Para achar 'novas Tabatas', deputada lança movimento por mais mulheres na política

Parlamentar criou projeto para oferecer tutoria a jovens que pretendem disputar eleição em 2020

São Paulo

Se uma Tabata Amaral incomoda muita gente, então o número de importunados tende a aumentar. Pelo menos no que depender da deputada federal.

A parlamentar lança nesta quinta-feira (19) um projeto para encontrar e apadrinhar mulheres que, como ela, pensam em entrar para a política.

Tabata pensa em oferecer de graça, com a ajuda de voluntários, uma tutoria para as escolhidas, formando o que descreve como uma rede de suporte e desenvolvimento pessoal.

Apesar de ser uma iniciativa individual, a deputada busca afastar qualquer vestígio de personalismo do Vamos Juntas, que foi colocado por ela na categoria movimento.

"Não tem régua ideológica. A gente quer mais mulheres na política. E elas, obviamente, não vão pensar igual a mim", diz Tabata, que se declara feminista.

Em conflito aberto com o PDT desde que contrariou a legenda e votou a favor da reforma da Previdência, a novata desenhou o projeto como suprapartidário.

Um processo seletivo será aberto para encontrar entre 30 e 50 mulheres do país todo, de perfis variados, "mães, meninas, brancas, negras, todo mundo".

"Nós, mulheres, encontramos muitas barreiras na política. Crescemos sendo ensinadas a pensar que esse não é um lugar para nós", analisa ela.

O programa será apresentado em um evento público na praça das Artes (centro da capital paulista), às 19h.

Seu objetivo é jogar luz sobre candidatas com potencial nas eleições municipais de 2020, em um esforço para aumentar a representatividade feminina no poder.

Basicamente, o movimento irá conectar as alunas a uma rede de mentores —mulheres, prioritariamente— que incluirá, além de Tabata, outros políticos eleitos e líderes sociais de todo o país.

Ela diz ter convidado também empresários, ativistas, influenciadores digitais e pessoas comprometidas com a causa da igualdade de gênero. Os nomes dos conselheiros ainda serão divulgados.

A deputada pretende compartilhar aprendizados de sua curta experiência, com erros e acertos. Inclusive em um tema que rendeu a ela dor de cabeça neste ano: contratação de colaboradores na campanha.

Em 2018, o então namorado dela, Daniel Garcia, prestou serviços para seu comitê eleitoral e recebeu R$ 23 mil. Quando a informação veio à tona, em julho deste ano, um caminhão de críticas foi despejado sobre a estreante.

Tabata disse que a contratação foi feita dentro da lei e que o recurso pago ao rapaz não veio do fundo eleitoral, mas do arrecadado com pessoas físicas.

"Eu vou dizer [às participantes do movimento] o que venho falando: sempre façam as coisas da maneira mais correta e ética e sejam muito transparentes nos seus gastos. Foi exatamente o que eu fiz", responde ela à indagação da Folha.

"Reduzir a minha campanha a isso é uma forma de machismo, sabe? Tantos deputados, senadores e candidatos à Presidência contaram com irmãos, esposas, tios trabalhando na campanha. E por que essa é uma questão [direcionada] apenas para mim, e não para os outros?"

A princípio, o escopo do projeto poderia se confundir com o do RenovaBR, iniciativa privada que capacita candidatos e que ajudou a eleger Tabata.

A deputada, no entanto, quer diferenciar o seu programa. Ele não é tratado como uma escola, mas como um acompanhamento individualizado, algo distinto do ofertado pela organização do empresário Eduardo Mufarej.

Tabata, que é colunista da Folhaabordou a iniciativa do Vamos Juntas em seu artigo desta semana e escreveu que se dedicará no próximo ano a estruturar o movimento.

Eleita aos 24 anos, a jovem nascida na Vila Missionária (zona sul da capital paulista) estudou em Harvard com bolsa e levantou quase R$ 1,3 milhão em doações na campanha —a maior parte de financiadores privados.

Sexta deputada federal mais votada do estado de São Paulo, com 264.450 votos, ela carregou para o mandato uma postura que combina visão liberal de mercado e preocupação com temas sociais e desigualdade.

Tal comportamento rendeu a ela uma série de ataques do próprio partido e de parte da esquerda.

Ensaio no PDT

O movimento ora lançado é descrito pela parlamentar como continuidade de um trabalho que ela vinha desenvolvendo no PDT antes de se indispor com a agremiação.

"É um projeto que eu tinha levado para o partido. Obviamente, eu fiquei muito frustrada quando meus projetos lá foram interrompidos e jogados no lixo", diz.

A novata, que chegou a assumir a presidência na capital paulista da AMT (Ação da Mulher Trabalhista), braço feminino da sigla, inicialmente almejava atrair mais mulheres para o PDT.

O Vamos Juntas chegou a ser lançado pela AMT, com o mesmo nome, em junho, dias antes da fatídica votação da Previdência, que selou o afastamento dela do partido.

Hoje as partes se enfrentam no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Tabata pede desfiliação e aponta perseguição como justa causa na tentativa de sair da legenda sem perder o mandato.

O PDT, que puniu a filiada internamente pela desobediência, contesta a versão e diz que, ao votar pela mudança no sistema previdenciário, ela traiu o compromisso de defesa dos vulneráveis.

O ministro Sérgio Banhos, relator do processo na corte, marcou para 5 de março de 2020 a primeira audiência do caso, em que os dois lados e suas testemunhas serão ouvidos.

Enquanto a situação continua indefinida, Tabata está em um limbo partidário. Continua formalmente no PDT, mas cortou relação com a cúpula da sigla, inclusive o ex-presidenciável Ciro Gomes.

Legendas como Cidadania, PSDB, Patriota, PSB, Rede, DEM e Avante já sinalizaram interesse em recebê-la. A deputada diz que não recebeu convite oficial e mantém silêncio sobre o eventual destino, à espera de um desfecho no TSE.

Uma das condições que ela deve impor para a legenda que quiser abrigá-la é a incorporação ao estatuto de medidas para aumentar a democracia interna e a transparência.

Parte das propostas defendidas pela parlamentar está em um projeto de lei apresentado por ela no Congresso com colegas do Acredito e de outros movimentos de renovação. A tramitação do texto está empacada.

Outro critério para a escolha de sua futura morada será encontrar uma agremiação que comporte sua visão de mundo, sem rótulos. Nas palavras dela, uma sigla cujo ideário alie desenvolvimento econômico e inclusão social.

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