Padre Donizetti é beatificado em missa com milhares de fiéis no interior de SP

Cerimônia ocorreu em Tambaú, onde o religioso viveu; milagre foi reconhecido em abril

Tambaú

Em meio a bandeiras azuis e brancas, peregrinos, idosos e forte calor, o padre Donizetti Tavares de Lima (1882-1961) foi beatificado neste sábado (23) na cidade onde viveu por 35 anos e desenvolveu ações sociais.

Uma multidão de cerca de 20 mil pessoas, segundo a PM, se aglomerou numa área próxima ao cemitério de Tambaú (254 km de SP) para ver a missa, comandada pelo cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação das Causas dos Santos. O público ficou distante das 80 mil pessoas esperadas pela comissão pró-beatificação, mas o evento foi marcado pela emoção dos fiéis.

Alguns viajaram na madrugada para a cerimônia, como a aposentada Maria Joaquina Silvério Teixeira, 77, de Mogi Guaçu, que conheceu o religioso pouco antes de sua morte.

“Ele era muito atencioso e caloroso, mas, ao mesmo tempo, correto demais”, afirmou. Em companhia de 42 pessoas da paróquia que frequenta, deixou sua cidade às 4h para percorrer pouco mais de cem quilômetros até a cerimônia.

Na estrada havia dois dias, o comerciante Marcos José da Silva, 39, saiu de São João da Boa Vista na quinta (21) ao lado de dois amigos e percorreu 75 quilômetros a pé para participar da beatificação.
“É histórico. Quem terá a chance de ver outro beato ou santo no mundo de hoje?”

Um dos momentos de maior apelo aos fiéis presentes foi quando o adolescente Bruno Henrique Arruda de Oliveira, 13, subiu ao altar levando uma relíquia de padre Donizetti.

Em 2006, a dona de casa Margarete Rosilene Arruda de Oliveira, de Casa Branca (SP), mãe do jovem, pediu a intercessão do padre para curá-lo.

Bruno nascera com os dois pés tortos, o que o obrigaria a passar por uma série de procedimentos corretivos na infância, sem garantia de cura.

Um dia antes de levar o filho a um ortopedista —o bebê não conseguia encostar as plantas dos pés no chão—, Margarete pediu que o padre o curasse. No dia seguinte, os pés do menino encostavam totalmente no chão. Sem explicação clínica, a Igreja Católica investigou o caso por sete anos, até a confirmação do milagre, em abril, pelo Vaticano.

Padre Donizetti nasceu em 1882 na cidade mineira de Cássia e foi ordenado em Pouso Alegre (MG), em 1908. Chegou a Tambaú aos 44 anos, em 1926, para comandar a paróquia de Santo Antônio. Foi hostilizado por membros da sociedade local, que o viam como comunista por defender trabalhadores no Círculo Operário, criado por ele.

Mas o embate arrefeceu conforme Donizetti atraía mais fiéis, da cidade e de outros estados, a Tambaú. Morreu em 1961, aos 79. Os restos mortais, que estavam no cemitério local, foram transferidos em 2009 para o santuário.

Há relatos de milagres atribuídos ao padre desde a década de 1950, quando Donizetti ainda era vivo e via sua casa ser cercada por milhares de fiéis aos finais de semana.

O processo para o reconhecimento de milagres atribuídos ao religioso, porém, foi iniciado na diocese de São João da Boa Vista, em 1992, e só na atual década foi descoberto o caso de Bruno.

“[A beatificação] É a segunda parte do milagre. A primeira recebi há 13 anos, com o Bruno, e agora vem a celebração. Deus escolheu a gente para fazer parte disso”, afirmou a mãe do miraculado —objeto do milagre.

Com a celebração deste sábado, o país já tem 52 beatos que nasceram ou atuaram em solo brasileiro e 37 santos.

Do total, 34 foram reconhecidos neste século, entre eles Santa Dulce dos Pobres (em outubro), José de Anchieta (2014), frei Galvão (2007) e madre Paulina (2002). Em 2017, foram 30 de uma vez, como André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, conhecidos como Mártires de Cunhaú e Uruaçu (RN).

Há, ainda, 15 veneráveis (que tiveram virtudes reconhecidas pela Igreja) e 70 servos de Deus (com causas abertas e sendo estudadas nas dioceses e no Vaticano), segundo levantamento do professor Fernando Altemeyer Júnior, chefe do departamento de ciência da religião da PUC-SP. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) não tem dados sobre o tema.

Donizetti se tornou beato por ter um primeiro milagre reconhecido pela Igreja Católica, um a menos que o normalmente exigido para a canonização. Mas, para os milhares de fiéis que se deslocaram à cidade neste sábado, padre Donizetti já é santo há muito tempo.

COMO FUNCIONA O PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO E CANONIZAÇÃO

  • Na primeira fase, cinco anos após a morte do candidato, abre-se um processo para investigar a fama de santidade e as virtudes cristãs da pessoa. Se tudo caminhar bem, ela é classificada como "serva ou servo de Deus". Essa primeira fase acontece no local onde o candidato morreu
  • A avaliação passa para a Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano. Se a congregação avaliar que a conduta, a fé e o pensamento do candidato eram irrepreensíveis, ele se torna "venerável", dotado das chamadas virtudes heroicas
  • A comprovação de um primeiro milagre (cura sem explicação médica clara, realizada quando um fiel pediu a intercessão do candidato a santo junto a Deus) faz com que o candidato se torne beato, já podendo ser venerado em sua região de origem. Caso tenha morrido como mártir (em defesa da fé), os passos 1 e 2 podem ser pulados
  • Com um segundo milagre, vem a possibilidade da canonização, em que a pessoa é proclamada santa e pode ser cultuada no mundo todo. O papa pode deixar de lado a obrigatoriedade do segundo milagre em circunstâncias especiais
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