Em nova reviravolta, Delegado Waldir entrega cargo e Eduardo Bolsonaro vira líder do PSL

Nome do filho do presidente foi confirmado pela Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara

Talita Fernandes Danielle Brant
Brasília

Em nova reviravolta dentro do PSL, o deputado Delegado Waldir (GO) decidiu nesta segunda-feira (21) entregar o cargo de líder do partido na Câmara, após dias de disputa e troca de acusações com a ala da sigla ligada ao presidente Jair Bolsonaro.

Com isso, o deputado Eduardo Bolsonaro (SP), filho do presidente, foi anunciado como novo ocupante do posto e teve seu nome confirmado pela Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. 

Segundo a secretaria, a ala bolsonarista do PSL conseguiu coletar 32 assinaturas em apoio de Eduardo. Desse total, 3 eram repetidas e uma não conferiu, o que significa que 28 assinaturas foram consideradas válidas —eram necessárias pelo menos 27.

O que parecia ser uma trégua em meio ao racha na legenda, porém, durou pouco. 

A ala ligada ao presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), disse ter feito um acordo com o Palácio do Planalto, mas se disse traída posteriormente e retomou a disputa pela liderança do partido na Casa. 

À Folha o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, disse que em nenhum momento firmou um acordo com Bivar. Segundo o ministro, ele telefonou ao deputado pela manhã para tratar de um projeto de lei pautado para esta terça-feira (22) que trata sobre interesses das Forças Armadas. 
 
Ele disse ter sido consultado pelo presidente do partido sobre a possibilidade de se criar uma terceira via para a liderança do PSL. Bivar teria perguntado ao ministro como ele via uma solução em que tanto Waldir quanto Eduardo abrissem mão da liderança.
 
Segundo Ramos, ele respondeu ver com bons olhos, mas em nenhum momento firmou acordo nesse sentido. "Minha missão é o pacto federativo, a reforma da Previdência, não vou entrar numa crise interna do partido", disse Ramos à Folha.
 
Ramos disse ter conversado com deputados das duas alas do PSL e ter comentado que via a saída com bons olhos, mas ressaltou que propôs que os deputados falassem entre si sobre essa saída. 
 
Para assegurar que não firmou qualquer acordo, Ramos diz que seria impossível fazê-lo sem conversar com o presidente Jair Bolsonaro, que está em viagem ao Japão, e com o próprio Eduardo. Ele nega ter falado com ambos. 
 
"Eu acredito que seja uma boa saída, mas isso tem que ser conversado com os dois lados. Eu não patrocinei acordo nenhum. Eu vi com bons olhos apenas", disse. "Não houve traição, má intenção nenhuma. Os ânimos estão muito exaltados."

Apesar da confirmação no posto, Eduardo Bolsonaro não quis se proclamar o novo líder do partido antevendo a “sucessão de listas”, como já ocorreu na semana passada. 

O filho 03 do presidente também negou haver um acordo entre Bivar e o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, para que não fosse apresentada uma lista com o nome dele para o posto.

O deputado disse ainda não ter rancor do grupo de Bivar. “Aqui nós somos políticos. O político não faz o que ele quer, o político é a arte do possível”, afirmou.

“A gente está tentando colocar panos quentes desde ontem, sem falar nada em rede social, hoje participei da sessão da família. Pretendo continuar colocando adiante hoje o pacote anticrime do ministro [Sergio] Moro. Quem faz o julgamento são as pessoas. O deputado aqui presta satisfação a seus eleitores.”

Ele afirmou ainda desejar que o PSL volte a ser o partido do governo.

A lista de Eduardo teve a adesão de dois parlamentares que, na semana passada, assinaram apenas o pedido de Waldir. As justificativas dadas foram parecidas. Daniel Freitas (SC) disse ter entrado, junto com o deputado Léo Motta (MG), com requerimentos invalidando as assinaturas de ambos na lista de Waldir –segundo Freitas, há três listas do delegado com sua assinatura.
 
Ele negou ter havido qualquer negociação envolvendo o apoio a Eduardo. “Eu sempre fui Bolsonaro. Essa foi a terceira vez que tentaram tirar o Waldir da liderança. Essa foi a única vez que houve uma intervenção do Palácio, um desejo do presidente, e foi a primeira vez que o nome do Eduardo Bolsonaro aparece como líder.”
 
Outro deputado que trocou de lado, Marcelo Brum (RS) negou ter havido qualquer mudança de posição. “Nosso propósito sempre foi de estar ao lado de nosso presidente Bolsonaro. Na quarta-feira pela manhã tinha uma lista só, de permanência do Waldir como líder aqui na Casa. E a gente assinou com uma boa intenção de manter a unidade do partido, de fortalecer a base do governo Bolsonaro”, disse.
 
Segundo ele, à noite surgiu a lista com o nome de Eduardo, a qual diz ter assinado –embora seu nome não tenha sido atestado pela Secretaria-Geral da Mesa em nenhuma das listas apresentadas na semana passada.

"O governo traiu o acordo. Agora, segue o jogo", disse à Folha o deputado Júnior Bozzella (SP), ligado a Bivar. O grupo agora deve trabalhar pela suspensão de Eduardo do partido. 

Eduardo reagiu destituindo todos os 12 vice-líderes do PSL na Câmara. A degola atingiu nomes ligados principalmente a Bivar.

