'Capa preta', testemunha indicou emails e contratos para ação contra filho de Lula

Chamado por apelido pelo ex-presidente, ex-diretor de grupo apresentou à PF indícios que levaram às buscas

Rio de Janeiro

Um mês e meio após deixar a Presidência da República, Lula fez uma visita à sede do grupo empresarial de Jonas Suassuna, à época sócio de seu filho, Fábio Luís.

Foi apresentado a funcionários e executivos do Grupo Gol, holding de Suassuna que reúne dez empresas das áreas editoriais e de tecnologia, sem relação com a empresa aérea de mesmo nome. Ao conhecer o diretor comercial Marco Aurélio Vitale, perguntou para o filho: “É esse o capa preta?”.

Ao chamá-lo de capa preta, que significa uma pessoa importante ou influente, Lula se referia à desconfiança pelo fato de Vitale ter uma trajetória em órgãos de imprensa. Ele foi funcionário do Grupo Folha de 1992 a 2001 na área comercial, sem ligação com a Redação, e passou por outros veículos em funções semelhantes.

Mais de seis anos depois, foi Vitale quem ajudou os investigadores da Polícia Federal a levantar indícios contra o filho do presidente em negócio com as empresas de telefonia Oi e Vivo.

Entrevista com Marco Aurélio Vitale, ex-diretor do Grupo Gol, de Jonas Suassuna - Raquel Cunha/Folhapress - 5.out.2017

O ex-executivo de Suassuna foi testemunha-chave na apuração que culminou na Operação Mapa da Mina, deflagrada pela Lava Jato na última terça-feira (10).

O objetivo dela foi aprofundar as apurações sobre a suposta utilização de firmas de Lulinha e do empresário Jonas Suassuna para pagar despesas pessoais da família do ex-presidente, entre elas a compra do sítio de Atibaia (SP) frequentado por Lula. A origem desses recursos, segundo a investigação, foram as companhias Oi e Vivo.

As relações comerciais entre essas empresas e as firmas ligadas a Lulinha são conhecidas dos investigadores ao menos desde 2016. Um relatório da Polícia Federal daquele ano apontou o repasse de R$ 132 milhões da Oi e R$ 40 milhões da Vivo para o Grupo Gol e para a Play TV (Gamecorp), também uma sociedade de Fábio Luís e Suassuna.

Por serem relações de companhias privadas, os agentes tinham dificuldades em identificar eventuais indícios de crime.

Foi Vitale quem indicou o possível “mapa da mina” ao apontar os contratos privados —inacessíveis aos agentes— que dariam cobertura para esses repasses. Mostrou também emails trocados entre executivos das empresas que indicavam que o resultado comercial para a Oi dos produtos feitos pelo Grupo Gol eram baixíssimos, comparados à contrapartida dada pela companhia telefônica.

O ex-executivo entrou no radar da PF após conceder uma entrevista à Folha em outubro de 2017, quando afirmou que as firmas de Suassuna eram usadas como fachada para o recebimento de recursos da Oi em favor da família do ex-presidente.

Com base em relatos de Vitale, a Folha localizou documentos que corroboravam boa parte das declarações que deu sobre contratos das empresas.

Convidado a ir a Curitiba pela PF, surpreendeu agentes ao chegar sem advogado e sem uma proposta de colaboração premiada. Apresentava-se apenas como uma testemunha. Ele afirma que não cometeu crimes enquanto dirigia empresas de Suassuna. 

Entregou seu computador para que suas mensagens fossem analisadas e, ao longo de dois anos, foi duas vezes à capital paranaense. Também enviou para a força-tarefa dezenas de vídeos gravados em sua casa com temas que os agentes queriam esclarecer. Num deles, aparece um Buda de madeira de cerca de um metro de altura que tem em sua varanda.

Vitale disse que decidiu falar após ser chamado pela Receita Federal para explicar uma operação financeira em seu nome com uma empresa de Suassuna. Auditores fiscais passaram a perguntar sobre outras transações das firmas do ex-chefe e ele respondeu a todas. Foi quando, disse ele, decidiu expor os problemas que via na atuação do Grupo Gol. O caso que o levou ao Fisco foi arquivado.

Vitale decidiu escrever um livro sobre bastidores da empresa, além de detalhar os contratos suspeitos de que tinha conhecimento e cruzá-lo com informações reveladas pela Folha.

Chegou a ter acordo apalavrado com duas editoras, que recuaram do interesse. Decidiu, em 2018, imprimir a obra de forma independente, tendo sido recusado na primeira tentativa.

Ele disse ter vendido e distribuído 4.000 cópias de “O sócio do filho” pela internet e em livrarias cujos donos se interessavam pelo produto. Um desembargador, disse ele, comprou 15 livros para distribuir no Natal do ano passado. Uma pessoa também obteve um exemplar afirmando que ela chegaria às mãos do presidente Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral.

