Escritora retoma em livro obsessão sobre mortes em sequência na ditadura

Anna Lee lança obra em parceria com Carlos Heitor Cony (1926-2018)

Brasília

A longa e profícua carreira de um dos principais escritores do país, Carlos Heitor Cony (1926-2018), incluía uma obsessão de cunho histórico: provar que dois ex-presidentes e um ex-governador brasileiros foram assassinados pela Operação Condor, um esquema de sequestros e execuções que uniu as ditaduras militares da América Latina nos anos 70.

Ao lado de Anna Lee, escritora e jornalista que conheceu nos anos 90, Cony escreveu um livro, “O beijo da morte” (Ed. Objetiva, 2003), deu entrevistas e escreveu artigos sobre a macabra coincidência de três dos maiores opositores da ditadura militar brasileira (1964-1985), que pouco antes haviam tentado criar uma Frente Ampla contra a ditadura, terem morrido num espaço de apenas nove meses, de agosto de 1976 a maio de 1977.

Coube a Anna agora concluir o segundo livro sobre o mesmo assunto, “Operação Condor” (Ed. Nova Fronteira, 416 págs.), lançado nesta quinta-feira (28) na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio.

No registro da editora, consta como “ficção brasileira”. A escritora prefere defini-lo como um “romance-reportagem, no limiar entre ficção e reportagem”. 

Ela disse que Cony, que morreu em 5 de janeiro de 2018, participou da escrita e produção da primeira parte do livro, mas não chegou a ver toda a obra pronta. Porém, segundo Anna, eles já haviam discutido a forma, a estrutura e o conteúdo do novo livro.

Ao longo do tempo, as mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek (1902-1976) e João Goulart, o Jango (1918-1976), e do ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977) foram abordadas em diferentes estudos, obras literárias e investigações, incluindo a CNV (Comissão Nacional da Verdade).

De tudo o apurado até agora, não surgiu nenhuma prova inequívoca de que os três tenham sido assassinados —embora a Comissão Municipal da Verdade de São Paulo tenha concluído no sentido contrário sobre um deles, JK.

Prevalecem as versões de que JK morreu num acidente de carro, perto de Resende (RJ), Jango foi fulminado por um ataque cardíaco na Argentina, onde estava exilado, e Lacerda morreu de infarto e "estado infeccioso agudo", entre outras causas, numa clínica no Rio.

Pesquisadores e historiadores evitam a todo custo acusar um complô por trás das mortes.

Um dos principais biógrafos de Jango, Jorge Ferreira, por exemplo, lembrou em seu livro “João Goulart” (Ed. Civilização Brasileira, 2011) que o ex-presidente “era um homem cardíaco”, tendo sofrido um acidente cardiovascular no México, em 1962, e um infarto em 1969.

Seu estilo de vida era sedentário, “fumava muito, consumia bebidas alcoólicas regularmente” e tinha uma alimentação “à base de carnes gordurosas, ricas em colesterol”. Por fim, os remédios que Jango tomava na época de sua morte indicam “sérios problemas no sistema cardiovascular”.

No caso de JK, a teoria conspiratória dizia que seu motorista, Geraldo Ribeiro, fora atingido por um tiro antes do choque entre seu carro e um ônibus. Quatro investigações, porém, confirmaram que JK morreu em um acidente automobilístico.

Uma comissão externa da Câmara dos Deputados, presidida por um deputado casado com uma neta do ex-presidente, solicitou exames e ouviu mais de 40 pessoas, inclusive no Chile e nos Estados Unidos.

O relatório final aprovado por unanimidade diz que a morte de JK “foi causada por um acidente automobilístico, sem qualquer resquício da consumação de um assassinato encomendado”.

Mesmo com todas essas conclusões, Anna Lee e Cony não abriram mão de levantar dúvidas sobre as mortes. Eles nunca aceitaram as conclusões da CNV e das outras apurações, apontando-as como inconclusivas.

“Hoje eu não tenho dúvida de que os três foram assassinados”, disse Anna à Folha. Indagada sobre o seu grau de certeza numa escala de zero a dez, Anna não hesita: “Dez”.

Pelo menos três pontos podem ser levantados em favor da persistência dos escritores:

1) o monitoramento, a espionagem e a perseguição que a ditadura desenvolveu sobre esses três políticos, dentro e fora do país, são amplamente documentados;

2) os objetivos e métodos assassinos da Operação Condor são reais;

3) o medo que a ditadura nutria a respeito dos três conseguirem dar “a volta por cima” e reassumirem cargos de destaque no Brasil.

Tais ingredientes não podem ser desconsiderados, diz Anna. O próprio Jorge Ferreira em seu livro sobre Jango pondera que não se pode descartar, “com absoluta certeza, a hipótese de atentado”.

Também é preciso levar em conta que as atividades da Condor não são totalmente conhecidas até os dias de hoje.

Em um artigo publicado na Folha em 2014, onde foi colunista de 1963 a 1965 e de 1993 a 2017, Cony mencionou um texto escrito pelo jornalista Richard Gott no britânico The Guardian em 4 de junho de 1976, segundo o qual estava em curso na América Latina uma campanha de assassinatos contra políticos “capazes de agrupar o povo em uma campanha de resistência contra os militares no poder”.

Cony lembrou que, apenas dois meses antes da morte de JK, a Condor havia sequestrado e matado o ex-presidente boliviano Juan José Torres (1920-1976), que fora deposto por um golpe militar e exilado na Argentina.

E um mês depois da morte de JK, o ex-chanceler do presidente chileno de esquerda Salvador Allende (1908-1973), Orlando Letelier (1932-1976), foi assassinado em outra ação cinematográfica da Condor: uma bomba plantada no carro de Letelier em plena Washington (EUA). Três meses depois disso, morreu Jango.

Vista hoje em retrospecto, a sequência de eventos impressiona, muito embora as provas continuem como promessas nunca cumpridas. Anna tem esperança de que um dia apareçam arquivos secretos em outro país que não o Brasil.

“O fato de as investigações terem sido inconclusivas não me causa frustração. A gente vai construindo a nossa história pela coragem dos outros países em abrir seus arquivos. Fico me perguntando quando teremos a coragem de contar a história da ditadura de verdade.”

Operação Condor

  • Preço R$ 54,90 (416 págs.)
  • Autor Anna Lee e Carlos Heitor Cony
  • Editora Nova Fronteira
 

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