Memorial em prédio que foi centro de tortura em MG terá mais 3 anos de atraso

Previsto para ser inaugurado em 2019, espaço é adiado de novo pelo governo do estado

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

​Em dezembro de 1971, quando o metalúrgico Sálvio Penna chegou ao prédio de quatro andares de linhas modernistas onde funcionava o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e a Delegacia de Furtos e Roubos em Belo Horizonte, havia uma obra em andamento. Os policiais revestiam uma sala com placas de cortiça. O objetivo era abafar o som dos gritos nas sessões de tortura. 

O edifício da avenida Afonso Pena, 2.351, uma das principais vias da capital mineira, é alvo de um projeto antigo para que seja transformado em museu, lembrando as violações da ditadura militar. O que deveria se concretizar em 2019, porém, terá um atraso de mais três anos, segundo o governo de Minas Gerais. 

O Memorial de Direitos Humanos já tem dinheiro do fundo de direitos difusos do estado, mas a gestão Romeu Zema (Novo) diz que busca recursos adicionais. Sem previsão de orçamento, o governo afirma que quer ampliar a obra que estava prevista no governo anterior. 

Interior do prédio que serviu de centro de tortura em Minas
Interior do prédio que serviu de centro de tortura em Minas - Divulgação

A história de Sálvio é uma das que marcaram o prédio. Ele foi preso junto com a mulher, Ana Lúcia, e o filho de cinco dias. Ela ainda tinha os 33 pontos na vagina, feitos depois do parto, quando foi torturada. O casal militava na Ação Popular (AP), organização criada pela juventude católica. 

Mantido nas celas do subsolo, Sálvio lembra que passou por tortura durante 40 dias consecutivos, dia e noite, e sempre no terceiro andar, onde funcionava o Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna, subordinado ao Exército).

“Com todo tipo de tortura. Cigarro no ânus, choque elétrico, pau-de-arara, palmatória, pancadaria. Eles disseram para mim que minha mulher tinha morrido, chegaram inclusive a mostrar o atestado de óbito. E eu acreditei”, lembra ele, hoje com 76 anos. 

A ideia é que o espaço que abrigou sessões de tortura se transforme em uma ocupação híbrida, como o Museu Sítio de Memória, localizado no Espaço Memória e Direitos Humanos (Esma), em Buenos Aires, onde ficava prédio da Escola de Mecânica da Armada —um dos principais centros de tortura e repressão da ditadura argentina (1976-1983).

 

“A gente quer ocupar o prédio todo com a temática de direitos humanos, para ficar os lugares de memória preservados como memorial de visitação e educação, e outras salas específicas”, afirma a superintendente de promoção de direitos humanos do estado, Maria Gabriela Araújo Diniz. 

O prédio é um dos dois memoriais sobre a época da ditadura militar previstos para serem instalados em Belo Horizonte. O Memorial da Anistia Política do Brasil, que seria financiado pelo governo federal e funcionaria na antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Fafich), porém, foi cancelado em anúncio feito pela ministra Damares Alves no mês passado. 

A lei que prevê a destinação do antigo prédio do Dops foi sancionada em 2000, ainda no governo Itamar Franco (PMDB).

Após anos sem avanços, Nilmário Miranda, ex-secretário de direitos humanos do governo Lula (PT), assumiu a mesma pasta no governo do estado, com o petista Fernando Pimentel (2015-2019), e falou em fazer do museu uma prioridade. 

Em 2015, funcionava no local o Departamento de Investigação Antidrogas da Polícia Civil, com 10 delegados e 110 investigadores, segundo ele. A polícia levou dois anos para desocupar o prédio. “Eu fui preso lá em 1968. A cela onde fiquei preso por 32 dias está lá, do mesmo jeito”, diz Nilmário, 72. 

O edifício foi desenhado pelo arquiteto Hélio Ferreira Pinto, como parte de um projeto de modernização dos prédios de segurança pública do estado, nos anos 1950. Expoente da arquitetura modernista, ele assinou também o prédio do Banco Central, em Brasília. Com estreitas relações com os militares, tinha uma rivalidade com Oscar Niemeyer. 

O Dops foi inaugurado ali em 1958, seis anos antes do golpe militar. “Os Dops eram órgãos tradicionais de repressão política legal, ligados aos governos estaduais desde os anos 1920. O de Minas Gerais começou em 1927”, explica o professor de história da UFMG Rodrigo Patto Sá Motta. “Eles tinham poder de polícia, podiam prender e processar pessoas acusadas de subverter a ordem política e social.” 

Então estudante de medicina, Carlos Melgaço foi levado ao Dops depois de passar dois meses e uma semana entre um pronto-socorro e hospitais. Em um dia de tortura, os militares quebraram seu tornozelo, costelas e o deixaram em coma. No hospital, disseram que ele fora atropelado por um caminhão e não pôde ser identificado. 

“Eu voltei lá no ano passado, não tinha voltado antes”, conta aos 74 anos. “É um negócio que mexe muito porque a gente revive todas as coisas que aconteceram, não só naquele local, mas também fora dali, naquela época.” 

Emely Vieira Salazar, 81, entrou no prédio alguns anos depois de sua prisão, porque queria rever os lugares onde a mantiveram. Vice-presidente do DCE da UFMG, ela foi presa em 1970 por denunciar as violações contra outros estudantes. Passou por choque elétrico, pau-de-arara, palmatória. Tudo naquele prédio. 

“Um dia me algemaram e me colocaram debaixo da escada, naqueles quartinhos para guardar vassoura. Fiquei o dia inteiro. Depois que fiquei sabendo que uma comissão de advogados e familiares foram visitar o Dops e assim eles provaram que não tinha ninguém lá”, lembra. 

A ex-ministra de políticas para as mulheres do governo de Dilma Rousseff (PT), Eleonora Menicucci, 75, diz que perdeu as contas de quantas vezes foi levada ao Dops de Belo Horizonte. As prisões eram curtas, apenas duas vezes passou a noite no local. Mais tarde, ela seria presa por três anos em São Paulo. 

“Nós devemos às novas gerações essa história. A importância de ter um memorial de presos políticos, da tortura que aconteceu, é fundamental. Para que a história não seja esquecida, para que ela seja contada, para que ela seja visibilizada e para que ela não se repita”, avalia. 

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