Após 30 anos, Collor afirma que desconhecia invasão da Polícia Federal à Folha

Ex-presidente disse que não autorizou devassa fiscal no jornal e que preza o trabalho jornalístico

Talita Fernandes e Joelmir Tavares, da Folha Tales Faria, do UOL
Brasília e São Paulo

No meio da tarde de uma sexta-feira de março de 1990, seis fiscais da Receita, dois agentes e um delegado da Polícia Federal invadiram o prédio da Folha, na região central de São Paulo.

O então presidente da República, Fernando Collor de Mello, havia assumido o cargo oito dias antes. Na campanha eleitoral, o jornal publicara reportagens sobre indícios de irregularidades em suas gestões como prefeito de Maceió e governador de Alagoas.

Na semana passada, em entrevista no estúdio da Folha e do UOL, em Brasília, o hoje senador (pelo PROS-AL) ressuscitou o episódio para falar que desconhecia a operação e que jamais a autorizou.
“Até hoje eu sou culpado por ter eu determinado, imagine, a invasão de um órgão de imprensa”, disse Collor.

“Eu, que sou a quarta geração de jornalistas [da família] e que prezo o trabalho jornalístico, as empresas de jornalismo e todos aqueles que [o] fazem, e que entende perfeitamente o papel da imprensa no Brasil, em qualquer lugar do mundo”, continuou.

Sua família é dona de rádios, de portais de notícias e da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo em Alagoas. Com dificuldades financeiras, o grupo de empresas de comunicação teve pedido de recuperação judicial aceito em setembro.

Agentes da policia federal  armados deixam o prédio da Folha, após invasão em março de 1990, realizada sob pretexto de análise contábil.
Agentes da policia federal armados deixam o prédio da Folha, após invasão em março de 1990, realizada sob pretexto de análise contábil - Jorge Araújo /Folhapress

Collor relatou que só soube da invasão à Folha, ocorrida sob a alegação de uma devassa fiscal, quando a operação estava em curso. Em declarações na época, o ex-presidente já buscava se eximir de responsabilidade sobre a medida.

A versão dele coincide com explicações sobre o caso dadas pelo então chefe da Polícia Federal e da Receita, Romeu Tuma (1931-2010). Segundo Tuma, o delegado responsável pela incursão, João Lourenço, não avisou os superiores.

O relato, porém, difere da apuração de jornalistas da época a partir de informações de pessoas próximas ao governo. No livro “Notícias do Planalto”, Mario Sergio Conti também afirma que Collor “fora informado previamente da diligência” na Folha e “concordou com a inspeção”.

Collor diz que, naquela sexta-feira de 1990, foi alertado sobre o fato pela então ministra Zélia Cardoso de Mello.

“Recebi uma informação, fui alertado pela ministra da Economia, que me ligou e disse: ‘Presidente, o senhor mandou invadir a Folha de S.Paulo?’. Eu falei: ‘Eu? Invadir a Folha de S.Paulo? De jeito nenhum’”, narrou, reproduzindo o diálogo que teria sido travado.

Segundo ele, sua reação foi a de perguntar para Zélia se ela havia falado com o ministro da Justiça, Bernardo Cabral, ao qual a PF era subordinada.

Ainda de acordo com Collor, diante da resposta negativa da auxiliar, ele telefonou para Cabral e questionou se ele sabia da operação ou havia determinado sua realização. O ministro também negou.

O ex-presidente afirmou que, em seguida, ligou para Tuma, outro membro do governo que respondeu desconhecer a ordem de invasão.

Collor disse que indagou ao chefe da PF: “E como é que eles [agentes] tomam esta atitude?”. A orientação dada, então, foi “mandar recolher imediatamente e parar com isso”.

Oficialmente, o objetivo da Polícia Federal e da Receita ao entrar no prédio era conferir se o jornal estava cobrando faturas publicitárias em cruzados novos ou na moeda recém-criada, o cruzeiro. Por orientação da Associação Nacional de Jornais, a cobrança era feita em cruzeiros.

Reportagem publicada em 24 de março, um dia após a invasão, afirmou: “O pretexto usado pelos agentes do governo não convenceu nem remotamente o diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho”.

“Considero a invasão de uma violência estúpida e ilegal. Por trás dos esbirros policiais, está Collor de Mello, a quem não reconheço como presidente da República mas como usurpador vulgar da Constituição”, disse o jornalista, que ocupou o cargo até 2018, ano de sua morte.

Na edição daquele mesmo dia, editorial na primeira página intitulado “A escalada fascista” responsabilizou Collor pela medida e disse que a Folha estava aberta à fiscalização das autoridades, mas não aceitava “intimidações grosseiras nem ameaças policiais”.

Primeira página da Folha do dia 24.mar.90
Primeira página da Folha do dia 24.mar.90 - Reprodução/Acervo Folha

Em abril, dias após a devassa, Collor buscava se dissociar da ação contra o jornal. “Eles vão jogar tudo em cima de mim, vão me acusar de autoritarismo”, disse na ocasião.

Tuma sustentou, em diferentes momentos, a versão de que desconhecia a operação. Ouvido como testemunha de defesa no processo de impeachment contra o então presidente em 1992, ele atribuiu ao delegado da PF a responsabilidade pela ida ao jornal.

“Tomou as providências de acordo com as determinações de ordem legal”, afirmou Tuma, de acordo com os autos.

Em 1994, quando disputou eleição para senador, o ex-chefe da PF disse que o episódio “foi muito constrangedor para alguém que não sabia o que estava acontecendo”.

Tuma afirmou que nem ele nem Collor tinham conhecimento da operação. Segundo ele, o delegado “recebeu uma queixa e tratou o jornal como uma outra empresa qualquer”. 

Procurada pela Folha, a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello disse não se lembrar dos detalhes do episódio: “Quase 30 anos depois, a memória vai ficando cada vez pior”.

Quatro meses após ter a sede invadida, a Folha denunciou a contratação de agências de publicidade pelo governo federal sem licitação. Como consequência, Collor processou Otavio Frias Filho e outros três jornalistas sob acusação de calúnia.

“Esta é a versão do ex-presidente. Na verdade, Collor perseguiu a Folha. A Polícia Federal entrou no jornal procurando pelo seu Frias [Octavio Frias de Oliveira, 1912-2007, então publisher da Folha]”, diz Luís Francisco Carvalho Filho, advogado do jornal hoje e na época da invasão. “A invasão foi o primeiro capítulo. O processo por calúnia foi o segundo.”

O ex-titular do Planalto, que sofreu impeachment em 1992, relembrou a operação no jornal enquanto criticava, na entrevista, o que chamou de excessos cometidos pela PF e pelo Ministério Público.

Ao ser indagado se o governo Jair Bolsonaro tem ascendência sobre a PF, Collor defendeu maior controle sobre a atuação dos órgãos e disse considerar preocupantes interferências das duas corporações no ambiente político.

“E resultou nisso que estamos vivenciando, vendo e apurando e por tudo aquilo que circula na imprensa, de interceptações telefônicas, de conversas de juízes com membros do Ministério Público, da Polícia Federal, que não são em nada apropriadas e não estão de acordo com um Estado democrático de Direito.”

Para o parlamentar, a PF “ficou absolutamente sem controle” e o episódio com a Folha “é uma demonstração evidente de que isso aconteceu lá atrás e continua até hoje”.

“Desde aquela época já havia essa absoluta desenvoltura de tomar a iniciativa de atitudes como essas sem que o governo, sem que o Executivo tomasse consciência”, afirmou. “Esses excessos [...] precisam de alguma forma de freios.”

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.