Pastor da igreja protestante mais antiga de SP critica ações de Doria e Crivella

'O estilo de vida cristão é fruto de uma escolha do coração, jamais da coerção', afirma Valdinei Ferreira

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Governantes jamais devem se valer do Estado "para impor qualquer tipo de moralidade cristã à sociedade". A recomendação partiu do pastor Valdinei Ferreira, à frente do mais antigo templo protestante da capital paulista, a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, de 1865. E os alvos eram explícitos: o prefeito carioca, Marcelo Crivella (PRB), e o governador paulista, João Doria (PSDB). 

Em culto na Catedral Evangélica de São Paulo, no domingo (15), Ferreira pregou: "O estilo de vida cristão é fruto de uma escolha do coração, jamais da coerção".

Valdinei Ferreira, líder da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo
Valdinei Ferreira, líder da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo - Zanone Fraissat - 7.nov.2018/Folhapress

No início da pregação, o líder evangélico explicou aos fiéis o contexto de sua fala: o envio, à Bienal do Livro, de fiscais da Prefeitura do Rio para censurar um gibi com dois super-heróis homens se beijando, e a ordem de Doria para recolher material escolar que abordava questões de identidade de gênero. 

"Embora eles argumentem que agiram com base nas leis do Brasil [ECA e legislação que regulamenta a área educacional], o contexto motivador da ação é a sinalização para parte do eleitorado cristão que vê com bons olhos o uso do Estado para o enquadramento da sociedade naquilo que julgam ser uma moralidade cristã na área dos costumes", disse o pastor à Folha.

Na igreja, ele questionou o que estaria por trás da ação dos dois políticos. "Como não nasci ontem, também sei que no cenário mais amplo está uma determinada visão de mundo que é informada religiosamente. Não vem ao caso aqui se a motivação religiosa por detrás das ações é genuína ou apenas para agradar determinado eleitorado." 

Doria e Crivella, continuou, seriam apenas casos ilustrativos de uma questão mais extensa: "Faz parte da vontade divina que autoridades da esfera civil fomentem comportamentos da moralidade sexual? Cristãos, enquanto cidadãos, devem pressionar autoridades civis para que as leis e as políticas públicas estejam alinhadas o máximo possível com suas convicções religiosas, ou seja, com aquilo que entendem ser a vontade de Deus para a sociedade?". 

Ferreira acha que não. Ele lembrou de dois ícones da Reforma Protestante, que há 502 anos provocou um cisma no cristianismo (então predominantemente católico). Martinho Lutero e João Calvino "trataram de separar Estado e Igreja, separar a esfera de governo temporal da esfera de governo espiritual", apontou.

Está certo que, para Ferreira, o ponto de vista bíblico é claro: "Homem e mulher foram criados por Deus, o casamento entre homem e mulher foi instituído por Deus e exclusividade entre marido e mulher é intenção divina também". 

Mas vivemos numa sociedade laica e, "no que diz respeito à homossexualidade, em 2010, o Supremo Tribunal Federal definiu como constitucional a união civil entre pessoas do mesmo sexo", afirmou. Ele também resgatou a decisão de junho de 2019 do STF que equiparou a homofobia aos crimes de racismo

"O ministro Celso de Mello sensatamente frisou em seu voto que as religiões têm o direito de expressar opinião contrária à prática da homossexualidade, desde que isso não consista em incitação ao ódio."

Ferreira é conhecido por suas manifestações políticas, ainda quem sem cravar um lado na discussão (se o fiel deveria votar em fulano ou sicrano, por exemplo). 

Em entrevista à Folha dias após o segundo turno da eleição presidencial, o líder presbiteriano disse que cristãos precisam enfrentar esquemas conspiratórios à direita (como a Ursal, uma ficcional frente socialista no continente) e à esquerda (a de que o ministro Sergio Moro seria agente da CIA).

Três dias após a vitória de Jair Bolsonaro, o pastor assinou um manifesto em nome do movimento Reforma Brasil pedindo que cristãos se posicionem “de modo intransigente a favor da institucionalidade democrática”.

Um ano antes, a mesma frente, sob liderança de sua igreja, divulgava um manifesto contra "cadáveres da política" e crítico à bancada evangélica (que tem presbiterianos de outras alas entre os seus pares).

A cena política era então descrita como um “vale de ossos secos”, recuperando a expressão do profeta bíblico Ezequiel, “dominado por legiões de mortos-vivos, instalados nos centros de poder”.

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