Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Entidades repudiam declaração de Bolsonaro sobre cancelamento de assinaturas da Folha

Associações afirmam que presidente usa o cargo para ameaçar e retaliar jornalistas

Wálter Nunes
São Paulo

Entidades de imprensa se manifestaram, nesta quinta-feira (31), contra a declaração do presidente da República, Jair Bolsonaro, que disse que determinou o cancelamento da assinatura da Folha por órgãos do governo federal.

"Determinei que todo o governo federal rescinda e cancele a assinatura da Folha de S.Paulo. A ordem que eu dei [é que] nenhum órgão do meu governo vai receber o jornal Folha de S.Paulo aqui em Brasília. Está determinado. É o que eu posso fazer, mas nada além disso", disse, em entrevista à TV Bandeirantes.

Organizações que representam o setor e a sociedade civil repudiaram a fala do presidente e consideraram que ela atenta contra a liberdade de expressão e princípios que regem a administração pública. 

“A ANJ lamenta que, assim como agiu o presidente Donald Trump há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro escolha caminho idêntico, o que significará menos pluralidade e informação profissional para o serviço federal. Mesmo que as assinaturas para governos representem uma receita ínfima para jornais, a livre circulação de notícias e ideias ajuda a construir políticas públicas, a corrigir rumos e aperfeiçoar caminhos na administração pública”, disse Marcelo Rech, presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais).

 
O presidente da República, Jair Bolsonaro, fala com a imprensa na chegada ao Hotel Intercontinental Riade
O presidente da República, Jair Bolsonaro, fala com a imprensa na chegada ao Hotel Intercontinental Riade - José Dias /PR
Maria José Braga, presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), disse ser  "inadmissível que o presidente aja sem nenhum respeito ao cargo que ocupa e à democracia".

"Como presidente, ele tem o dever de zelar pela observação da Constituição, na qual estão garantidas as liberdades de expressão e de imprensa. Mas, ao contrário, ele usa o cargo para ameaçar e agredir jornalistas e ameaçar e retaliar veículos de comunicação que fazem jornalismo. É preciso uma reação à altura. A sociedade brasileira não pode naturalizar e admitir o arbítrio e o obscurantismo."

O presidente da Abraji  (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Daniel Bramatti, divulgou nota dizendo que o presidente Bolsonaro retalia jornalistas.

"Um governante não pode se utilizar do poder do cargo para promover retaliação a um veículo de imprensa em razão do conteúdo que ele publica. Trata-se de mais uma demonstração de descaso do presidente em relação aos princípios da impessoalidade e da liberdade de expressão, ambos consagrados em nossa Constituição”, disse o presidente da Abraji.

“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo condena o anúncio do presidente Jair Bolsonaro de que vai cancelar as assinaturas da Folha de S.Paulo para os órgãos federais. Obviamente esse anúncio é contra os princípios que regem a administração pública", disse o presidente da entidade, Paulo Zocchi.

"Partindo do presidente da República, essa medida é uma clara retaliação contra a imprensa, contra o noticiário das irregularidades das questões que envolvem o seu governo. É uma atitude de censura, nosso candidato condena essa atitude, defende a liberdade de imprensa, que é um dos pilares da democracia."

O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, disse, em nota, que "mais uma vez o presidente demonstra seu pouco apreço ao livre debate, essencial à democracia, e sua intolerância com o contraditório. É também um grave sinal de que está em risco a impessoalidade na administração pública, princípio que qualquer governante tem obrigação de observar. A retaliação e a postura discriminatória são próprias dos governantes autoritários".

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