Descrição de chapéu

Lula se apresenta como líder da oposição e faz aposta na economia

Em discurso, petista ataca Lava Jato e investe pesado no reforço ao seu mito

São Paulo

Os 16 minutos de discurso de Luiz Inácio Lula da Silva ao sair da prisão mostram que o Brasil tem enfim um líder da oposição ao governo de Jair Bolsonaro digno do nome.

Seria um erro reduzir a fala do ex-presidente petista às previsíveis bordoadas nos procuradores da Lava Jato, no ministro Sergio Moro (Justiça) e no próprio Bolsonaro.

Tudo isso estava no preço, inclusive o alto grau de virulência. Afinal, é o discurso de um homem que acaba de sair da prisão após 580 dias.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo após sair da prisão, em Curitiba - Rodolfo Buhrer/Reuters

A menção a que a eleição do ano passado tenha sido roubada surpreende pela irresponsabilidade, mas está dentro da proposta de energizar a militância de esquerda num campo que a direita vem dominando, a do questionamento das regras democráticas.

Da mesma forma, a crítica à Rede Globo talvez seja uma das únicas coisas que hoje une os campos políticos opostos. Lula parece enciumado que Bolsonaro lhe tenha roubado a prerrogativa de atacar a imprensa.

No entanto, é preciso ler com maior ênfase o que o ex-presidente projetou para a frente. E nesse aspecto Lula faz uma aposta arriscada, a de que a situação econômica seguirá frágil no futuro.

Citou dados do IBGE sobre pobreza, colocou-se contra a agenda privatista do ministro Paulo Guedes (Economia), falou de salário mínimo e, numa referência ao espírito do tempo, lembrou dos postos de trabalho precários gerados por uma retomada ainda tímida, simbolizados pelo sujeito que entrega pizza de bicicleta.

"Depois que eu fui preso, o Brasil piorou", resumiu. 

O perigo de jogar tantas fichas na vida real, obviamente, é a economia começar a crescer de maneira mais vigorosa a partir do ano que vem, uma possibilidade não desprezível.

O petista, contudo, parece seguro de sua estratégia: petardos na Lava Jato e na economia e pedidos de moderação no restante. 

"Saio daqui sem ódio. O meu coração só tem espaço para amor, porque o amor vai vencer nesse país, não o ódio", disse ele, depois de destilar algo muito distante de amor contra o "lado podre do Estado brasileiro" representado pela Lava Jato. 

Não é fácil emplacar um discurso que puxa para lados opostos ao mesmo tempo, mas, se há alguém que tem uma chance de conseguir esse efeito, é um mestre do ilusionismo retórico como o ex-presidente.

Lula sabe que seu maior erro seria ater-se ao embate que interessa a Bolsonaro, o das acusações sobre caráter. O presidente, não é segredo para ninguém, alimenta-se de antipetismo. Daí a estratégia de falar do que interessa diretamente ao eleitorado, a economia.

"As portas do Brasil estarão abertas para que eu possa percorrer esse país", avisou aos seus apoiadores e a quem o acompanhava à distância. 

Também caprichou no reforço ao mito em torno de si. Disse que a prisão o tornou mais forte e corajoso para lutar, numa repetição da estratégia consagrada por líderes que vão de Fidel Castro a Nelson Mandela, de usar o cárcere como sinônimo de martírio.

E não se furtou a fechar um círculo iniciado no distante 7 de abril de 2018, quando, no último discurso antes da prisão, anunciou que não era apenas um homem, mas uma ideia. Ao sair, foi como se completasse esse raciocínio. "Não prenderam um homem, tentaram matar uma ideia. Uma ideia não se mata, uma ideia não desaparece", disse.

Há, obviamente, um motivo inconfesso para tanta retórica. Lula, mesmo solto, continua em situação política e jurídica extremamente frágil. Sair da prisão não o torna inocente, e as diversas ações criminais a que responde não desaparecerão por encanto.

A possibilidade de um retorno à cadeia, talvez já nos próximos meses, é concreta, e o que resta é aproveitar o tempo livre para escorar-se na parcela da população que lhe é fiel.

Essa fatia do eleitorado andava atordoada pelos tuítes, lives e vídeos em ritmo alucinante apresentados pelo campo bolsonarista, que praticamente falava sozinho. Agora, pelo menos, há jogo.

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