Depoimento: O intelectual irrequieto

Wanderley Guilherme dos Santos morreu na madrugada deste sábado (26), aos 84 anos

São Paulo

Na terça-feira passada (22), como acontecia a cada quinze dias, Wanderley Guilherme dos Santos foi à Rua da Matriz 82, no Botafogo, sede do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para mais uma aula do curso de extensão “Introdução ao século 21”.

Nele o professor propunha-se a explorar “a revolução digital, seus antecedentes e suas consequências sociais e políticas, abrindo espaço ainda para a reflexão sobre o que estará por vir”, segundo o texto que o anunciava.

Wanderley Guilherme dos Santos em seu apartamento no Rio, em 2015 - Ricardo Borges/Folhapress

Naquele dia, ele expôs aos alunos sua insatisfação com o que vinha entregando e propôs encerrar por ali a ambiciosa empreitada intelectual. Os participantes rejeitaram a ideia e pediram a continuidade das aulas, agora definitivamente interrompidas pela mão pesada do destino.

O cientista político morreu na madrugada deste sábado (26), aos 84 anos, vítima de uma pneumonia.

O episódio, entretanto, revela por inteiro o intelectual que os cientistas sociais sempre chamaram apenas pelo prenome, indicando assim a posição única que ocupava como líder de nossa tribo. 

Wanderley foi um intelectual apaixonado pelas grandes questões do nosso tempo, que tratava de abordar com método e rigor. Sabia que o estudo da política, embora necessariamente voltado à análise das disputas pelo poder, enquadradas por instituições que definiam regimes, estruturas estatais, formas de organização partidária ou regras eleitorais, não podia prescindir do entendimento dos processos econômicos e sociais. Sabia também que são frágeis as teorias e toscos os instrumentos de análise de que dispomos e que, portanto, o rigor com que utilizamos as primeiras para construir nossos argumentos e a busca permanente pelo dado mais preciso era condição da boa ciência social. 

A democracia contemporânea e suas vicissitudes no Brasil foi o grande tema de uma obra extensa. Ressaltar algumas delas é sempre uma escolha pessoal discutível: são 32 livros e dezenas de artigos publicados em revistas acadêmicas ou coletâneas. Correndo risco, destaco “Cidadania e Justiça” (1979) que aponta os  limites do processo de extensão da cidadania quando regulada por instituições corporativas; “Sessenta e Quatro: anatomia da crise” (1986), estudo precioso da polarização que conduziu os militares ao poder no Brasil em 1964; “Crise e Castigo: partidos e generais na política brasileira” (1987), no qual analisa a crise do autoritarismo sob o prisma do surgimento de uma sociedade mais plural e organizada.

Seu primeiro livro “Quem dará o golpe no Brasil?”, publicado na coleção Cadernos do Povo Brasileiro, do ISEB, é de 1962 e anunciava o que aconteceria dois anos depois. Seu último livro “A democracia impedida: o Brasil do século 21”, de 2017, trata do golpe acontecido, o impeachment de Dilma Rousseff, que caracteriza como expropriação constitucional do voto, buscando entendê-la à luz da tensão mais universal entre democracia de massas e capitalismo concentrador de riqueza e poder.

Enganam-se, porém, aqueles que saudaram o livro —ou o criticaram— como um libelo político de simpatizante petista. Em um de seus últimos artigos, “O PT e nós”, publicado no site Segunda Opinião, Wanderley afirmava referindo-se à campanha eleitoral : “De concessão em concessão, o PT transmitiu a seu eleitorado o dogma de que não se anda ao lado do povo sem a companhia de ladrões”.

Intelectual irrequieto, seu compromisso de vida sempre foi com a busca do que a cada momento lhe pareceram as ideias mais próximas da interpretação rigorosa dos fatos.

Maria Hermínia Tavares de Almeida

Professora titular aposentada de ciência política na USP e pesquisadora do Cebrap

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