Executivos da imprensa veem eleição de 2020 como desafio para combate a fake news

Seminário realizado pela ANJ discutiu papel do jornalismo profissional como antídoto à disseminação de notícias falsas

Nelson de Sá
São Paulo

O seminário Desinformação: Antídotos e Tendências, realizado pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) nesta quinta-feira (17) em São Paulo, serviu para os executivos de alguns dos principais veículos do país fazerem um balanço do combate às fake news e levantar alertas para o esforço no próximo ano eleitoral.

O presidente da entidade, Marcelo Rech, também vice-presidente editorial do Grupo RBS, que publica o Zero Hora, abriu o evento questionando as lideranças políticas que no exterior e agora no Brasil usam a desculpa das notícias falsas para realizar tentativas de "intimidação" do jornalismo. Ele sublinhou os episódios em que foram observadas "ofensas coordenadas a repórteres".

Da esq. para a dir., o diretor de Conteúdo do UOL, Murilo Garavello; o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila; o diretor de Redação de O Globo, Alan Gripp; e a coordenadora do Grupo de Investigação da RBS, Dione Khun, em seminário na ANJ
Da esq. para a dir., o diretor de Conteúdo do UOL, Murilo Garavello; o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila; o diretor de Redação de O Globo, Alan Gripp; e a coordenadora do Grupo de Investigação da RBS, Dione Khun, em seminário na ANJ - Zé Carlos Barretta/Folhapress

Para Rech, a melhor forma de enfrentar o "vírus da desinformação é desenvolver anticorpos", no jornalismo profissional e no próprio público, inclusive campanhas de educação de mídia, que ampliam a transparência da prática jornalística. Lembrou que o fenômeno da desinformação passa por aceleração, com as chamadas deepfakes.

O diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, abriu o painel Os Jornalistas e a Desinformação, como moderador, recordando que as notícias falsas têm seu marco zero na imprensa em 1835, em manchete histórica do "New York Sun", "Homens-morcego na Lua" —que abriu uma série que tornou o jornal o mais vendido no mundo. A farsa foi exposta e coibida por "reportagens publicadas pela concorrência".

"Ou seja, fake news e desinformação não são novidade", disse Dávila. A mudança agora é que elas ganharam, com as redes sociais, "um acelerador". A reação dos veículos no Brasil e em outros países foi criar mecanismos de checagem "sozinhos ou em parceria com outros órgãos de mídia", como Facebook e Google. "Sim, eu os chamo de órgãos de mídia", acrescentou.

Daniel Bramatti, editor do Estadão Dados, apresentou no painel Desinformação nas Eleições um levantamento da experiência com checagem de fatos no projeto Comprova, uma coalizão de 24 organizações brasileiras de mídia, dentre elas a Folha e O Estado de S. Paulo, atuando inicialmente no final da campanha de 2018.

Também presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), ele centralizou o esforço e elogiou como resultados o "altíssimo engajamento" dos profissionais de todos os veículos e os "ganhos de escala e produtividade" com o trabalho em conjunto.

Mas deixou o alerta de que, na eleição do ano que vem, "cada um dos 5.570 municípios poderá ser palco de campanhas de desinformação". Antecipando "um desafio gigantesco para monitorar e responder à circulação de conteúdo falso", propôs campanhas educativas como estratégia mais adequada, "para elevar o ceticismo dos usuários de redes sociais".

O diretor de Redação de O Globo, Alan Gripp, relatou que de início a atitude na Redação foi de passividade, até porque notícia falsa não era novidade. Isso mudou "quando a gente percebeu que esse tipo de informação falsa, por redes sociais, ameaçava vidas e a própria democracia", afirmou, listando casos levantados pelo próprio jornal.

A partir daí, aos poucos, o serviço de verificação foi se ampliando até combinar esforços dentro do Grupo Globo, chegando ao Fato ou Fake, "uma ferramenta de checagem que uniu praticamente todas as publicações do grupo e criou uma metodologia ágil e abrangente, semelhante à que o Comprova montou".

Também Gripp registrou que "no ano que vem certamente não será possível dar conta das desinformações em mais de 5.000 municípios", defendendo "mostrar como funciona essa indústria, o que talvez dê munição para que as pessoas passem a desconfiar um pouco mais".
 
O diretor de Conteúdo do UOL, Murilo Garavello, fez um histórico dos trabalhos de verificação do portal, que hoje atua tanto em coalizões como o Comprova quanto separadamente, com o UOL Confere. "Neste ano, 22 reportagens [de verificação] deram mais de 100 mil acessos", afirmou. "Esse número mostra que a checagem tem audiência. As pessoas se interessam."

Ele defende que os esforços não podem se restringir mais aos serviços específicos. "O processo de checagem cada vez mais tem que ser rápido e fazer parte do nosso noticiário", argumenta. "Todos os dias, a gente precisa repor a verdade rapidamente."

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