'Tudo pode ser arejado', afirma Bolsonaro sobre comando da Polícia Federal

Um dia antes, presidente disse à Folha ver 'babaquice' da PF em discussões sobre troca de superintendentes

Ricardo Della Coletta
Brasília

Ao comentar declaração à Folha dada um dia antes sobre troca no comando da Polícia Federal, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (4) que "tudo pode ser arejado".

Em café da manhã com a Folha, nesta terça (3), o presidente disse que é preciso uma renovação no comando da PF: “Essa turma [que dirige a PF] está lá há muito tempo, tem que dar uma arejada”.

Questionado então nesta manhã sobre a declaração, na saída do Palácio da Alvorada, o presidente respondeu: "Não é arejada na PF. Tudo tem que ser... é o que eu falei para o cara da Folha ontem. Tudo pode ser arejado, tudo. Daí ele botou a PF. Até na minha casa, dou uma arejada aqui, abro cortina."

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), que disse já ter conversado com o ministro Sergio Moro (Justiça) sobre possíveis mudanças na Polícia Federal
O presidente Jair Bolsonaro (PSL), que disse já ter conversado com o ministro Sergio Moro (Justiça) sobre possíveis mudanças na Polícia Federal - Evaristo Sá - 29.ago.2019/AFP

No encontro com a Folha, Bolsonaro chamou de “babaquice” a reação de integrantes da corporação às declarações recentes dele sobre trocas em superintendências e na diretoria-geral.

No mesmo encontro de um dia antes, Bolsonaro disse que já teve uma conversa com Sergio Moro sobre uma possível mudança na direção da PF, subordinada ao ministro da Justiça. “Está tudo acertado com o Moro, ele pode trocar [o diretor-geral, Maurício Valeixo] quando quiser.”

“Mais difícil é trocar de esposa. Eu tive uma conversa a dois com o Moro...[O diretor-geral] tem que ser Moro Futebol Clube, se não, troca. Ninguém gosta de demitir, mas é mais difícil trocar a esposa. Eu demiti o Santos Cruz, com quem tinha uma amizade de 40 anos”, disse, na terça-feira, referindo-se à saída, em junho, do seu ex-ministro da Secretaria de Governo.

Segundo Bolsonaro, apesar de sua insatisfação, não há, por ora, nenhuma definição sobre prazo de troca na PF. Questionado pela Folha, ele não negou que o nome do delegado Anderson Gustavo Torres, atual secretário de Segurança do Distrito Federal, seja seu favorito para assumir a PF. O presidente disse que Torres tem tido o apoio do ex-deputado federal (e também delegado) Fernando Francischini.

No dia 22 de agosto, Bolsonaro afirmou que poderia trocar o diretor-geral da PF. A frase foi dita na esteira de uma crise após ele anunciar que o então superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi, seria exonerado por questões de gestão e produtividade.

A corporação reagiu e divulgou uma nota negando que a mudança tivesse a ver com a conduta do superintendente.

O episódio enfraqueceu o ministro Sergio Moro, a quem a PF é subordinada, e gerou especulações sobre uma eventual saída de Maurício Valeixo, que virou diretor-geral por escolha de Moro. Os dois se conhecem há vários anos e trabalharam juntos na Operação Lava Jato.

 

Entenda o caso

  • Anúncio - Em julho, Bolsonaro anunciou que Ricardo Saadi seria substituído por Alexandre Silva Saraiva na Superintendência da PF no RJ. A direção da PF, contudo, havia escolhido Carlos Henrique Oliveira Sousa, da Superintendência de PE
  • Interferência - O anúncio foi malvisto pela corporação como uma interferência do presidente em assunto interno
  • Quem manda - Em meio a tensões, Bolsonaro alfinetou o ministro Sergio Moro (Justiça)e afirmou que se não puder trocar um superintendente do órgão, pode mudar o diretor-geral
  • Adiamento - Com a crise, a direção da PF decidiu paralisar temporariamente o processo de indicação do novo superintendente no RJ

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