Vaticano amplia foco e debate temas polêmicos para a igreja na Amazônia

Encontro de papa com bispos começa neste domingo e tratará ainda da perda de fiéis católicos na região

Michele Oliveira
Roma

Amplificado nas últimas semanas pelas queimadas e pela maneira como o governo brasileiro conduz a política ambiental, o Sínodo da Amazônia, que começa neste domingo (6) no Vaticano, até parece uma reação ao debate internacional sobre a proteção da floresta. No entanto a região está na mira do papa Francisco desde o início do seu pontificado, e sua pauta vai bem além da dimensão climática.

Depois de ser eleito em março de 2013, o papa participou em julho daquele ano da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, e expressou ali o seu interesse em discutir a ação da Igreja Católica na região amazônica. 

"Não há dúvida de que a preocupação não é de hoje. Em 2013, no Rio, pude conversar com ele e, quando me apresentei como sendo da Amazônia, ele me falou que estava preocupado com a região e que falaria isso aos bispos", afirma o padre jesuíta Adelson Araújo dos Santos, nascido e crescido em Manaus e professor de teologia da Pontificia Università Gregoriana, em Roma.

"Naquele encontro mesmo, ele se reuniu com os bispos da América Latina que estavam no Rio e falou que a Amazônia seria um banco de provas para a igreja", diz o padre, que é um dos peritos convidados pelo papa para participar do sínodo. 

Com o título de "Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral", o evento foi anunciado em 2017 pelo papa Francisco. Se trata de uma assembleia de 184 bispos dos nove países do bioma e outros especialistas. A prática do sínodo foi instituída pela igreja em 1965 e esta será a sua 16ª edição. 

Desde que o papa argentino assumiu, foram realizadas duas assembleias ordinárias sobre temas gerais da igreja (família, em 2015, e jovens, em 2018) e uma extraordinária, para assuntos urgentes (evangelização, em 2014).

Já as assembleias especiais, como este sínodo, são pensadas para abordar temas de um lugar específico. Em 2010, foi o Oriente Médio; em 2009, a África. Sob Francisco, o bioma será a primeira região do mundo a receber atenção exclusiva.

"O sínodo é uma provocação dos bispos da Amazônia, que desde 2014 pedem ao papa posicionamentos em relação aos principais problemas da igreja e da sociedade na região. Mas eles não imaginavam um sínodo, esperavam um posicionamento. A convocação do sínodo foi muito além do que era esperado", afirma a socióloga Márcia Maria de Oliveira, professora da Universidade Federal de Roraima e assessora da Repam-Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica).

Ela também está no grupo de peritos convidados pelo papa e é uma das 35 mulheres que participam do evento. 

Apreensão católica

A apreensão da igreja é com a perda de fiéis católicos na região e o crescimento das igrejas evangélicas, evidenciada desde o Censo Demográfico do IBGE de 2010, o último realizado. Só no estado do Amazonas, o número de evangélicos era de 31%, ante 21% em 2000. Entre os que se declararam católicos, queda de 70,8% para 59,5%.

"Como pastor da Igreja Católica, o papa está preocupado com a perda de referenciais de fé do povo da Amazônia, especialmente aquelas comunidades que estão descobertas da presença mais constante da igreja, porque são áreas enormes, aonde os padres não conseguem chegar porque são poucos", diz o padre Santos.  

Vêm dessa necessidade de ampliar a presença na região dois dos assuntos mais polêmicos que serão debatidos nas próximas semanas: a possibilidade de ordenar diáconos casados como sacerdotes e a de reconhecer as mulheres atuantes na região com ministérios oficiais.

"Os diáconos casados exercem todas as funções do padre, menos a celebração da eucaristia e o atendimento da confissão", explica a socióloga Márcia Maria, que calcula a existência de mais de mil diáconos casados na região amazônica dos nove países. 

Ao lado deles, estão suas mulheres. "Elas participam de toda a formação, mas no final ficam de fora, só eles são ordenados diáconos. A ideia é mudar isso e ordenar também quem quiser ser diaconisa, o que conferiria uma institucionalização à participação das mulheres", diz a professora. 

Segundo ela, 70% da igreja na região amazônica estão nas mãos de mulheres. "Elas coordenam, animam, organizam e orientam. Sem falar nos cuidados com as crianças e os pobres." 

