Duvivier sugeriu nomes de jornalistas da Globo e autoridades para hacker

Informação consta de relatório da PF sobre ataques sofridos por procuradores da Lava Jato

Brasília e São Paulo

O humorista Gregorio Duvivier, colunista da Folha, sugeriu a um hacker "pegar" chefes do Grupo Globo e citou nomes de dois jornalistas da empresa ao conversar sobre possíveis alvos em julho deste ano, segundo o relatório da Polícia Federal sobre os ataques sofridos por procuradores da Operação Lava Jato e outras autoridades no início do ano.

Duvivier foi procurado pelo hacker Walter Delgatti Neto depois do vazamento das mensagens de integrantes da Lava Jato, que começaram a ser publicadas em junho pelo site The Intercept Brasil e outros veículos, entre eles a Folha. Os dois conversaram algumas vezes, por meio do aplicativo Telegram.

Em um desses diálogos, que a PF encontrou num computador do hacker após sua prisão, em julho, o humorista perguntou ao hacker se ele tinha obtido informações de alguém da Globo: "tem algo da globo?" O hacker respondeu: "peguei bastante".

Duvivier então pergunta quem foi alvo. O hacker responde "ahh o Bonner", referindo-se ao jornalista William Bonner, editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional.

"Cara os chefões da Globo vale pegar hein", disse Duvivier em seguida. O hacker pede nomes: "Me fala nomes kkkk".

O humorista Gregório Duvivier
O humorista Gregório Duvivier - Annelize Tozetto/Divulgação

O humorista então citou o diretor-geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel, e o diretor-geral da emissora de televisão, Carlos Henrique Schroder. Duvivier também mencionou o governador do Rio, Wilson Witzel, e o juiz Marcelo Bretas, responsável pelas ações da Lava Jato no Rio.

Em seu depoimento à polícia, Duvivier disse que em nenhum momento solicitou ou sugeriu que o hacker invadisse o telefone de alguém e afirmou ter perguntado sobre a Globo apenas por curiosidade. Segundo ele, os nomes dos jornalistas, de Witzel e Bretas foram mencionados de forma aleatória.

Em seu relatório, a PF não imputou nenhum crime ao humorista e não destaca a frase em que ele sugere "pegar" chefes da Globo.

O hacker disse ao humorista que tinha conseguido acessar a conta do jornalista William Bonner, editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, no Telegram, mas que não conseguira capturar nenhuma mensagem, porque o histórico da conta tinha sido apagado.

Segundo o relatório da PF, Kamel, Schroder e Witzel não foram alvo de ataques do hacker. Além de Bonner, o juiz Marcelo Bretas foi alvo do hacker, mas antes da conversa de Duvivier com Delgatti, de acordo com a Polícia Federal.

Duvivier também perguntou ao hacker se tinha conseguido algo sobre a "família bolso", numa referência ao presidente Jair Bolsonaro. Mas Delgatti disse que não tinha nada. O humorista forneceu à PF cópias dos diálogos que manteve com o hacker.

O advogado Augusto de Arruda Botelho, que defende Duvivier, disse que ele entregou espontaneamente todas as mensagens trocadas com o hacker, com o objetivo de cooperar com as investigações.

"Gregorio explicou detalhadamente em seu depoimento, no intuito de colaborar com as investigações, que aleatoriamente mencionou uma série de nomes, em uma conversa informal, sem qualquer intenção ou interesse de que tais nomes de fato fossem interceptados ou muito menos investigados", afirmou.

A PF indiciou Delgatti e outras cinco pessoas pela invasão de contas dos procuradores da Lava Jato e de outras autoridades, entre elas o ministro da Justiça, Sergio Moro, que foi o juiz responsável pelas ações da operação em Curitiba até 2018.

Em nota nesta sexta (20), o jornalista Ali Kamel afirmou: "Os diálogos revelados no inquérito são claros. O público saberá julgar a atitude de Gregorio Duvivier e suas explicações posteriores. Ali Kamel e Carlos Henrique Schroder, citados, preferem guardar para si suas opiniões a respeito. Apenas afirmam que se a quebra de sua privacidade tivesse sido levada adiante nada revelaria de desabonador. E nenhum contato com participantes da Operação Lava Jato."

O jornalista William Bonner disse que sofreu dois ataques do hacker no intervalo de uma hora e meia na noite de 29 de maio e “não apagou mensagem nenhuma, por não haver conversa que pudesse produzir interesse ou embaraço”. Ele acrescentou que não havia nenhuma conversa com participantes da Lava Jato.

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