais pagamentos.

Duas pessoas morreram na pensão onde Adélio morou?  Sim. As duas mortes, ocorridas depois da facada, foram averiguadas pela PF, que descartou relação delas com o episódio. Vizinhos confirmaram as informações à Folha. Uma das vítimas, a dona da pensão, morreu de câncer. A outra foi um hóspede, que era dependente químico e nunca teve contato com Adélio nos cerca de 15 dias em que o autor do crime ficou instalado no local. A pensão fechou, e no espaço passou a funcionar um restaurante.

Adélio foi ao mesmo clube de tiro frequentado pelos filhos de Bolsonaro?  Sim, ele esteve no estabelecimento na época em que morava na região de Florianópolis. A ida dele ao clube de tiro .38, frequentado pelos filhos de Bolsonaro, foi uma coincidência, segundo a PF. As investigações mostraram que Adélio escolheu o local porque era o mais próximo da casa dele. Não procede a informação de que o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) esteve no local no mesmo dia do criminoso.

Como Adélio se mantinha?  Adélio teve vários empregos ao longo da vida e tinha ganho suficiente para se manter. Ao ser preso, ele possuía R$ 8.000 em uma conta no banco, recurso oriundo de parte do FGTS e de um acordo trabalhista em uma empresa de construção. Em 20 anos, trabalhou em 39 empresas, algo atípico. A PF não encontrou movimentações suspeitas nas contas dele.

A PF apreendeu quatro celulares, um notebook e cartões bancários com ele?  Sim. Os aparelhos foram periciados e forneceram provas para o processo. Dois dos aparelhos, contudo, não tinham condições de uso. O notebook estava sem funcionar. Os cartões eram referentes a contas de Adélio, que foram averiguadas e não exibiram informações relevantes para a apuração. Um dos cartões, de bandeira internacional, tinha sido enviado automaticamente pelo banco, mas não chegou a ser desbloqueado pelo cliente.

A Câmara dos Deputados, em Brasília, registrou a entrada de Adélio no prédio no dia da facada?  Sim, o que foi interpretado na época como uma possível tentativa de estabelecer um álibi. A Câmara informou, porém, que o registro ocorreu por engano: quando um recepcionista foi averiguar por curiosidade se Adélio já tinha estado no Congresso, ele se confundiu e, em vez de apenas pesquisar o nome, acabou anotando a entrada.

Por que Adélio foi absolvido?  Como ele foi declarado inimputável (incapaz de responder pelos atos) por ter insanidade mental, o juiz Bruno Savino, da 3ª Vara da Justiça Federal em Juiz de Fora, decidiu aplicar a chamada absolvição imprópria, figura jurídica usada quando o réu é comprovadamente autor do crime, mas não pode ser responsabilizado por ele.

Que doença o autor do ataque tem?Laudos feitos por psiquiatras e psicólogos concluíram que Adélio sofre de transtorno delirante persistente, um quadro que inclui alucinações, sensação de perseguição e desconexão com a realidade.

O agressor está se tratando?  Apesar de ter sido mantido na penitenciária federal de Campo Grande (MS) para receber tratamento em segurança, Adélio tem rejeitado medicamentos e atendimentos com profissionais de saúde mental. Ele não admite que está doente e diz que, portanto, não precisa de ajuda.

Até quando Adélio ficará preso?  A Justiça decidiu que Adélio permanecerá preso por tempo indeterminado, mas estabeleceu que ele deve passar por uma nova avaliação de saúde mental três anos depois da sentença, ou seja, em junho de 2022. 

A autorização para que ele continue na penitenciária de Campo Grande (MS), que faz parte do sistema de presídios federais de segurança máxima, tem que ser renovada a cada ano.

A família de Adélio, que mora em Montes Claros (MG), nunca visitou Adélio na cadeia, por não ter condições financeiras para providenciar a viagem até Campo Grande. Eles também afirmam que não têm auxílio dos advogados que o defendem e que não sabem quem contratou os defensores.

Por que ele não deu entrevistas desde que foi preso?   A 5ª Vara Federal de Campo Grande chegou a autorizar Adélio a falar com jornalistas da revista Veja e do SBT, mas, em agosto, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu a permissão, a pedido do MPF (Ministério Público Federal).

A justificativa foi a de que há dúvidas sobre a integridade mental do preso. Para o MPF, uma entrevista com Adélio poderia colocá-lo em uma “condição de celebridade” e pôr em risco sua segurança.

Adélio tem outros alvos além de Bolsonaro?   Na cadeia, ele mantém o plano de matar o presidente e diz que, se um dia for solto, vai executar o que considera uma “missão divina”. Também afirma que recebeu ordens para acabar com a vida do ex-presidente Michel Temer (MDB), por sua ligação com a maçonaria, e que essa se tornou uma “questão pessoal”.

Por que os advogados de Bolsonaro não recorreram da absolvição?A defesa do presidente acredita que Adélio não agiu sozinho e que ele foi apenas o executor do plano. Diz que a única medida cabível é o tratamento, mas não descarta novas medidas caso a investigação indique a participação de terceiros.

Qual é a relação de Adélio com a maçonaria?  Ele se opõe à organização, que considera ter envolvimento em uma “conspiração satânica global” para prejudicar o Brasil. Em depoimentos, Adélio afirmou que a confraria quer entregar riquezas do país ao FMI (Fundo Monetário Internacional), à máfia italiana e aos maçons.

O que é a maçonaria?  É uma confraria mundial, que teve origem na Idade Média e possui forte representação no Brasil. Os membros refutam a pecha de sociedade secreta e preferem classificá-la como uma instituição dedicada às bandeiras filosófica, filantrópica, educativa e progressista.