A aventura independente teve outros percalços. Encontrou vazia uma livraria em Niterói que organizou um evento de divulgação do livro. O dono do local, casado com uma mulher de esquerda, disse que temeu divulgar o evento.

No livro, Vitale relata que a única visita do ex-presidente ao Grupo Gol foi aquela em fevereiro de 2011.

Eles se encontraram um mês depois no Paraguai. O executivo apresentava uma ferramenta tecnológica ao Ministério da Educação daquele país. O ex-presidente fora discursar num evento e encontrar-se com o então presidente Fernando Lugo.

O negócio no Paraguai acabou não indo para frente, apesar de ter saído do país com o acordo alinhavado. Vitale atribui a desistência de Suassuna a um acordo assinado dois meses depois entre os dois países em que o Brasil aumentou o pagamento pela energia da hidrelétrica de Itaipu. O ex-executivo afirma que o empresário temeu a vinculação do acordo entre os governos com futuro contrato público a ser obtido pelo Grupo Gol.

Fábio Luís da Silva, filho do ex-presidente Lula - Sérgio Lima/Folhapress

Ao comentar as declarações de Vitale, em 2017, Suassuna negou ser um “laranja” da família Lula, e disse que seu ex-executivo tentou chantageá-lo antes de procurar a imprensa. Disse também que processaria o ex-funcionário.

A testemunha da PF nega ter tentado negociar seu silêncio com o ex-chefe. Também, nesses dois anos, nunca foi intimada sobre qualquer processo contra ele.

Ele registrou um boletim de ocorrência após, segundo ele, ouvir de três ex-funcionários da Gol que Suassuna vinha fazendo ameaças. A Justiça arquivou as queixas por falta de provas.

Além da receita com o livro, Vitale é fotógrafo e presta assessoria a empresas para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

A defesa do filho de Lula ainda não se manifestou sobre a operação deflagrada na terça-feira. O ex-presidente afirmou naquele dia que a ação era uma "canalhice" e uma “demonstração pirotécnica de procuradores viciados em holofotes”. 

SAIBA MAIS SOBRE O CASO DO SÍTIO

Qual a relação entre o sítio e o esquema com a Oi?
O MPF aponta que Jonas Suassuna e Fernando Bittar adquiriram a propriedade usando parte de recursos injustificados das empresas que administravam em conjunto com Fábio. Kalil Bittar, irmão de Fernando, também é alvo das investigações.

A conexão dessa investigação com o sítio é o principal motivo para a investigação acontecer no Paraná, e não no Rio (sede da Oi e do Grupo Gol) ou São Paulo (onde ficam a Gamecorp e o sítio). A investigação usou provas de fases da Lava Jato como a Aletheia, de 2016, que teve como principal alvo o ex-presidente Lula.

Por que Lula foi condenado no caso do sítio e por quais crimes?
Para a Justiça, Lula recebeu vantagens indevidas das empreiteiras Odebrecht e OAS em troca de favorecimento em contratos da Petrobras.

Segundo a acusação, reformas e benfeitorias realizadas pelas construtoras no sítio configuraram a prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Em novembro, a condenação foi confirmada em segunda instância, e a pena fixada em 17 anos e 1 mês de prisão. A defesa recorre.

Essa ação penal refere-se apenas à reforma do sítio, que foi realizada na área que não pertence a Suassuna. Por isso, ele não foi denunciado nesse caso.

Por que o caso do sítio ficou com a Lava Jato de Curitiba?
Todos os casos da Lava Jato ligados a contratos da Petrobras tramitam na 13ª Vara Federal de Curitiba, segundo decisão do STF. Como a Procuradoria alegou que as reformas no sítio ocorreram após beneficiamento ilegal em licitações da estatal , o caso ficou na capital paranaense.

E por que a investigação do Mapa da Mina ficou com a Lava Jato de Curitiba? 
O fato de Suassuna supostamente ter usado dinheiro repassado pela Oi na compra do sítio usado por Lula fez com que o processo permanecesse sob responsabilidade da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. 

Os procuradores argumentam que, como a ação penal sobre as reformas do sítio tramitou em Curitiba, as duas investigações devem caminhar juntas. As provas dos dois casos também são conexas, o que impediria uma divisão. 

A compra do sítio tem alguma relação com a Petrobras? 
A força-tarefa diz que uma agência de publicidade que fez pagamentos à Gamecorp, a PPR Profissionais de Publicidade, teve atuação também junto à Petrobras, que é o foco da Lava Jato no Paraná, além de ter feitos pagamentos a firmas do operador financeiro Adir Assad, hoje delator.Além disso, a Andrade Gutierrez, empresa do “clube das empreiteiras” envolvida no esquema de corrupção da Petrobras, era controladora da Oi.

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