Líder do PSL na Câmara se diz 'traído' por Bolsonaro e fala em 'vagabundagem'

Crise do PSL extrapola partido e atinge articulação de Bolsonaro no Congresso

Ricardo Della Coletta
Brasília

O deputado Delegado Waldir (GO) afirmou na manhã desta sexta-feira (18) que o Palácio do Planalto e ministros do governo estão atuando junto a parlamentares para derrubá-lo da liderança do PSL na Câmara. Ele disse ainda ter sido "traído" pelo presidente Jair Bolsonaro.

Waldir deu as declarações ao chegar para uma reunião da executiva do PSL, um dia depois de ter sido divulgado um áudio em que o parlamentar diz que vai implodir o governo Bolsonaro —depois ele recuou e afirmou ter feito a fala em um "momento de sentimentos".

"Nada do que eu falei [no áudio] é mentira. Se você for traído, como vai se sentir? Eu fui traído. O presidente pessoalmente está interferindo para me tirar da liderança. Isso não é traição?", disse. 

"Se eu sou fiel a ele desde 2011. Se ele pessoalmente, junto com o líder do governo [deputado] Vitor Hugo [PSL-GO] e o senador [governador] Ronaldo Caiado [DEM] trabalham para me derrubar do diretório de Goiás. E assim está fazendo com outros parlamentares no país todo. Isso não é traição, isso não é vagabundagem? Então eu não retiro nada do que eu falei."

Ala ligada ao presidente Jair Bolsonaro no PSL tenta remover o deputado Delegado Waldir (GO) da liderança do partido na Câmara
Ala ligada ao presidente Jair Bolsonaro no PSL tenta remover o deputado Delegado Waldir (GO) da liderança do partido na Câmara - Pedro Ladeira/Folhapress

O PSL vive há dias uma guerra aberta entre aliados do presidente da legenda, deputado Luciano Bivar (PE), e um grupo alinhado ao presidente Bolsonaro. O racha ficou evidente depois de Bolsonaro ter aconselhado um seguidor a esquecer o partido e ter dito que Bivar estava queimado. 

A crise no PSL extrapolou nesta quinta-feira (17) as barreiras do partido e atingiu a articulação política do governo Jair Bolsonaro no Congresso Nacional. 

Em meio ao clima de beligerância no PSL, o presidente sofreu derrotas em série, foi chamado de vagabundo pelo líder do partido na Câmara, deputado Delegado Waldir (GO), e, em um contragolpe, decidiu tirar a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) da liderança do governo no Congresso.

Os bolsonaristas tentaram nesta semana destituir Waldir (do grupo pró-Bivar) da liderança do PSL na Câmara, mas a manobra não foi exitosa porque houve a invalidação de assinaturas. Os bolsonaristas estão tentando novamente reunir apoios na bancada do PSL na Câmara para derrubar o deputado e substituí-lo por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República. 

"É muito difícil um líder como eu permanecer, considerando que o presidente usa o Palácio do Planalto pessoalmente, ligando para parlamentares, interferindo no Parlamento. É extremamente difícil você competir quando ministros pessoalmente ligam para cada parlamentar, estão pedindo para assinar a lista que leva a liderança para o filho do presidente", disse o Delegado Waldir nesta sexta-feira.

A reunião do PSL foi convocada pela ala pró-Bivar para definir os próximos passos da crise.

Nesta quinta-feira (17), o presidente do PSL tomou a decisão de retirar Eduardo e seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, do comando da legenda em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente. 

Outro representante do grupo alinhado ao atual comando da sigla, o líder do PSL no Senado, Major Olimpio (SP), afirmou ao chegar à reunião que serão realizados ajustes no quadro da legenda para "solidificar" e "fortalecer" a posição de Bivar. 

De acordo com Olimpio, a saída dos filhos de Bolsonaro dos diretórios estaduais será discutida na reunião desta sexta. "Eu não sei se já fizeram as notificações em relação a isso. Vamos definir hoje isso. Eu defendo que [o Eduardo] já saia já [do diretório em São Paulo]. O Flávio do Rio também", declarou. 

Major Olimpio defendeu uma tentativa de reaproximação de Bolsonaro com o partido. Ele disse que a legenda não quer perder o presidente e afirmou que o mandatário deveria chamar Bivar para uma conversa. "Ele é o nosso maior ícone político, talvez o único. Mas nós não queremos mais alguns que cercam o presidente Bolsonaro", concluiu Olimpio.   

O esquema de candidaturas laranjas do PSL, caso revelado pela Folha em uma série de publicações desde o início do ano, deu início a atual crise na legenda e tem sido um dos elementos de desgaste entre o grupo de Bivar e o de Bolsonaro, que ameaça deixar o partido

O escândalo dos laranjas já derrubou o ministro Gustavo Bebianno, provocou o indiciamento e a denúncia do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) e levou a uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal a endereços ligados a Bivar em Pernambuco.

Na semana passada, diante disso,  Bolsonaro requereu a Bivar a realização de uma auditoria externa nas contas da legenda. A ideia tem sido a de usar eventuais irregularidades nos documentos como justa causa para uma desfiliação de deputados da sigla, o que evitaria perda de mandato. O episódio, no entanto, criou uma disputa interna na sigla, com a ameaça inclusive de expulsões.

A aliados Bolsonaro tem dito que só oficializará a saída do PSL caso consiga viabilizar a migração segura de cerca de 20 deputados do PSL (de uma bancada de 53) para outra sigla.

Nos bastidores, esses parlamentares já aceitam abrir mão do fundo partidário do PSL em troca de uma desfiliação sem a perda do mandato. A previsão é de que o PSL receba R$ 110 milhões de recursos públicos em 2019, a maior fatia entre todas as legendas.

A lei permite, em algumas situações, que o parlamentar mude de partido sem risco de perder o mandato —entre elas mudança substancial e desvio reiterado do programa partidário e grave discriminação política pessoal.

OS DOIS LADOS NO RACHA NO PSL

Bolsonaristas

  • Eduardo Bolsonaro (SP), deputado federal
  • Major Vitor Hugo (GO), líder do governo na Câmara
  • Helio Negão (RJ), deputado federal
  • Carlos Jordy (RJ), deputado federal
  • Bia Kicis (DF), deputada federal
  • Carla Zambelli (SP), deputada federal
  • Filipe Barros (PR), deputado federal
  • Bibo Nunes (RS), deputado federal
  • Alê Silva (MG), deputada federal (retirada da Comissão de Finanças e Tributação)
  • Daniel Silveira (RJ), deputado federal
  • Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), deputado federal
  • Flávio Bolsonaro (RJ), senador (Senado)

Bivaristas

  • Delegado Waldir (GO), líder do partido na Câmara
  • Joice Hasselmann (SP), deputada federal e ex-líder do governo no Congresso
  • Junior Bozzella (SP), deputado federal
  • Felipe Francischini (PR), deputado federal (presidente da CCJ)
  • Sargento Gurgel (RJ) deputado federal (cotado para substituir Flávio Bolsonaro no diretório do RJ)
  • Nelson Barbudo (MT), deputado federal
  • Professora Dayane Pimentel (BA), deputada federal
  • Delegado Antônio Furtado (RJ), deputado federal
  • Delegado Pablo (AM), deputado federal
  • Heitor Freire (CE), deputado federal
  • Major Olimpio (SP), senador
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