PSL ignora operação contra Bivar e diz que cobrança de Bolsonaro é 'ameaça velada'

Partido vive racha entre ala ideológica ligada a Bolsonaro e pragmáticos alinhados ao dirigente da sigla

Angela Boldrini Bruno Boghossian Danielle Brant
Brasília

A Executiva Nacional do PSL publicou nesta terça-feira (15) uma nota em que faz críticas veladas ao presidente Jair Bolsonaro e ignora a operação policial que atingiu o presidente da legenda, deputado Luciano Bivar (PE)

O texto diz que a divergência intrapartidária é natural ao processo democrático e que não deve ser resolvida com "insinuações e ameaças veladas". 

Segundo o texto, essas ameaças "se mostram frágeis, sem respaldo jurídico e que em nada contribuem para o crescimento das instituições democráticas e para o atendimento das necessidades básicas da sociedade, o que é obrigação de todo homem público, especialmente dos que exercem os mais altos cargos da República". 

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), que estão em lados opostos no partido
O presidente Jair Bolsonaro e o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), que estão em lados opostos no partido - Divulgação

A nota faz referência à notificação extrajudicial enviada pelos advogados de Bolsonaro ao partido na sexta-feira (11), em que é pedida a realização de uma auditoria externa nas contas do partido.

O pedido foi defendido também por um grupo de 21 deputados, que no racha do PSL se posicionam ao lado do presidente. Eles querem a prestação de contas do PSL dos últimos cinco anos.

Sem citar nomes, o texto também diz que os posicionamentos "noticiados caracterizam pueril tentativa de criar fatos artificiais que visam atender meros interesses pessoais em detrimento do interesse coletivo do partido". 

A Executiva Nacional não faz menção à operação da Polícia Federal deflagrada nesta terça contra Bivar, que comanda o grupo majoritário do partido e está em disputa com a ala bolsonarista

Eles dizem não ter recebido a notificação do grupo de Bolsonaro, apenas uma cópia sem procurações, e afirmam que as contas do partido podem ser consultadas na prestação de contas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). 

"De qualquer forma, no que tange à transparência das contas partidárias, parece ser evidente que qualquer pessoa —filiada ou não— pode ter acesso completo a todas informações, extratos e comprovantes que constam das prestações de contas apresentadas pelo partido nos últimos anos, pois eles estão disponíveis para consulta pública no site do Tribunal Superior Eleitoral", diz o texto. 

Além disso, o texto reforça nas entrelinhas que o grupo de Bivar é majoritário na legenda, ao dizer que nem a Executiva, nem a "maioria absoluta dos membros do diretório nacional", incluindo  a bancada de deputados, concorda com o comportamento que consideraram "pueril". 

O texto conclui dizendo que a sigla punirá com "medidas cabíveis" aqueles que cometerem o que considerarem "excessos contra o partido".

O grupo de Bivar tem retaliado deputados que apoiaram Bolsonaro no racha com a perda de cargos em liderança e em comissões.

Circo

Após a divulgação da nota, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), que é aliado de Bivar e integra a Executiva do partido, afirmou que a operação realizada pela Polícia Federal contra o presidente do partido é um circo.

"Se eu sou delegado, estou montando um conjunto de provas e você tem situações suspeitas, você não vai fazer uma busca e apreensão dez meses depois de iniciada a investigação, aí é circo", afirmou. "Você quer encontrar o quê? Você não encontraria nada. Aí é circo".

Publicamente, o discurso de Waldir é de que não haverá retaliação aos deputados bolsonaristas na Câmara. O líder, porém, tem exercido seu poder para retirar de comissões e de posições na liderança deputados do grupo alinhado ao presidente. 

Ele disse ainda que pedirá o mandato de deputados que eventualmente deixarem o partido. "Não tem janela partidária", afirmou. 

O racha no PSL, que desde o início da legislatura se divide entre a ala ideológica ligada a Bolsonaro e a ala pragmática ligada ao partido, se aprofundou depois que Bolsonaro afirmou a um apoiador que Bivar estava "queimado pra caramba"

O partido está na mira de investigações por conta de esquemas de candidaturas laranjas nas eleições de 2018. Em reportagens publicadas desde fevereiro, a Folha revelou que houve desvio de verbas públicas do PSL por meio de candidatas femininas de fachada, caso que atinge o ministro do Turismo de Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, e Bivar.

O presidente da sigla começou a ser investigado pela Polícia Federal após a Folha revelar que ele patrocinou a destinação de R$ 400 mil de verba eleitoral do partido para uma secretária da sigla em Pernambuco, a quatro dias da eleição. 

Destituição

Já a ala do PSL alinhada com o presidente Jair Bolsonaro articula a destituição do líder do partido na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (PSL-GO), ligado a Luciano Bivar.

O esforço é liderado pelo líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO), que, na tarde desta terça (15), coletava assinaturas para protocolar um pedido de substituição da liderança do partido na Câmara. 

Nas contas da ala contrária a Bivar, eles têm pelo menos 21 nomes para assinar o requerimento –são os mesmos que, no racha do PSL, se posicionam ao lado do presidente. Eles precisariam de pelo menos 27 para protocolar o pedido.

A ala ligada a Bivar diz que os aliados do presidente não têm voto suficiente para protocolar o pedido.

A insatisfação dos deputados mais ligados a Bolsonaro cresceu na sessão desta terça. Os líderes do PSL e do governo deram orientações divergentes em votações relacionadas com a medida provisória que reorganiza secretarias do governo. 

Waldir determinou que o PSL entrasse em obstrução —tática comumente usada pela oposição para dificultar votações de interesse do Planalto. Já Major Vitor Hugo orientou deputados a votarem contra medidas que poderiam atrasar a discussão.  O texto foi aprovado no fim da noite desta terça.

Nesta quarta-feira (16), o partido deve se reunir novamente para discutir a situação após a chegada de Bivar a Brasília. A presença da ala de deputados ligados a Bolsonaro, porém, não é certa.

Segundo membros da bancada, algumas decisões só serão tomadas com o aval de Bivar e por isso não foram deliberadas nesta terça. Entre elas está a expulsão de deputados dissidentes.

A encabeçada por Waldir é contra a expulsão. A ideia desse grupo é aplicar pressão nos dissidentes até que eles deixem o partido por conta própria, o que abriria espaço para o PSL pedir seus mandatos com base em infidelidade partidária.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.