Com Eduardo Bolsonaro suspenso, Joice é confirmada nova líder do PSL na Câmara

O nome da ex-líder do governo no Congresso recebeu 22 assinaturas das 39 possíveis

Brasília

A Secretaria-Geral da Mesa da Câmara dos Deputados confirmou nesta quarta-feira (11) o nome de Joice Hasselmann como nova líder do PSL na Casa, um dia depois de o presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) oficializar a suspensão de 14 deputados bolsonaristas punidos pelo diretório nacional do partido.

Joice substituirá o deputado Eduardo Bolsonaro (SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, na liderança do PSL na Câmara. O nome da ex-líder do governo no Congresso recebeu 22 assinaturas das 39 possíveis, acima das 20 necessárias para que a parlamentar assumisse a função —os 14 bolsonaristas estão com atividades parlamentares suspensas e, portanto, não podem participar do processo de coleta de assinaturas.

Em entrevista, a nova líder do PSL afirmou que seu primeiro passo será pacificar o partido.

“O PSL raiz é uma direita racional, não é uma direita xiita, não é uma direita radical, é uma direita que respeita o contraditório. E a gente vai fazer política de um jeito claro e maduro aqui dentro dessa casa, absolutamente transparente, porque nós precisamos fazer as pautas de que o Brasil precisa andar”, afirmou.

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A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) durante depoimento em sessão da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News, fala sobre os ataques virtuais que sofreu ao deixar a liderança do governo - Pedro Ladeira/Folhapress

Ela disse esperar um momento de menos “puxada de tapete” e de mais trabalho no partido e afirmou que não vai se afastar do mandato para disputar a Prefeitura de São Paulo. “Para quem fez, além da liderança do governo no Congresso, uma caravana nacional pela Previdência, vai ser moleza tocar a liderança e fazer a campanha”.

Joice afirmou ainda que o partido vai continuar votando ao lado do governo em pautas que considerar de interesse do país, mas com independência.

A parlamentar rejeitou que, com as suspensões, o PSL perca força na Câmara. “É uma questão partidária, não retira as prerrogativas de o parlamentar votar. Os parlamentares continuam votando nos projetos normalmente aqui na Casa”, disse.

Ao escolher Joice, o PSL sinaliza que seguirá na guerra virtual que vem travando com o grupo ligado a Bolsonaro.

No último dia 3, os membros do diretório nacional do PSL, presidido pelo deputado federal Luciano Bivar (PE), confirmaram, por unanimidade, as suspensões a 14 parlamentares do partido e advertências a outros quatro, além da dissolução do diretório estadual de São Paulo, que era comandado por Eduardo Bolsonaro.

Esses deputados se alinharam ao presidente Jair Bolsonaro na disputa de poder que ocorreu dentro da legenda em meados de outubro —e que resultaram nas articulações para a criação de uma nova sigla, a Aliança pelo Brasil.

Eduardo Bolsonaro, Bibo Nunes (RS), Alê Silva (MG) e Daniel Silveira (RJ) receberam a penalidade mais dura, de suspensão por 12 meses. Essa punição acarreta afastamento da atividade parlamentar, incluindo a retirada de comissões para as quais foram indicados.

 

Eduardo manterá a presidência da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, por ter sido eleito pelos membros para o posto.

Os deputados punidos e advertidos já sinalizaram que pretendem migrar para o novo partido a ser criado pelo presidente Jair Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil. Esse processo, porém, ainda pode demorar —tanto devido ao trâmite para a criação da nova legenda como devido ao embate jurídico que trata dos riscos de perda do mandato por infidelidade partidária.

Eduardo Bolsonaro enfrenta ainda processos abertos no conselho de ética da Câmara. Em um deles, a deputada Joice Hasselmann o acusa de incitar um linchamento virtual contra ela. Outro se deve a uma fala sobre AI-5 (Ato Institucional n° 5, que intensificou o período de repressão na ditadura militar).

Ele afirmou em entrevista que, se a esquerda radicalizar no Brasil, uma resposta pode ser "via um novo AI-5".

