Vaticano mira diversidade geográfica e cultural e multiplica novos santos

Fama de santidade ajuda no processo; Irmã Dulce será canonizada neste domingo a primeira santa do país

São Carlos (SP)

Com a canonização da religiosa baiana Irmã Dulce (1914-1992) em celebração neste domingo (13) no Vaticano, o país ganhará sua primeira santa brasileira nata. É quase impossível prever quais serão os próximos católicos do Brasil a terem sua santidade reconhecida pela igreja, dizem especialistas, mas as últimas décadas mostram um caminho mais ou menos claro para os candidatos aos altares.

A popularidade, é claro, ajuda muito: a presença espontânea da fama de santidade é essencial para que se postule a causa de um possível santo em Roma.

Por outro lado, desde o papado de João Paulo 2º (1978-2005), a tendência é o aumento da diversidade geográfica e cultural dos beatificados e canonizados, antes predominantemente europeus (o que tende a facilitar o caminho dos possíveis santos brasileiros).

Também há uma valorização da santidade de pessoas comuns, que viveram sua fé no cotidiano.

“A gente pode dizer que esse é um conceito wojtyliano da santidade”, diz o padre Ismar Dias de Matos, referindo-se ao pontífice polonês (Karol Wojtyla é o nome de batismo de João Paulo 2º).

Matos faz doutorado em ciências da religião na PUC-MG sobre como o pontificado de Wojtyla mudou a dinâmica das canonizações. Com efeito, o papa polonês proclamou quase 500 santos nas décadas em que liderou a Igreja Católica, enquanto apenas cerca de 300 pessoas foram canonizadas nos três séculos anteriores ao seu pontificado.

E a tendência foi mantida e até ampliada por seus sucessores Bento 16 e Francisco —no caso do atual papa, a lista já se aproxima de 900 novos santos, em parte por causa de canonizações coletivas.

Um desses casos foi o que criou o maior número de santos brasileiros de uma tacada só: o dos 30 mártires do Rio Grande do Norte, massacrados por protestantes holandeses no século 17.

“João Paulo 2º diminuiu a burocracia dos processos, fazendo com que, por exemplo, eles pudessem começar cinco anos após a morte do candidato, e não 50 anos, como era a regra antes. Mesmo assim, o papa, se desejar, pode pular até esse período mais curto”, explica o padre.

“Ao fazer essas mudanças, o papa dizia que o mundo moderno precisava de santos e, quando visitou o Brasil, afirmou que o país também precisava deles.”

“No fundo, é preciso responder à seguinte questão: qual é o sentido dessa causa [de santidade] no mundo de hoje? A qual necessidade essa canonização vai responder, quais valores importantes para o homem de hoje ela traz?”, diz o jesuíta Cesar Augusto dos Santos, que atuou como vice-postulador no processo que levou à canonização do padre José de Anchieta (1534-1597), também membro da Companhia de Jesus.

Nesse caso, afirma ele, vários percalços levaram à demora secular para que Anchieta fosse reconhecido como santo, entre eles a própria história complicada dos jesuítas, incluindo a expulsão deles do Brasil e a supressão da ordem pelo papa.

Em comparação com a de Anchieta, a causa da Irmã Dulce teve, é claro, andamento muito rápido. Além disso, seu trabalho de assistência aos pobres e marginalizados está muito próximo do ideal defendido pelo papa Francisco para a atuação da Igreja.

Em geral, o processo começa quando a diocese (divisão regional da Igreja Católica, chefiada por um bispo) abre uma investigação para analisar a vida do possível santo, em geral a pedido de fiéis entre os quais já existe a crença nas virtudes daquela pessoa.

O padre Ismar Matos conta ter participado desse pontapé inicial ao escrever a biografia do cônego Lafayette da Costa Coelho (1886-1961), até hoje venerado pelos habitantes do município de Santa Maria do Suaçuí (MG), onde está enterrado.