"Quem já trabalhou na Amazônia sabe que nas comunidades mais distantes pode não ter um padre, mas tem uma comunidade de missionárias. Tem lugares em que não há outra liderança religiosa que não as mulheres que tomam conta da igreja, limpam, abrem, dirigem o culto da palavra e são as catequistas", diz o padre Santos. 

"Certamente haverá debate em torno do tema porque ele está citado no 'instrumentum laboris' e, sem dúvida, o papa e as próprias igrejas na Amazônia reconhecem o valor da presença feminina. Sem ela, a evangelização seria muito mais tardia", afirma ele.

O "instrumentum laboris", ou instrumento de trabalho, servirá como ponto de partida para as sessões do sínodo. Ele foi divulgado em junho deste ano e é um diagnóstico da situação da Amazônia. Foi elaborado a partir de encontros com a população local, por meio de rodas de conversa e seminários, organizados desde que o papa convocou o sínodo, em 2017. Foram quase 90 mil pessoas ouvidas oficialmente.

Também no "instrumentum laboris" é levantada a questão de uma teologia indígena, "que permitirá uma melhor e maior compreensão da espiritualidade indígena, para evitar que se cometam aqueles erros históricos que atropelaram muitas culturas originárias". 

Tudo isso tem atraído críticas da ala conservadora da igreja, que faz coro com os que veem com desconfiança o viés ambientalista deste sínodo, incluindo o governo Jair Bolsonaro (PSL), aumentando a expectativa pelo sínodo e seus resultados. 

Na prática, nas próximas três semanas, bispos e demais convidados estarão reunidos para debater temas comuns aos nove países, aqueles sintetizados no "instrumentum laboris". O papa é o presidente do sínodo. 

"O papa começa as sessões e permanece toda a manhã na sala sinodal ouvindo as contribuições e intervenções dos bispos. À tarde, acontecem outras reuniões, entre grupos mais homogêneos de acordo com a geografia e a língua", explica Bernardo Estrada, padre colombiano que é professor na Pontificia Università della Santa Croce, em Roma. 

Simultaneamente aos debates, uma comissão especial prepara o texto de síntese, que, nos últimos dias, será submetido à assembleia para votação. O documento aprovado é entregue ao papa, que decide como usá-lo em sua exortação apostólica, em que indica diretrizes para o clero. As duas últimas exortações pós-sinodais foram publicadas cerca de cinco meses depois de cada assembleia.

"Em relação a efeitos ou consequências, devemos recordar que Igreja Católica, nessa sua caminhada de mais de 2.000 anos, faz uma caminhada densa, mas também sempre muito lenta. Os efeitos duram algum tempo para se fazerem notar. Há quem pense, por exemplo, que até hoje não se consegue sentir totalmente os efeitos do Concílio Vaticano 2o [1962-1965]" , finaliza padre Santos.
 

Entenda o sínodo

O que é sínodo
O Sínodo dos Bispos é uma reunião episcopal de especialistas. Convocado e presidido pelo papa, discute temas gerais da Igreja Católica (como juventude, em 2018), extraordinários (considerados urgentes) e especiais (sobre uma região). Instituído em 1965, acontece neste ano pela 16ª vez.

Especial Amazônia
Anunciado em 2017 pelo papa Francisco, o Sínodo da Amazônia trata de assuntos comuns aos nove países do bioma, organizados em dois eixos: pastoral católica e ambiental. Depois de meses de escuta da população local, bispos e demais participantes se reúnem entre 6 e 27 de outubro, no Vaticano.
 
Para que serve
O sínodo é um mecanismo de consulta do papa. Os convocados têm a função de debater e de fornecer material para que ele dê diretrizes ao clero, expressas em um documento chamado exortação apostólica. As últimas duas exortações pós-sinodais foram publicadas cerca de cinco meses depois de cada assembleia.

Quem participa
O Sínodo da Amazônia reúne 185 padres sinodais (como são chamados os bispos participantes), sendo 57 brasileiros. Além dos bispos da região, há convidados de outros países e de congregações religiosas. Também participam líderes de outras comunidades cristãs, da população e especialistas —no total, há 35 mulheres. O papa costuma presidir todas as sessões.

Principais polêmicas
Este sínodo tem recebido críticas do governo brasileiro, incomodado com o viés ambiental e pressionado pela situação na Amazônia, e da ala conservadora da igreja, que vê como inapropriado o debate sobre a ordenação de homens casados como sacerdotes, a criação de ministérios oficiais para mulheres e a incorporação de costumes indígenas em rituais católicos.

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