Relação com políticos e empresários foi pilar de obra social de Irmã Dulce

Sem tomar partido de grupos políticos, religiosa construiu rede de relações que viabilizou projetos

João Pedro Pitombo
Salvador

Ela conviveu com presidentes da República de diferentes épocas, de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) a Fernando Collor (1990-1992). Com sua persistência, teimosia e senso de oportunidade, transformou essas relações em um dos principais pilares de seu trabalho social.
 
Entre a atuação solitária junto a pobres e doentes nas favelas de Salvador e a consolidação de um complexo que faz atualmente 3,5 milhões de atendimentos por ano, Irmã Dulce (1914-1992) precisou gastar muita saliva para angariar apoio financeiro entre políticos e empresários.

A freira será canonizada no domingo (13), em cerimônia chefiada pelo papa Francisco, no Vaticano, após ter dois milagres reconhecidos pela Igreja Católica. Ela será a primeira santa brasileira.

Sua primeira escola foi o frade alemão Hildebrando Kruthaup, com quem fundou em 1937 o Círculo Operário da Bahia, rede que garantia assistência social aos trabalhadores das fábricas de Salvador e suas famílias.

Influente e bem relacionado, o frade costumava obter contribuições de mulheres da alta sociedade baiana. A partir dos anos 1940, quando iniciou a sua própria obra social, Irmã Dulce seguiu os ensinamentos de seu conselheiro e também construiu a sua rede de relações.

Ainda à frente do Círculo Operário da Bahia, conseguiu doações para erguer a nova sede da entidade com duas das mais poderosas entidades empresariais da Bahia na época: o Instituto do Cacau e o Instituto do Fumo.

Mas não mirava só os grandes: também pedia dinheiro, equipamentos e instrumentos de trabalho para pequenos lojistas de Salvador. Nem sempre era bem recebida, vide o conhecido caso de um comerciante que teria cuspido em sua mão estendida.

A partir de 1959, com a fundação das Obras Sociais Irmã Dulce, o contato com os empresários não ficou restrito a doações. Ao longo dos 60 anos da entidade, pesos pesados do empresariado baiano como Norberto Odebrecht e Ângelo Calmon de Sá tiveram cargos de direção nas obras de Irmã Dulce.

A relação com os presidentes veio a partir de 1948, quando a freira ficou frente a frente com Eurico Gaspar Dutra, que foi à Bahia inaugurar uma estrada e fez uma visita à nova sede do Círculo Operário. 

Após caminhar com o presidente junto a uma multidão, a freira não se fez de rogada e inseriu na conversa o seu pedido: queria um repasse federal para quitar a construção da nova sede da entidade.

O dinheiro saiu um ano depois, após uma articulação política que incluiu até uma visita de Irmã Dulce ao Rio de Janeiro, então capital federal. Foram liberados oito milhões de cruzeiros (cerca de R$ 12 milhões em valores atuais).

Em 1979, recebeu a visita do general João Figueiredo, último presidente do regime militar. Acompanhado da freira e de oito ministros, ele percorreu o hospital, onde se amontoavam doentes nos corredores, nas enfermarias e até no necrotério, onde macas foram improvisadas como leitos.

Sua relação mais próxima, contudo, foi com José Sarney, que patrocinou a indicação da freira para o prêmio Nobel da Paz em 1988.

Em entrevista ao jornalista Graciliano Rocha, autor da biografia "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" ​, o empresário Norberto Odebrecht deu a dimensão da proximidade entre Irmã Dulce e Sarney ao relatar uma conversa sua com o ex-presidente. “Aquela mulher é uma santa, Norberto. O que ela pedir eu dou”, afirmou Sarney, segundo relato do empreiteiro.

Além de recursos para a construção de uma nova ala do hospital gerido por Irmã Dulce, Sarney ainda deu o contato do telefone direto da sua mesa, para que a freira falasse com ele sem interlocutores.

Ao presidente Irmã Dulce fez sua única homenagem a um político: batizou a nova ala do hospital com o nome de José Sarney —isso em uma época na qual o presidente enfrentava uma grande impopularidade.

Irmã Dulce e o ex-presidente José Sarney, que cultivaram relação de amizade
Irmã Dulce e o ex-presidente José Sarney, que cultivaram relação de amizade - Acervo Memorial Irmã Dulce

Da mesma forma que Irmã Dulce conseguia doações e verbas por meio de presidentes e governadores, os políticos se valeram de sua influência. Mas, em geral, a freira não fazia lisonjas a políticos nem gostava quando eles usavam seu nome para atrair eleitores.

Com Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), três vezes governador da Bahia, teve uma relação dúbia, mas cordial. O político costumava atender aos pedidos da freira, que na infância havia sido sua vizinha e o chamava pelo primeiro nome.

Mesmo assim, não há registro de nenhum momento no qual a freira tenha tomado partido de um determinado grupo político. “Ela nunca pediu voto para ninguém” afirma o chefe da Assessoria de Memória e Cultura das obras Irmã Dulce, Osvaldo Gouveia.

A própria Irmã Dulce afirmou: “Não entro na área política. Não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza”.

Mesmo após a morte da freira, em 1992, a sede de sua entidade passou a ser parada obrigatória para políticos, incluindo presidentes e presidenciáveis. Mostra disso é que, todos os anos, durante a Lavagem do Bonfim, prefeito e governador interrompem o cortejo, que passa em frente à sede da entidade, para uma visita de cortesia.

O suprapartidarismo deve se repetir no dia 20, quando será realizada a cerimônia de celebração da canonização em Salvador. Em torno da figura de Irmã Dulce, estarão no mesmo palanque um trio de adversários: o prefeito ACM Neto (DEM), o governador Rui Costa (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Em 2011, a Igreja Católica anunciou a beatificação da freira, reconhecendo o seu primeiro milagre. O caso aconteceu em 2001, em Sergipe, quando as orações a Irmã Dulce teriam feito cessar uma hemorragia em Claudia Cristina dos Santos, que padeceu durante 18 horas após dar à luz o seu segundo filho.

Em 2019, foi reconhecido o segundo milagre: depois de 14 anos convivendo com uma cegueira causada por um glaucoma, o maestro Jose Maurício Moreira recuperou a visão em 2014.

Com uma grave conjuntivite, ele colocou uma imagem de Irmã Dulce sob os olhos e suplicou que as dores cessassem. No dia seguinte, ao acordar, a nuvem esfumaçada que ele enxergava foi se dissipando e ele voltou a enxergar. Os médicos não encontraram explicação para a cura.

Quem foi Irmã Dulce

Biografia
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, conhecida como Irmã Dulce, nasceu em 1914, em Salvador. Responsável por construir uma das maiores obras de assistência social gratuita do país, a freira era chamada de “anjo bom da Bahia”. Morreu em 1992, aos 77 anos

Milagres
Irmã Dulce teve dois milagres reconhecidos pelo Vaticano. Em 2001, as orações em seu nome teriam feito cessar uma hemorragia de uma mulher de Sergipe que padeceu durante 18 horas após dar à luz o seu segundo filho. Em 2014, um maestro baiano voltou a enxergar após 14 anos de cegueira

Canonização
No domingo (13), a freira será canonizada pelo papa Francisco, em cerimônia realizada no Vaticano. Com isso, se tornará Santa Dulce dos Pobres, a primeira mulher brasileira a ser declarada santa pela Igreja Católica

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do que afirmou versão anterior desta reportagem, o título da biografia escrita por Graciliano Rocha é "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres", e não "Santa Dulce dos Pobres". O texto foi corrigido.

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