“Em 21 de setembro, aniversário de morte dele, a cidade, que tem pouco mais de 10 mil habitantes, costuma receber o dobro de visitantes”, conta ele.

Nessa primeira fase, o candidato recebe o título de “servo de Deus”. Se os estudos sobre sua vida revelarem um alto grau de virtudes cristãs, sem desvios morais ou teológicos quanto às normas da igreja, ele se torna “venerável”.

Em geral, quando vem a confirmação de um primeiro milagre (cura sem explicação médica clara) realizado por intercessão do candidato (ou seja, na qual o fiel pediu que ele intercedesse junto a Deus pela cura), ele ganha o título de “beato” (ou seja, “abençoado”), que já é uma forma de santidade.

Os beatos podem ser venerados no seu local de origem ou na ordem religiosa à qual pertenciam, se for o caso. Por fim, um segundo milagre leva à canonização.

Uma forma de diminuir essas etapas é a declaração de que o candidato morreu como mártir, em defesa dos valores da fé. É o caso de Benigna Cardoso da Silva, assassinada em outubro de 1941 em Santana do Cariri (CE), aos 13 anos, ao se negar a ter relações sexuais com um adolescente da região.

O papa Francisco acaba de reconhecer seu martírio, o que deve levar à sua beatificação automática.

“O agressor foi preso e, 50 anos depois, voltou ao local para pedir perdão”, conta José Luís Lira, professor de direito da Universidade Estadual do Vale do Acaraú, no Ceará, e autor do livro “A Caminho da Santidade”. “É um caso muito parecido com o de santa Maria Goretti”, menina italiana assassinada em 1902.

Para que novas causas avancem, os três especialistas destacam a necessidade de que haja interesse e perseverança por parte dos locais de origem do candidato a santo, assim como a documentação exaustiva da vida e dos possíveis milagres dele e a divulgação de seu nome entre os fiéis, o que tende a popularizar a busca por sua intercessão.

“O santo também precisa ser alguém simpático, de certa forma, alguém com quem as pessoas consigam se identificar”, diz Santos.

Como funciona o processo de canonização

  • Na primeira fase, cinco anos após a morte do candidato, abre-se um processo para investigar a fama de santidade e as virtudes cristãs da pessoa. Se tudo caminhar bem, ela é classificada como "serva ou servo de Deus". Essa primeira fase acontece no local onde o candidato morreu
  • A avaliação passa para a Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano. Se a congregação avaliar que a conduta, a fé e o pensamento do candidato eram irrepreensíveis, ele se torna "venerável", dotado das chamadas virtudes heroicas
  • A comprovação de um primeiro milagre (cura sem explicação médica clara, realizada quando um fiel pediu a intercessão do candidato a santo junto a Deus) faz com que o candidato se torne beato, já podendo ser venerado em sua região de origem. Caso tenha morrido como mártir (em defesa da fé), os passos 1 e 2 podem ser pulados
  • Com um segundo milagre, vem a possibilidade da canonização, em que a pessoa é proclamada santa e pode ser cultuada no mundo todo. O papa pode deixar de lado a obrigatoriedade do segundo milagre em circunstâncias especiais

Quem foi Irmã Dulce

Biografia
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, conhecida como Irmã Dulce, nasceu em 1914, em Salvador. Responsável por construir uma das maiores obras de assistência social gratuita do país, a freira era chamada de “anjo bom da Bahia”. Morreu em 1992, aos 77 anos

Milagres
Irmã Dulce teve dois milagres reconhecidos pelo Vaticano. Em 2001, as orações em seu nome teriam feito cessar uma hemorragia de uma mulher de Sergipe que padeceu durante 18 horas após dar à luz o seu segundo filho. Em 2014, um maestro baiano voltou a enxergar após 14 anos de cegueira

Canonização
Neste domingo (13), a freira será canonizada pelo papa Francisco, em cerimônia realizada no Vaticano. Com isso, se tornará Santa Dulce dos Pobres, a primeira brasileira a ser declarada santa pela Igreja Católica

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