Toffoli enfrenta protesto e, sem citar PSL, diz que partido virou veículo para o poder

Manifestantes cercaram carro de presidente do Supremo e chegaram a bater na lataria

Carolina Linhares
São Paulo

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Dias Toffoli, afirmou nesta quarta-feira (30) que os partidos políticos se tornaram apenas veículos de poder, numa referência velada ao PSL.

O partido do presidente Jair Bolsonaro teve sua divisão interna exposta há semanas, com uma ala de congressistas fiel ao presidente e outra que é crítica a ele e se aliou ao presidente da sigla, deputado Luciano Bivar (PE).

"Os partidos passaram a ser apenas os veículos de chegar ao poder. Vejam aí. Não vou citar nomes de partidos", disse Toffoli.

O presidente do STF falava a convidados durante um almoço em evento organizado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Toffoli fazia considerações sobre o fato de que a sociedade brasileira se divide segundo seus interesses, em corporações, e que não há um projeto de país unificado.

"É por isso que nós temos o maior partido político com 10% do Congresso e uma frente evangélica com 250 integrantes. O Parlamento acabou se organizando muito mais por frentes parlamentares do que por partidos políticos", afirmou.

Ao sair do evento, após quase uma hora de palestra, Toffoli se deparou com um protesto de cerca de 15 pessoas. Vestidos de verde e amarelo, eles demonstraram apoio a Bolsonaro, ao ministro Sergio Moro e à prisão após condenação em segunda instância, que está em discussão no STF.

Os manifestantes cercaram o carro de Toffoli, estenderam uma faixa na frente do veículo e chegaram a bater na lataria.

A faixa dizia "hienas do STF", numa referência ao vídeo publicado por Bolsonaro em que ele se coloca como um leão sendo atacado por hienas, que seriam o Supremo, a imprensa, partidos e outras organizações da sociedade.

Bolsonaro apagou o vídeo e pediu desculpas pela ofensa ao Supremo.

Na palestra, Toffoli afirmou que os Poderes não devem "retaliar um ao outro". Ele defendeu o pacto que propôs entre os chefes dos Poderes.

"É uma articulação entre diferentes. Pessoas que pensam diferente. Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Dias Toffoli, Augusto Aras. São pessoas que têm que se sentar junto para enfrentar, com apoio das instituições que estão à frente e com a compreensão da sociedade, que nós temos que avançar no desenvolvimento do país e no enfrentamento das grandes dificuldades. Sem retaliar um ao outro", disse.

Durante a fala de Toffoli, vinha de fora o som dos manifestantes, com megafone e bater de panelas.

Enquanto isso, o presidente fez uma defesa do Judiciário, dizendo que a demanda no Brasil é a maior de todo o mundo e ressalvando que aceita críticas.

"Não existe Suprema Corte que julgue mais que a brasileira. O Judiciário não tem um tempo de solução que é o tempo do mercado e da política. [...] Judiciário deveria ser a última solução a ser chamada", disse.

"Ao invés de ficar atacando o Supremo... Nada contra, se não gostou da decisão, pode criticar. [...] Mas será que o Supremo é o problema ou será que é a cultura do litígio?", completou.

Toffoli disse ainda que o protesto do lado de fora era algo positivo.

"Do ponto de vista do Estado democrático de Direito, é bom hoje que as pessoas saibam que existe o STF, que saibam quem são os 11 ministros, que venham fazer protestos, desde de que seja dentro da legalidade e da ordem, não sendo violentos."

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