Mulheres celebram espaço em reunião de bispos da Amazônia, mas querem mais

Criação de um ministério oficial para mulheres na Igreja Católica é um dos pontos polêmicos em debate

Fabiano Maisonnave
Cidade do Vaticano

Qual é o medo que vocês têm das mulheres? Vou dizer algo a cada um dos homens sentados: se vocês podem ver a luz do dia, o seu rosto raspou a vagina de uma mulher. E, se não fizeram isso, deixaram uma marca inapagável no ventre de uma mulher. E mesmo assim os amamos. Não se esqueçam de onde vieram. Não se esqueçam de que de suas mãos corre o sangue de uma mulher. E nos deem o lugar que merecemos.”

Proferida diante do papa Francisco, a fala da indígena colombiana Anitalia Pijachi Kuyuedo, 40, tem sido mencionada como uma das mais emocionantes do Sínodo da Amazônia, marcado pela presença recorde de mulheres e que termina neste final de semana no Vaticano.

Indígena colombiana Anitalia Pijachi Kuyuedo, diante da Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano, onde participa do Sínodo da Amazônia
A indígena colombiana Anitalia Pijachi Kuyuedo, diante da Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano, onde participa do Sínodo da Amazônia - Fabiano Maisonnave/Folhapress

Participantes da assembleia de bispos ouvidas pela Folha avaliam que a reunião episcopal avançou ao ampliar a voz feminina, com a ressalva de que o direito a voto continua reservado apenas aos padres sinodais.

“Estava muito indignada porque, nos primeiros dias, principalmente os bispos intervinham”, diz Pijachi, uma extrovertida e bem-humorada líder comunitária dos Okaira-Muina Murui, habitante da região fronteiriça da Colômbia com Tabatinga (AM). 

“E a maioria era contrária ao tema feminino, contra a diaconisa”, afirma, sobre a criação de um ministério oficial para as mulheres, um dos pontos mais polêmicos do sínodo, que já dura três semanas.

Após a intervenção de oito minutos na plenária, em que Pijachi atribuiu a “decadência da igreja” à cultura machista, a indígena —que não é cristã e participa do sínodo como auditora— foi aplaudida efusivamente, incluindo o papa. 

Ao final, também recebeu cumprimentos acalorados de alguns bispos. “Um bispo que estava ali disse: ‘Incrível, Anitalia, é a primeira mulher indígena que, neste cenário de tanto respeito, em milhares de anos, pronunciou a palavra vagina’”, relembra, orgulhosa.

Primeira perita

A socióloga brasileira Márcia Maria de Oliveira, da UFRR (Universidade Federal de Roraima), também está fazendo história. Em abril de 2018, foi a única mulher convidada a integrar a equipe de cinco especialistas (chamados de peritos) responsável pela elaboração do documento preparatório do sínodo. A sua especialidade é migração e fronteira.

“Num primeiro momento, fiquei assustada por ser a primeira mulher a participar desse processo. Por outro lado, senti muito respeito e muito acolhimento pela equipe daqui”, afirma. “Depois, o papa disse: ‘Fiz questão que viesse uma mulher porque a gente precisa, aos poucos, introduzir as mulheres nos espaços de decisão da igreja.’"

Durante o sínodo, o número de peritas chegou a 5, de um total de 25 peritos, todos com doutorado. “Acho uma grande revolução na igreja o fato de participarmos de uma instância de decisão. E rápida. No último sínodo, foram convidadas consultoras, mas não havia peritas”, diz a socióloga.

Neste sábado (27), o sínodo deve submeter ao papa um relatório aprovado pelos padres sinodais (bispos participantes) com, no máximo, 38 páginas.

Entre os pontos mais polêmicos em discussão estão a ordenação de homens casados, a incorporação de rituais indígenas e a criação de um ministério oficial para as mulheres. O sumo pontífice terá a palavra final sobre quais mudanças propostas pelo sínodo serão incorporadas à igreja.

Auditora do sínodo, a irmã brasileira Roselei Bertoldo afirma que todos os padres sinodais reconhecem a presença da mulher na igreja, que representa cerca de 60% dos religiosos, mas que isso é insuficiente. 

“O que nós, mulheres, estamos pautando e trazendo para o sínodo é que não se trata apenas de reconhecer a presença, mas que podemos ser reconhecidas enquanto instituição dentro da igreja”, diz Bertoldo, radicada em Manaus e que atua no combate ao tráfico de pessoas.

A religiosa diz que a discussão sobre o papel da mulher tem perpassado todos os momentos do sínodo e acredita que o papa Francisco seja sensível a mudanças favoráveis. “Ele nos escuta, a gente vê que tem um olhar muito fixo. Nos próprios escritos do papa Francisco, ele tem dado muita voz às mulheres.”

Cesta e troncos

Na reta final do sínodo de três semanas, Pijachi acredita que o balanço é positivo pelo fato de ter tido a oportunidade de falar, com boa receptividade. “Não são muitos os troncos que estão atravessados neste rio”, disse, em metáfora aos bispos que se opõem ao aumento da participação das mulheres e ao apoio da igreja às lutas indígenas por território e resistência cultural.

Na sua comunidade, San José, de cerca de mil pessoas, ela espera que a Igreja Católica pare de se enfrentar com outras igrejas cristãs, o que, segundo ela, gera discórdia dentro da comunidade. A indígena diz que o ideal é que os católicos tenham uma presença maior no acompanhamento da vida dos moradores que escolhem a religião. 

“Para mim, o sínodo foi como tecer uma cesta entre os nove países [da Amazônia]. Estamos terminando de fazê-la aqui. Agora, começam a colocar coisas dentro”, afirma a indígena. “E, como dizem os mais velhos, é no caminho que se ajeita a carga.” 

O repórter Fabiano Maisonnave viajou a Roma a convite da Burness Communications

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