Os nomes dos novos vice-líderes devem ser apresentados nesta terça-feira (22).

Foi retirado do posto um nome declaradamente ligado a Bolsonaro ​—o do deputado Daniel Silveira (RJ), que se infiltrou em uma reunião da ala bivarista para expor o movimento contrário ao presidente. 

Nesse encontro, Waldir é gravado chamando Bolsonaro de vagabundo e dizendo que iria implodi-lo. Em outro áudio divulgado na semana passada, o próprio presidente articula para levar seu filho ao cargo de líder. 

A maioria dos vice-líderes, no entanto, é ligada a Bivar, como Bozzella, Nelson Barbudo (MT) e Joice Hasselmann (SP).

Na semana passada, o presidente decidiu retirar Joice da liderança do governo no Congresso. Ela foi substituída pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO), que até então era vice-líder.

A confirmação pela Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados correu pouco depois de Waldir entregar o cargo. 

A desistência do deputado de ocupar o posto foi anunciada por meio de um vídeo gravado por ele na manhã desta segunda-feira e divulgado por sua assessoria de imprensa.

"Venho a público fazer um esclarecimento, o meu partido, o PSL, decidiu retirar a ação de suspensão de cinco parlamentares e aceitamos democraticamente que foi feita por parlamentares. Já estarei à disposição do novo líder para de forma transparente passar para ele toda a liderança do PSL", disse o deputado.

Ao falar que as suspensões foram desfeitas, Waldir se refere à decisão tomada na semana passada pelo comando do partido.

Bivar anunciou a suspensão de cinco deputados ligados ao presidente —Carlos Jordy, Alê Silva, Bibo Nunes, Carla Zambelli e Filipe Barros. O objetivo da manobra era impedir que eles representassem a legenda em qualquer atividade na Câmara, incluindo a votação para líder da bancada.

O anúncio da desistência das suspensões e do cargo de líder foi feito por meio de um vídeo caseiro gravado pelo próprio Waldir no qual se pode notar que ele lê uma mensagem pronta.

"Queria agradecer os parlamentares que confiaram nesse nosso projeto, dizer que não somos subordinados a nenhum governador, a nenhum presidente, mas sim ao meu eleitor e vou continuar defendendo todas prerrogativas do Parlamento. Nós não rasgamos a Constituição ainda. Nós não rasgamos a Constituição. A Constituição prevê que o Executivo não deve interferir no Parlamento em nenhuma ação", conclui.

Isso porque na manhã desta segunda a ala do PSL ligada ao presidente Bolsonaro retomou os esforços para tentar destituir Waldir, que é aliado de Bivar.

O líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), disse ter protocolado às 9h30 junto à Secretaria-Geral da Mesa Diretora uma lista com 29 assinaturas para destituir Waldir da liderança do PSL na Câmara e substitui-lo por Eduardo. 

Em uma rede social, Vitor Hugo afirmou ter assinado a lista e reunido as assinaturas de Alê Silva (MG), Aline Sleutjes (PR), Bia Kicis (DF), Bibo Nunes (RS), Carla Zambelli (SP), Carlos Jordy (RJ), Caroline de Toni (SC), Chris Tonietto (RJ), Coronel Armando (SC), Coronel Chrisóstomo (RO), Daniel Freitas (SC), Daniel Silveira (RJ), Dr. Luiz Ovando (MS), Eduardo Bolsonaro (SP), Enéias Reis (MG), Filipe Barros (PR), General Girão (RN), General Peternelli (SP), Guiga Peixoto (SP), Helio Lopes (RJ), Junio Amaral (MG), Léo Motta (MG), Luiz Lima (RJ), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), Marcelo Brum (RS), Marcio Labre (RJ), Ricardo Pericar (RJ) e Sanderson (RS).

A reviravolta é mais um desdobramento do racha enfrentado pelo partido de Bolsonaro, evidenciado há duas semanas quando ele disse que Bivar estava "queimado para caramba" e admitiu que pretende deixar a legenda.

Do outro lado, Bivar decidiu ainda destituir Eduardo e o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente, dos comandos da legenda em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente. Outra aliada de Bolsonaro, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) também foi removida da presidência do PSL do Distrito Federal.

Em meio ao embate na Câmara, a crise chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal). Deputados aliados a Bolsonaro, mesmo com a declaração de Waldir, tentam na corte evitar a suspensão de suas atividades parlamentares.

Um mandado de segurança preventivo foi ajuizado pelos advogados Admar Gonzaga, ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e Marcello de Paula. Eles pedem que o STF trave a "imposição de pena à parlamentar sem observação do devido processo legal, ampla defesa e contraditório e do direito à livre manifestação no exercício da função".

O processo foi distribuído ao ministro Edson Fachin. Na solicitação ao Supremo, os advogados pedem que não seja efetuado "nos registros da Câmara dos Deputados o desligamento temporário de bancada dos impetrantes".

O escalonamento da crise levou a denúncias de compra de apoio de parlamentares por Bolsonaro. Segundo Waldir, o presidente teria oferecido cargos e controle partidário a quem votasse em Eduardo para líder do PSL na Câmara.

A atual crise no partido tem como origem o esquema de candidaturas de laranjas do PSL, caso revelado pela Folha em uma série de publicações desde o início do ano. O episódio é um dos elementos de desgaste entre o grupo de Bivar e o de Bolsonaro, que ameaça deixar o partido.

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