Descrição de chapéu

Proposta do Vaticano para a Amazônia esbarra em ala de resistência ao papa

Encontro de bispos da região é iniciativa inovadora do pontificado de Francisco

Reinaldo José Lopes
São Carlos

O Sínodo para a Amazônia, encontro de bispos católicos dos vários países da região que começa neste domingo (6), é uma das iniciativas mais inovadoras do pontificado do papa Francisco, mas também corre o risco de ficar marcada por polêmicas que já se arrastam há décadas na hierarquia católica.

Levando em conta as especificidades do contexto amazônico, como as imensas distâncias, a escassez crônica de sacerdotes e a importância das comunidades indígenas e de sua cultura, o documento inicial do sínodo, designado pela expressão latina “instrumentum laboris” (“instrumento de trabalho”), cita possíveis soluções que desagradaram os mesmos prelados conservadores responsáveis pelas principais críticas ao papado do argentino Francisco até agora.

De um lado do documento, o esboço defende maior diálogo entre a fé católica e as culturas nativas. Propõe a máxima incorporação possível de músicas, danças e idiomas indígenas na liturgia das missas, elogia a espiritualidade tradicional ameríndia e afirma que a “teologia indígena pan-amazônica” deveria ser ensinada aos seminaristas da região.

De outro, em suas propostas mais concretas, o texto diz: “Pede-se que, para as áreas mais remotas da região, estude-se a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável”.

Além de entreabrir essa porta para a ordenação de homens maduros casados, o “instrumentum laboris” acrescenta que é preciso “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica”.

Ainda do ponto de vista prático, o texto coloca a Igreja Católica na posição de baluarte dos direitos dos povos indígenas a seus territórios e modos de vida tradicionais, os quais, segundo o documento, estão ameaçados por interesses econômicos e políticos poderosos.

Ressalta ainda a importância da Amazônia no combate às mudanças climáticas, outro tema caro ao atual pontífice desde sua encíclica “ambientalista”, a “Laudato Si’”.

Todas as possibilidades de alteração litúrgica e prática pastoral são citadas com linguagem cuidadosa e relativamente vaga. E, a rigor, não há nada nas propostas que se aproxime de uma alteração na doutrina.

A própria questão do celibato de sacerdotes é, na verdade, um elemento de disciplina (ou seja, de regras práticas), e não de dogma. As igrejas do Oriente Médio e da Europa Oriental ligadas à Roma, por exemplo, admitem padres casados sem dificuldade.

Entretanto nenhum desses elementos parece talhado para animar as alas mais conservadoras da hierarquia católica, que já bateram de frente com Francisco por outros motivos, como a busca de uma maior abertura da igreja aos fiéis homossexuais e as tentativas de permitir que divorciados que se casaram de novo possam receber a comunhão, em certos contextos.

Entre esses desafetos, o mais estridente é o cardeal americano Raymond Burke, segundo o qual o documento é “um ataque direto ao Senhorio de Cristo” e “um ato de apostasia [abandono da fé]”. Burke e o bispo Athanasius Schneider, do Cazaquistão, chegaram a convocar 40 dias de oração e jejum para impedir que “a heresia perverta o sínodo”.

Já o ex-chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard Müller, declarou que o texto continha “falsos ensinamentos”, embora tenha acrescentado que não duvidava das boas intenções da coordenação do sínodo, cujo relator-geral é o brasileiro dom Cláudio Hummes, cardeal emérito de São Paulo.

Tanto Burke quanto Müller perderam seus cargos de relevo no Vaticano durante o papado de Francisco, mas suas críticas representam um choque de visões sobre como a igreja deve funcionar.

O papa tem enfatizado a possibilidade de soluções específicas para contextos e desafios locais do catolicismo, enquanto seus desafetos dizem temer pelos efeitos de tais propostas para o conjunto da comunidade católica. O que impediria que padres do mundo todo exigissem o direito de se casar também, por exemplo?

Também não se deve subestimar o conflito de visões no campo político global. Ao se posicionar como uma das vozes de mais peso em favor de ações decisivas para deter a mudança climática causada pelo homem, e contra o que enxerga como iniquidades do capitalismo, Francisco é visto como um obstáculo pelos “céticos do clima” e defensores de um capitalismo com menos amarras.

Não é por acaso que, em países como os EUA, onde essas últimas posições costumam andar juntas, católicos conservadores tenham se unido contra ele.

Se o resultado de outros sínodos convocados pelo atual pontífice, como o da família (em 2014-2015), forem indicadores razoavelmente válidos do que vem por aí, não se deve esperar que os aspectos mais ousados do “instrumentum laboris” triunfem sem oposição renhida.

O papado pode ser, em tese, uma das últimas monarquias absolutas do mundo, mas implementar mudanças significativas, mesmo para o sucessor do apóstolo Pedro, ainda demanda algum grau de consenso.

​​O Sínodo da Amazônia

O que é
Sínodo é uma reunião do episcopado da Igreja Católica com o papa em que são discutidos assuntos específicos e predeterminados, que auxiliarão na governança da instituição. No Sínodo da Amazônia, a igreja deve tratar principalmente da evangelização na região, mas temas ligados à proteção de povos indígenas e ao meio ambiente também devem ser abordados

Quando
O evento reunirá 185 bispos no Vaticano a partir deste domingo (6), com encerramento previsto para 27 de outubro. Também participam líderes de outras comunidades cristãs, da população e especialistas —no total, há 250 participantes, dos quais 35 são mulheres.

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