Evento da PM em SP tem vaias a Doria e gritos de 'mito' a Bolsonaro

É a primeira vez que governador e presidente dividem palanque após intensa troca de farpas

Carolina Linhares
São Paulo

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi recebido aos gritos de "mito" na formatura de sargentos da Polícia Militar em São Paulo, na manhã desta sexta-feira (11), o governador paulista João Doria (PSDB) foi alvo de vaias da plateia formada por familiares dos formandos.

É a primeira vez que os dois dividem o palco após intensa troca de farpas, numa antecipação da eleição de 2022, quando ambos pretendem concorrer à Presidência da República.

Lado a lado, o governador João Doria (PSDB) e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) participam de formatura de sargentos da PM em São Paulo. Também na foto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles - Marcos Corrêa/PR

No mês passado, Bolsonaro afirmou à Folha que Doria é uma "ejaculação precoce". Já o governador passou a dizer que não é bolsonarista, embora tenha adotado o mote "Bolsodoria" para se eleger no segundo turno da eleição no ano passado.

Dias antes, Bolsonaro havia acusado o tucano de ter "mamado nas tetas do BNDES" no governo do PT, em referência à compra de jatinho a juros subsidiados do bancoDoria rebateu afirmando que nunca precisou mamar em "teta nenhuma".

O Bolsodoria foi na campanha, e a campanha já acabou”, afirmou Doria na semana passada. 

Nesta sexta-feira, porém, diante do presidente ovacionado pela plateia, a postura foi outra. Em discurso, Doria saudou Bolsonaro e buscou uma posição de alinhamento ao governo federal.

"Fiz questão de estar aqui presente para mostrar ao presidente que o estado de São Paulo é parceiro das boas ações do Brasil. [...] Nós estamos alinhados com todas as boas iniciativas do governo federal", disse.

"Quero voltar a repetir: em São Paulo não fazemos oposição ao Brasil.Todas as propostas positivas para o  povo terão o nosso apoio", afirmou o tucano.

Doria foi vaiado em diversas ocasiões ao longo da cerimônia, como quando teve a presença anunciada e quando começou a discursar. Ao final da fala, no entanto, foi aplaudido —ainda que em intensidade menor do que Bolsonaro. 

O governador chegou a ter o discurso interrompido por aplausos quando citou Bolsonaro. Também houve entusiasmo da plateia quando Doria elogiou a PM de São Paulo e afirmou que o estado é o mais seguro do Brasil. 

O presidente em seu discurso, por sua vez, exaltou sua fala na ONU, atacou a esquerda e disse que deve obediência ao povo. "Vocês são o norte do Brasil", disse Bolsonaro à plateia. 

"Assim foi meu discurso na ONU, elogiado por grande parte da população brasileira. Naquele momento, pela primeira vez, eu estive do lado das polícias militares do Brasil. Outros que me antecederam criticaram as ações dos policiais", disse. 

A lembrança ao discurso na ONU foi interpretada como uma alfinetada de Bolsonaro em Doria. Na ocasião, o governador de São Paulo criticou de forma contundente a fala do presidente. "Primeiro, inadequado. Segundo, inoportuno. Terceiro, sem referências que pudessem trazer respeitabilidade e confiança ao Brasil no plano ambiental, no plano econômico e no plano político. Quarto, péssima repercussão internacional", disse. 

Bolsonaro falou ainda sobre o Tenente Alberto Mendes Júnior, considerado herói pela PM. O militar foi morto, em 1970, pela Vanguarda Popular Revolucionária, guerrilha de esquerda que fazia oposição à ditadura militar. Bolsonaro lembrou que o tenente morreu no Vale do Ribeira, região onde cresceu. 

"Ele perdeu a vida lutando pela nossa liberdade. [...] Combatemos a esquerda, que queria pela força roubar nossa liberdade, impondo um plano absoluto de poder. Perderam", afirmou Bolsonaro. Neste momento, foi ovacionado pelo público. 

Doria e Bolsonaro em evento da PM em São Paulo, nesta sexta (11) - Marcos Corrêa/PR

Apesar da recente troca de farpas, o clima no palco entre Bolsonaro e Doria foi ameno. Ficaram lado a lado e trocaram cochichos ao longo do evento. A presença do governador não estava prevista, mas o tucano decidiu, na noite de quinta (10), que compareceria. Os dois deixaram o evento sem falar com a imprensa. 

Doria e Bolsonaro chegaram a descer do palanque para cumprimentar os formandos. O presidente acabou cercado pelo público numa batalha de selfies. Bolsonaro também pegou no colo uma criança vestida com farda e com uma arma de brinquedo na mão

Bolsonaro segura criança no colo, enquanto ela aponta arma de brinquedo para o alto - Reprodução/TV Globo

Bolsonaro estava acompanhado do ministros General Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). Doria foi acompanhado do presidente da Assembleia, Cauê Macris (PSDB). 

Ao afagar os policiais em seu discurso, Doria tentou driblar o mal-estar no evento. Parte da tropa da PM critica o governador por ainda não ter dado o aumento de salário que prometeu na campanha. Policiais chegaram a organizar um protesto no fim do mês passado. 