Adélio foi filiado ao PSOL?  O diretório do PSOL de Uberaba (MG), onde Adélio foi filiado entre 2007 e 2014, também foi investigado. Adélio nunca participou de reuniões e se desligou por conta própria. A decisão, segundo ele, foi porque o partido não quis lançá-lo candidato a deputado federal.

Por que não apareceu sangue na camiseta de Bolsonaro?  Segundo médicos, a ausência de sangue é normal. A hemorragia após a facada ocorreu internamente, já que a musculatura abdominal se contraiu, bloqueando vazamentos. O corte na pele foi pequeno (cerca de 3 cm). O paciente chegou ao hospital com aproximadamente 2 l de sangue espalhados dentro da barriga.

Quem paga as despesas médicas de Bolsonaro?  Ele foi atendido inicialmente pelo SUS, na Santa Casa de Juiz de Fora, e depois transferido para o hospital Albert Einstein, em São Paulo. Não está claro como foi paga a conta no hospital privado referente à primeira internação, em 2018.

A assessoria de Bolsonaro dizia à época que os custos seriam cobertos pelo plano de saúde da Câmara dos Deputados, já que ele era parlamentar. O Legislativo, porém, diz que nunca recebeu pedido de reembolso. A segunda internação no Einstein, em 2019, custou R$ 400 mil e foi paga pela Presidência da República.

Bolsonaro ficou com sequelas ou consequências por causa do ataque?   Segundo os médicos, não. Apesar de ter perdido parte do intestino nas três cirurgias a que foi submetido, ele tem um quadro de saúde normal e é considerado saudável.

A única consequência associada ao ataque é o surgimento de hérnias na região onde a barriga foi aberta para as operações. Bolsonaro tem prevista para este domingo (8) nova cirurgia para corrigir uma dessas hérnias.

Bolsonaro estava com câncer e forjou o ataque para poder se tratar sem revelar a doença?  Não. A hipótese, difundida em redes sociais, foi descartada pela Polícia Federal. Médicos que o atenderam foram questionados acerca do tema e responderam que a história desafia a lógica.

Segundo eles, seria improvável que a família resolvesse submetê-lo a uma cirurgia do tipo com médicos sem nenhuma relação com o paciente, em um hospital desconhecido, sem exames pré-operatórios.

Que interferência a facada teve para a eleição de Bolsonaro?  O presidente diz que já se considerava eleito quando sofreu o ataque, mas outros políticos e analistas dizem que o quadro eleitoral ainda estava indefinido àquela altura. Bolsonaro liderava as pesquisas e, depois da facada, assumiu de vez a dianteira.

Por causa da facada, ele se ausentou de debates na TV e passou a ter uma exposição na mídia superior à dos adversários, que, por respeito, suspenderam críticas a ele.

Hoje como presidente, Bolsonaro faz uso político do episódio?   Sempre que possível, o presidente menciona que quase foi morto pela ação de um adversário. Com frequência, ele frisa que o autor foi filiado ao PSOL, um dos partidos que se opõem a ele. Também mantém as insinuações de que Adélio não agiu sozinho e que há outras pessoas e interesses por trás do ataque.

Bolsonaro doou dinheiro das sobras de campanha para a Santa Casa de Juiz de Fora?   Não. Embora ele tenha feito a promessa de doar parte do dinheiro arrecadado via financiamento coletivo, foi impedido pela legislação eleitoral, que veda o uso do excedente de campanha e determina a devolução dos valores à União.

A Santa Casa, no entanto, diz que recebeu R$ 1,3 milhão em doações espontâneas depois do atendimento a Bolsonaro. O montante será usado na criação de um novo CTI, com dez leitos.

Onde está a faca usada no crime?   Ela será enviada para o Museu Criminal da Polícia Federal, com sede em Brasília. Antes, o objeto ficou sob a guarda da Justiça, já que foi prova no processo e teve que passar por perícia.

Adélio tinha um plano de fuga após o crime?   Adélio achou que seria morto após o atentado e estava preparado para isso. Ele tinha convicção de que, se conseguisse matar Bolsonaro, os apoiadores ao redor não o deixariam sair vivo do ataque.

À PF ele afirmou que, se tivesse uma arma de fogo, teria matado Bolsonaro e os policiais da escolta. Adélio foi contido por eleitores e policiais após cometer o crime. Algumas pessoas o agrediram.

Lula (PT) disse que a facada foi forjada?   Em entrevista, o ex-presidente afirmou que a facada “tem uma coisa muito estranha”, já que não aparece sangue. “O cara que dá a facada é protegido pelos seguranças do Bolsonaro, a faca que não aparece em nenhum momento”, disse.

Questionado novamente dias depois, afirmou que tinha suspeitas sobre o ocorrido: “Não, eu não disse que não tinha tomado, eu disse que não acreditava [que Bolsonaro levou uma facada]”.

Qual a relação entre a investigação do caso e os ataques de Bolsonaro ao presidente da OAB?   Bolsonaro reclamou da decisão da OAB de barrar na Justiça a perícia em celulares e contas bancárias do advogado que representa Adélio, Zanone Manuel de Oliveira. A OAB disse ter agido para garantir o sigilo profissional. Para o presidente, a entidade quis impedir a apuração da Polícia Federal para proteger o advogado.

Bolsonaro disse, em tom sarcástico, que poderia explicar ao presidente nacional da entidade, Felipe Santa Cruz, como o pai dele desapareceu durante a ditadura militar (1964-1985).

Todas as investigações já foram encerradas?   Não. Ainda há um inquérito em curso, o segundo aberto sobre o caso, que investiga possíveis mandantes, mentores, comparsas ou financiadores. Em setembro de 2019, o Ministério Público Federal autorizou a PF a prorrogar em 90 dias o prazo para concluir a apuração. A última questão a ser elucidada é quem teria contratado os advogados de Adélio.

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