Carta de Lula tem semelhanças com recusa de Mandela de deixar prisão

Em 1985, ícone da luta contra o apartheid na África do Sul recusou oferta de libertação do governo, que trazia limitações

São Paulo

É um evidente exagero comparar as trajetórias políticas de Nelson Mandela, o líder sul-africano que passou 27 anos preso por um regime de exceção, e Luiz Inácio Lula da Silva, condenado por corrupção de acordo com as regras de uma Constituição democrática.

Frequentemente, contudo, o PT busca criar uma relação entre as duas figuras, da foto obtida após muita insistência de Lula ao lado do Nobel da Paz em meio à campanha presidencial brasileira de 1994, ao encontro de 15 minutos de ambos em 2008 em Moçambique, com direito a pose para as câmeras.

A carta divulgada por Lula nesta segunda (30) rejeitando os termos de sua saída da prisão poderá ser vista como mais um elo entre os personagens.

Em fevereiro de 1985, o governo do então primeiro-ministro PW Botha ofereceu a Mandela a libertação mediante certas condições, entre elas limitação de movimento, associação e expressão.

Embora estivesse preso já houvesse 23 anos, ele recusou a oferta, numa carta lida por sua filha Zindzi a um estádio lotado. Foi um dos grandes momentos a cristalizar o mito do líder que sacrifica sua liberdade em nome de seu povo.

"Valorizo muito minha liberdade, mas me preocupo ainda mais com a de vocês", disse Mandela por meio de sua filha.

Lula não chegou a tanto, mas abre sua carta também relativizando a liberdade que lhe foi oferecida. "Não troco minha dignidade pela minha liberdade", escreveu o petista.

A mensagem do ex-presidente brasileiro é quase um bilhete, com meros 880 caracteres, ou 30% da carta de Mandela. Mas há vários pontos de contato.

Ambos buscam virar a mesa sobre seus acusadores, cobrando-os pelo impasse criado.

"Tudo que os procuradores da Lava Jato realmente deveriam fazer é pedir desculpas ao povo brasileiro", afirma Lula, mencionando milhões de desempregados e um suposto mal que a operação fez à democracia e à Justiça.

Imagem da carta escrita pelo ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde abril de 2018, na qual recusou progressão do regime fechado para o semiaberto
Imagem da carta escrita pelo ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde abril de 2018, na qual recusou progressão do regime fechado para o semiaberto - Reprodução/Twitter Lula

Mandela coloca o ônus diretamente sobre Botha, um político de convicções racistas enraizadas, que apenas pela pressão internacional iniciou um simulacro de negociação com o líder preso.

"Deixe que ele [Botha] diga que vai desmantelar o apartheid. Deixe-o libertar todos que foram presos, banidos ou exilados", recita o sul-africano.

Em meio à ofensiva de palavras, os protestos de inocência nas duas cartas são quase laterais, mas não deixam de ser mencionados.

"Já demonstrei que são falsas as acusações que me fizeram", diz Lula. Mandela, cuja prisão se deveu a uma acusação de terrorismo, é ainda mais sucinto: "Não sou um homem violento", diz.

Oradores experimentados, o advogado Mandela e o sindicalista Lula aproveitam o inusitado da situação em uma espécie de xeque-mate retórico: um prisioneiro negociar com o Estado, afinal, é algo no mínimo heterodoxo.

"Quero que saibam que não aceito barganhar meus direitos e minha liberdade", diz o brasileiro. "Apenas homens livres podem negociar. Prisioneiros não podem firmar contratos", afirma o sul-africano.

Mandela aguentou mais cinco anos até a libertação incondicional. Lula talvez espere menos, mas é improvável que sua saída da prisão tenha o mesmo impacto da soltura de seu par sul-africano.

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