Agora santa, Irmã Dulce atrai milhares a espetáculo de oito horas em estádio de Salvador

Freira baiana foi canonizada no último domingo (13) no Vaticano

Imagem de Irmã Dulce é exibida durante cerimônia de comemoração da canonização da freira baiana, em Salvador Eduardo Anizelli/Folhapress

João Pedro Pitombo
Salvador

O termômetro marcava 32 graus e o sol castigava as arquibancadas da Arena Fonte Nova, em Salvador, no início da tarde deste domingo (20). O público se protegia como podia: lenços na cabeça, leques e até folhetos de papel. Mesmo assim, o suor teimava em escorrer pelos rostos dos fiéis.

Eles chegaram cedo: dos bairros da periferia de Salvador, de cidades do interior e também de outros estados. E formaram um aglomerado de 49 mil pessoas que enfrentaram uma maratona de oito horas para celebrar a canonização de Irmã Dulce (1914-1992), agora Santa Dulce dos Pobres.

A freira baiana foi canonizada no último domingo (13) no Vaticano, em cerimônia chefiada pelo papa Francisco. Irmã Dulce teve dois milagres reconhecidos pela Igreja Católica e se tornou a primeira santa nascida no Brasil.

Em Salvador, cada um tinha a sua história. Maricelia Barbosa, 63, enfrentou 586 quilômetros de estrada de Xique-Xique, norte da Bahia, até a capital baiana. Deu seu motivo: “Morei em Salvador na infância e cheguei a encontrar com ela algumas vezes. Sempre admirei seu trabalho social”.

Sheila Lima, 54, também diz ter conhecido a freira baiana: nos anos 1980, quando se formou enfermagem em Aracaju, tomou um ônibus e veio à Salvador conhecer o hospital da freira. “Tive o prazer de abraçá-la. Para mim, ela já era uma santa naquela época.”

Prestes a entrar no seminário, Belton Oliveira, 18, veio buscar inspiração na santa e revigorar sua fé. De Cruz das Almas, no recôncavo baiano, chegou Edson Santos, 46. Não conheceu Irmã Dulce, mas nem precisava, diz: “Todo o amor que Irmã Dulce representa está aqui. Olha só essa multidão”.

E era mesmo uma multidão. Os primeiros romeiros chegaram às 4h. Às 7h, uma pequena fila já se formava na porta do estádio. Quando os portões foram abertos às 12h, filas de centenas de metros tomavam os arredores da Fonte Nova.

Traziam de um tudo: terços nas mãos, cartazes em homenagem à freira e até imagens em gesso de Irmã Dulce com um metro de altura. Quase todos vestiam camisas com o retrato da nova santa. 

Na festa do povo, políticos, que foram aos borbotões ao Vaticano, eram raros. Entre as principais autoridades, marcaram presença o governador Rui Costa (PT) e o prefeito de Salvador ACM Neto (DEM).

O governador celebrou a trajetória de Irmã Dulce e o crescimento da devoção à santa para além das fronteiras da Bahia. Até fez troça ao contar um caso de "graça alcançada" que ele recebeu no celular nesta semana. “Era um áudio de um locutor de futebol de Alagoas já chamando pela santa [Dulce]. E em seguida o CSA fez um gol", disse, aos risos.

O prefeito destacou a missa como um momento histórico, lembrou a religiosidade do povo baiano e propagandeou uma obra de sua gestão: um corredor da fé entre as Obras Irmã Dulce e a basílica do Senhor do Bonfim, ambos na Cidade Baixa.

Antes da missa, foi encenado no palco o musical “Império de Amor”, com a participação de 700 atores, sendo 482 crianças e adolescentes. Lá estavam os principais símbolos da trajetória de Irmã Dulce: o atendimento aos mais pobres, o galinheiro que virou hospital e a imagem de Antônio, santo de devoção da freira. ​

Empolgado, o público aplaudiu ao final de cada ato e cantou junto nas apresentações dos cantores baianos Margareth Menezes e Saulo Fernandes e do sanfoneiro cearense Waldonys.

Mas os pulmões foram castigados mesmo quando o padre Antônio Maria surgiu no palco cantando uma música de, sempre ele, Roberto Carlos. Lenços brancos nas mãos, os fiéis saudaram Nossa Senhora.

O ato começou no final da tarde. Às 16h45, José Maurício Moreira, cujo milagre recebido referendou a canonização da freira, subiu ao palco carregando nas mãos uma relíquia de Santa Dulce dos Pobres.

Cego por 14 anos, ele recuperou a visão em 2014 após colocar uma imagem de Irmã Dulce sob os olhos e suplicar para que cessassem as dores que sentia. A partir do dia seguinte, foi progressivamente voltando a enxergar. Os médicos não encontraram explicação para a cura.

A missa foi celebrada pelo arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, que destacou a trajetória que levou Irmã Dulce à santidade. “A obra que ela deixou é uma obra viva, onde cada pessoa é uma pedrinha no mosaico de amor que forma o rosto de Jesus Cristo”.

Nas arquibancadas, o público não arrefeceu. Lenços mais uma vez ao alto, capricharam nos cantos litúrgicos em homenagem a Irmã Dulce: “Gloria a ti, primeira santa”.

Impulsionados pela fé, foram os protagonistas da primeira missa em solo brasileiro para a primeira santa do Brasil. Uma festa do povo e com o povo, tal qual a vida da freira que se tornou Santa Dulce dos Pobres.

QUEM FOI IRMÃ DULCE

Biografia
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, conhecida como Irmã Dulce, nasceu em 1914, em Salvador. Responsável por construir uma das maiores obras de assistência social gratuita do país, a freira era chamada de “anjo bom da Bahia”. Morreu em 1992, aos 77 anos

Milagres
Irmã Dulce teve dois milagres reconhecidos pelo Vaticano. Em 2001, as orações em seu nome teriam feito cessar uma hemorragia de uma mulher de Sergipe que padeceu durante 18 horas após dar à luz o seu segundo filho. Em 2014, o maestro baiano Jose Maurício Moreira voltou a enxergar após 14 anos de cegueira

Canonização
No domingo passado (13), a freira foi canonizada pelo papa Francisco, em cerimônia realizada no Vaticano. Com isso, se tornou a Santa Dulce dos Pobres, a primeira mulher brasileira a ser declarada santa pela Igreja Católica

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do que afirmou versão anterior deste texto, dom Murilo ​Krieger não é cardeal, mas arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. O erro foi corrigido.

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