PSL tenta colocar panos quentes em racha, mas não pacifica alas descontentes

Bolsonaro disse que presidente do PSL está 'queimado' e expos racha em seu partido

Angela Boldrini
Brasília

Deputados do PSL começaram um movimento de colocar panos quentes no racha deflagrado após a crítica pública do presidente Jair Bolsonaro ao partido. A bancada, no entanto, segue em conflito. 

Os parlamentares fizeram uma longa reunião na noite desta terça-feira (8). De lá, saíram com um "pacto de silêncio". Segundo deputados ouvidos pela Folha, houve um acordo para que não se falasse publicamente, à imprensa ou nas redes sociais sobre o que foi discutido na sala da liderança do partido na Câmara. 

Nesta terça-feira, Bolsonaro afirmou a um apoiador para esquecer o PSL e disse que o presidente do partido, Luciano Bivar (PE), está "queimado para caramba" em seu estado. 

Nas últimas semanas, o presidente tem avaliado a possibilidade de deixar o PSL e se filiar a uma outra sigla pequena ou a um partido em formação. Na segunda (7), Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto a advogada Karina Kufa, que está em embate interno dentro do PSL contra o grupo de Bivar.

Luciano Bivar e Jair Bolsonaro em evento de filiação do então candidato ao PSL, em 2018
Luciano Bivar e Jair Bolsonaro em evento de filiação do então candidato ao PSL, em 2018 - Diego Nigro/JC Imagem/Folhapress

A declaração do presidente gerou reação forte de líderes da legenda. O senador Major Olímpio (PSL-SP), líder do partido no Senado, afirmou que o PSL foi pego de calças curtas e que estava perplexo. 

O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), disse à revista Época que o "quintal de Bolsonaro também está sujo", em referência à investigação sobre o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, investigado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa —os crimes supostamente praticados estão ligados ao gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Na Câmara, os deputados que se pronunciaram adotaram tom apaziguador. Coronel Tadeu (SP) afirmou que a bancada está pacificada e que não há discussão sobre o assunto. Delegado Waldir (GO), líder do PSL na Casa, chegou a afirmar que o partido é "100% Bolsonaro e 100% Bivar". 

Nelson Barbudo (MT) saiu da sala dizendo que não queria ser abordado pela imprensa e brincou fingindo não conseguir falar. Os parlamentares seguiram para jantar com o ministro da Justiça, Sergio Moro, em encontro sobre o pacote anticrime patrocinado por ele.

O presidente da legenda, porém, não foi ao encontro, que, por outro lado, contou com a presença de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Os dois representam grupos opostos do PSL, um mais ligado à sigla e outro mais ligado ao próprio presidente. 

Apesar da tentativa de pacificar a legenda, parlamentares ainda demonstram insatisfação com a fala do presidente e também com a reação do partido de abafar o caso. 

Segundo um deputado que participou da reunião, os congressistas adotaram postura pró-Bolsonaro por causa da presença de Eduardo e reclamou que, na presença de Bivar, o discurso era o oposto, o que demonstraria falta de lealdade dos correligionários. 

Após a reunião, Delegado Waldir minimizou o desconforto entre Bolsonaro e Bivar e afirmou que este último está "tranquilíssimo" e disse que será marcado um encontro entre a bancada e o presidente para "aparar as arestas".

Já o deputado pernambucano evitou circular nas dependências da Câmara durante todo o dia, não compareceu à reunião e não quis comentar as críticas. 

Em reportagens publicadas desde fevereiro, a Folha revelou esquema de desvio de verbas públicas do PSL por meio de candidatas femininas de fachada, caso que atinge não só o ministro do Turismo de Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antônio, mas também Bivar.

O presidente da sigla começou a ser investigado pela Polícia Federal após a Folha revelar que ele patrocinou a destinação de R$ 400 mil de verba eleitoral do partido para uma secretária da sigla em Pernambuco, a quatro dias da eleição. 

Maria de Lourdes Paixão oficialmente concorreu a deputada federal e, apesar de ser a terceira maior beneficiada com verba do PSL em todo o país, obteve apenas 274 votos.

O PSL foi criado em 1998 por Bivar e, nos 20 anos seguintes, foi uma sigla nanica, de baixíssima expressão política nacional. 

Somente no começo de 2018 a sua história mudou ao acertar a filiação de Bolsonaro, que desistiu de ingressar no Patriota e sacramentou a sétima mudança de partido em sua carreira política.

Com a onda que deu a vitória a Bolsonaro em outubro de 2018, o PSL foi a sigla mais votada e acabou elegendo a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados.

Os cofres do partido também ficaram recheados. Em 2018 a sigla recebeu pouco mais de R$ 9 milhões do fundo partidário, que é a fonte pública de receita das legendas. Com os votos recebidos na onda Bolsonaro, o partido terá essa verba multiplicada por 12 neste ano, sendo a número 1 do ranking, com cerca de R$ 110 milhões.

Raio-X do PSL

271.195 filiados (em ago.19)

3 governadores

53 deputados federais

3 senadores

R$ 110 milhões em repasses do fundo partidário em 2019 (estimativa)

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.