 

Entre os punidos pelo PSL, Carlos Jordy (RJ) será suspenso por 7 meses, enquanto Carla Zambelli (SP) e Bia Kicis (DF) ficarão suspensas das atividades parlamentares por 6 meses.

Outros congressistas receberam penalidades mais brandas, como Aline Sleutjes (PR) e Hélio Lopes (RJ), que só serão advertidos.

O diretório nacional também dissolveu o diretório de São Paulo, foco de uma das brigas entre as alas bivaristas e bolsonaristas.

Aliados de Bolsonaro haviam derrubado mais de 100 diretórios municipais do PSL em retaliação a Bivar —o partido já chegou a ter 340 em 645 municípios.

Eduardo, filho 03 do presidente, assumiu a liderança do partido na Casa em 21 de outubro, em meio a uma guerra de listas que opôs bivaristas e bolsonaristas. Naquele dia, após uma troca de acusações entre as duas alas do PSL, o então líder, deputado Delegado Waldir (GO), decidiu entregar o cargo.

O PSL tem a segunda maior bancada da Câmara, com 53 deputados. O partido está no centro de um escândalo, revelado pela Folha, que envolve o uso de verbas públicas por meio de candidaturas de laranjas em Minas Gerais e Pernambuco.

O esquema foi revelado em série de reportagens publicadas desde fevereiro. Bivar foi indiciado pela Polícia Federal e o ministro Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG) foi denunciado pelo Ministério Público mineiro sob acusação de envolvimento nos casos.

Bolsonaro diz que PSL está 'cheio de traíra'

Em uma provocação ao PSL, Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira (11) que no Aliança pelo Brasil não serão filiados traidores.

Em conversa com um simpatizante, ele disse que a nova sigla terá critérios rigorosos para a filiação. Um deles, por exemplo, é que o interessado se enquadre na Lei da Ficha Limpa, que impede a candidatura de condenados por um colegiado.

"Eu vou ter critério concreto para botar gente no meu partido. Não vou botar traíra. Entrou traíra porque foi em cima da hora. Está cheio de traíra o partido que eu deixei para trás", disse.

Na entrevista concedida na Câmara, Joice rebateu as acusações do presidente.

“Acho que pessoas que trabalharam antes da campanha, depois da campanha, depois da eleição, continuam trabalhando ativamente na Câmara e dando o maior número de votos de todos os partidos para as pautas do presidente da República não podem ser chamados de traidores. Isso seria, no mínimo, uma injustiça, para não falar coisa pior", afirma.

Bolsonaro está em uma sacada, onde foi estendida uma bandeira do Brasil, em meio a seis outros homens. As paredes do prédio são de pastilhas brancas.
Em Brasília, presidente Jair Bolsonaro visita ex-combatete da Segunda Guerra Mundial, Carlos Santiago de Amorim - Gustavo Uribe/Folhapress

Bolsonaro deixou o PSL após protagonizar embate com Bivar. No processo, ele se indispôs com antigos aliados, como Joice Hasselmann e Delegado Waldir, a quem se refere no reservado como traidores.

"Em 2022, tem eleição. Eu vou estar na campanha de uma forma ou de outra. Mesmo que eu não venha a ser candidato, vou fazer campanha. Não é por mim, não”, disse o presidente na entrada do Palácio da Alvorada.

Na sequência, Bolsonaro visitou, também na capital federal, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, que havia publicado um vídeo nas redes sociais elogiando a postura do presidente.

Na entrada do prédio onde o militar mora, Bolsonaro elogiou o ex-presidente Emílio Médici (1969-1974), cujo governo é considerado um dos mais repressores da história da ditadura militar.

O presidente disse que Médici foi um "grande colonizador", que ampliou os acessos ao interior do país por meio de obras de transporte. Ao tratar do assunto, disse se considerar o presidente com "menos pecados" da história do Brasil.

"Eu posso não ser o melhor, mas o que tem menos pecados, com certeza", disse.

Mesmo desfiliado ao PSL, Bolsonaro ainda aposta que a PGR (Procuradoria-Geral da República) irá garantir uma fatia do fundo partidário do partido para o Aliança pelo Brasil.

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