A segurança pública foi um dos alicerces de Doria durante a campanha. Ele prometeu que, até o fim do seu mandato, a polícia de São Paulo será a mais bem paga entre os estados, mas ainda não anunciou o aumento.

Para aplacar as críticas, tem feito diversos gestos à categoria, como pagamento de bônus, entrega de viaturas, a premiação mensal "Policial Nota 10" e acertou que até o fim de outubro apresentará um calendário dos reajustes salarias. 

Além disso, Doria é visto como traidor pela base bolsonarista e por políticos do PSL, justamente por ter se aproximado do presidente durante a campanha e se afastado recentemente. 

O deputado estadual Major Mecca (PSL-SP), que representa a categoria militar, foi ao evento com uma camiseta que costuma usar em protesto a Doria: "policial nota 10, salário nota 0". Outros parlamentares do PSL, também críticos de Doria, estiveram presentes, como o líder do partido na Assembleia paulista, Gil Diniz e o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP). 

A presença de Doria foi criticada pelo senador Major Olímpio (PSL-SP), aliado de Bolsonaro, apesar da briga recente no PSL. Ele se mostrou surpreso quando a imprensa o avisou da presença do governador.

"Eu espero que não [venha], acho que Doria não vem. A ausência dele vai me alegrar", disse.

O senador publicou em seu Twitter momento em que Doria é vaiado, enquanto Bolsonaro é aplaudido. Vídeo semelhante foi publicado por Carlos Bolsonaro, filho do presidente, com crítica velada a Doria. 

Olímpio lembrou que Doria não compareceu ao desfile do Dia da Independência em São Paulo, enquanto Bolsonaro valorizou o evento militar. "No Sete de Setembro, ele disse que tinha que trabalhar e não veio aqui receber a continência da tropa", lembrou.

O senador apoiou Márcio França (PSB) no segundo turno da eleição no ano passado, e disse que Bolsonaro lhe repreendeu na ocasião por apoiar "um cara de esquerda".

"Eu avisei [sobre Doria]. Disse isso não é bolsonarismo, é oportunismo. Se mostrou exatamente a verdade em relação a isso. Do Doria não dá pra comprar carro usado dizendo que nunca bateu".

Crise no PSL

A respeito do racha no PSL, que opôs Bolsonaro e o presidente do partido, Luciano Bivar (PSL-PE), Olímpio afirmou que o momento é de buscar conciliação. "Bolsonaro precisa do PSL e o PSL precisa do Bolsonaro", resumiu. 

O presidente e uma ala de parlamentares do partido estudam sair da legenda

Olímpio afirmou que a briga foi fruto de uma "conspiração baixa" de pessoas que querem dominar o partido e "têm projeto de poder para abocanhar fundo partidário". Ele nomeou o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu desafeto, e os advogados do presidente, Karina Kufa e Admar Gonzaga, ex-ministro do TSE. 

"O advogado e ex-ministro Admar e a advogada Karina Kufa trabalhando na socapa e na sorrelfa, pelos bastidores, infelizmente com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que promoveu tudo isso. Agora só quem perde com isso é Bolsonaro e o país. [...] Infelizmente [Bolsonaro] foi insuflado por mentes esquizofrênicas politicamente e totalmente distorcidas". 

Olímpio voltou a criticar os filhos do presidente, chamando-os de dinastia, "com mania de príncipe". Ele disse querer que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) saia do partido. 
 

PONTOS DE DISTANCIAMENTO ENTRE DORIA E BOLSONARO

Corrupção Governador não mantém na equipe membros importantes com acusações de irregularidades, mesmo sem provas. Caíram assim Gilberto Kassab (Casa Civil), antes de assumir, e Aloysio Nunes (InvestSP). Enquanto isso, o ministro do Turismo, implicado no laranjal do PSL, segue no cargo

GP Brasil O presidente faz campanha aberta para tirar o GP Brasil de Fórmula-1 de São Paulo para o Rio, embora haja impedimentos técnicos. Doria rejeita a ideia e diz que vai brigar para que a prova siga em Interlagos

Ditadura Bolsonaro sugeriu que o pai do presidente da OAB não desapareceu na ditadura, e sim foi morto por colegas de luta armada. Ele o fez sem provas e sofreu críticas. Já Doria reagiu e criticou o presidente, até porque teve o pai cassado pelo regime de 1964

Moro Desde que Sergio Moro entrou na linha de tiro pelo caso The Intercept, Doria vem distribuindo afagos ao ex-juiz. Já Bolsonaro tem subido a temperatura da fritura do seu ministro, a ponto de aliados do governador defenderem convidá-lo para integrar seu governo.

Nepotismo O tucano disse que não nomearia parente para cargo público, ao comentar a indicação de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para ocupar a embaixada do Brasil em Washington

Extremismo Em entrevista na China, Doria defendeu a moderação e o centrismo na política como um desejo da sociedade, e disse esperar que Bolsonaro retomasse o caminho do diálogo após uma série de declarações e acenos à fatia mais radical de sua base eleitoral

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