Reação de deputado ao atacar obra prova que charge estava certa, diz cartunista

Autor de peça sobre violência policial contra negros, Carlos Latuff já foi alvo de censura na Câmara de Porto Alegre

Porto Alegre

O cartunista Carlos Latuff, 50, autor do desenho arrancado de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP), diz que o ataque do parlamentar comprova que o conteúdo da charge está correto. O episódio ocorreu na terça-feira (19).

O desenho, feito em 2013, mostra um jovem negro morto, brasileiro, algemado com as mãos para trás, e um policial com pistola fumegante deixando o local. É uma crítica ao fato de a maioria das vítimas da violência policial ser negra —75,4% dos mortos em intervenções policiais são negros, segundo o dados de 2019 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Placa quebrada pelo deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), com charge que compunha exposição sobre Dia da Consciência Negra na Câmara
Placa quebrada pelo deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), com charge que compunha exposição sobre Dia da Consciência Negra na Câmara - Pedro Ladeira/Folhapress

“Ele simplesmente passou recibo. A reação comprovou que a charge está correta, que aquela exposição precisava estar ali. Essa charge está cumprindo um papel importante”, afirmou Latuff à Folha.

“O policial se jacta tanto que é preparado, ‘tiro, porrada e bomba’, mas não resiste a uma charge. Reage dessa maneira. O painel não tem como se defender. Uma charge impressa não tem como se defender. É um ataque covarde contra um painel”, disse o cartunista.

Para o artista, é simbólico que, na véspera do Dia da Consciência Negra, “um policial branco, coronel com mandato parlamentar” destrua a charge. O ato, na visão de Latuff, foi uma tentativa de censura para “tornar invisível o debate” sobre o tema da violência policial contra negros.

Charge do cartunista Carlos Latuff
Charge do cartunista Carlos Latuff - Divulgação/Carlos Latuff

Tadeu disse que negros são mortos por policiais porque são maioria no tráfico. No dia em que o coronel arrancou a charge, afirmando em rede social que “policiais não são assassinos”, a Polícia Civil concluiu que a menina Ágatha Félix, 8, foi morta por um policial militar no Rio de Janeiro.

Carioca radicado em Porto Alegre há seis anos, Latuff foi censurado na capital gaúcha em setembro, também em um espaço institucional do Legislativo. Ele é autor de uma das charges da exposição “O Riso é Risco: Independência em Risco – Desenhos de Humor”, sobre a Independência do Brasil.

A presidente da Câmara Municipal censurou a exposição, que ficou aberta por menos de 24 horas. O desenho de Latuff mostrava o presidente Jair Bolsonaro lambendo os sapatos de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. A Justiça determinou a reabertura da exposição.

Latuff afirma, entretanto, que o ataque do deputado em Brasília é mais grave do que a censura que sofreu em Porto Alegre. “Ele usou do instrumento que é comum para o policial: a ação violenta. Ele, na verdade, deixou muito claro a atitude da polícia."

“Fico pensando o seguinte: se ele agiu dessa maneira contra uma charge, imagine o que não poderia ter sido feito por ele nas ruas e por tantos outros policiais truculentos", disse o cartunista.

Desde a década de 1990, Latuff registra críticas ao que chama de “genocídio da população negra”. “Não é de hoje que faço charges relativas à violência policial. A primeira vez foi em 1997, quando teve aquele espancamento de moradores na Cidade de Deus, registrado em vídeo. Eu fui até lá e fiz um grafite. Esses temas me são caros porque são vidas que estão em jogo."

“Por isso me autointitulo o cronista visual da barbárie. Porque são temas relacionados à barbárie. As tais balas perdidas que invariavelmente vão atingir o preto, o pobre, a criança que vai para a escola, o rapaz que via para o trabalho, a idosa na porta de casa." Seus desenhos também foram usados em cartazes de protestos na Turquia, na Palestina e no Egito.

Por causa da violência policial, o cartunista elogia a iniciativa dos policiais que criaram o movimento “Policiais Antifascismo”, que não quer que os policiais tenham suas ações comparadas aos dos criminosos.

“Os policiais continuam ganhando pouco, sequer têm direito a fazer greve, não podem pleitear direitos trabalhistas. São feitos para ser uma máquina de guerra, isso faz com que eles se exponham mais do que deveriam e acabam morrendo, além de matar. Por isso aplaudo a criação dessa organização, contrária à política de extermínio."

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