Sem embaixada, Eduardo Bolsonaro trava guerra virtual e irrita Congresso

Em meio a disputa interna no PSL, deputado elevou tom em ataques a desafetos no partido e à imprensa

Brasília

Descartado para ocupar a Embaixada do Brasil em Washington, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) entrou de cabeça na guerra virtual travada pelo grupo ligado a seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, contra parte do PSL e vive incerteza sobre seu papel na Câmara em 2020.

Alijado do comando do diretório estadual de São Paulo e prestes a deixar a presidência da Comissão de Relações Exteriores, tema ao qual se dedicou durante o primeiro ano desta legislatura, o deputado enfrenta disputa para sair do PSL sem perder o mandato e recebe críticas pelos ataques duros a desafetos e à imprensa nas redes sociais.

Além disso, é alvo de um processo no Conselho de Ética da Câmara, sob acusação de quebra de decoro por ter falado, em entrevista, sobre a possibilidade de um “novo AI-5” —ato institucional que marcou o endurecimento da ditadura militar, em 1968.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), em sessão na Câmara
O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), em sessão na Câmara - Pedro Ladeira/Folhapress

Se durante a transição de governo presumia-se que o deputado agiria como um líder informal do pai no partido e na Casa, durante boa parte do ano isso não se concretizou.

Ao contrário do que se especulava nos corredores do Congresso em 2018, o parlamentar se manteve afastado das articulações de projetos legislativos prioritários do Executivo, como a reforma da Previdência, e focou suas atenções em uma agenda internacional e na aproximação com grupos de direita no exterior.

Hoje presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, ele deixará o posto no início do próximo ano legislativo, já que a reeleição é proibida pelo regimento interno.

Eduardo chegou a ser cotado para assumir o principal posto da diplomacia brasileira, chefiando a embaixada do país em Washington. O vai não vai durou meses e terminou apenas no final de outubro, com a oficialização da desistência da indicação.

Foi aí que o filho 03 se voltou para questões internas do governo e do partido, mergulhando em uma guerra virtual que tem como principal alvo a deputada correligionária Joice Hasselmann (SP).

Em meio ao racha interno no PSL, Eduardo assumiu a posição de comandante dos deputados da chamada “ala bolsonarista” do partido da Câmara.

Com a escolha de Joice para ser líder da sigla na Casa, após a suspensão dele e de outros 14 deputados, Eduardo ironizou no Twitter.

“Não adianta nada. Ela faz acordos com os líderes e não comunica nada para a tropa de dep. do PSL. Cada um continuará votando conforme quiser, nem aí para a orientação dela”, disse.

O deputado também propagou a hashtag “DeixedeseguiraPepa”, comparação de Joice com a porquinha Peppa Pig, personagem de desenho animado.

Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann, em cerimônia de diplomação em SP
Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann, em cerimônia de diplomação em SP - Zanone Fraissat/Folhapress

Na avaliação de deputados do partido e de membros do chamado centrão, Eduardo apostou numa linha mais discreta e política durante o período que trabalhou para ser embaixador, procurando parlamentares para conversas e abaixando o tom das redes.

Com isso fora da mesa, adotou postura mais agressiva e está sendo visto como o novo “filho problema” do presidente da República.

Deputados próximos a Bolsonaro relatam desconforto com os ataques que ele tem empreendido e dizem que isso passa uma sensação de insegurança para aliados: quem pode ser o próximo a ser “frito” pelo 03 para seus 1,8 milhões de seguidores?

Com um número exorbitante de seguidores, eles dizem que o parlamentar vem exagerando ao “jogar para os leões” qualquer um que faça críticas a si ou ao presidente e que, como filho de Bolsonaro, deveria agir com cautela.

Citam como exemplo não só o caso de Joice, cujas menções no Twitter passaram a ser inundadas com xingamentos da militância bolsonarista, mas também o de Julian Lemos (PB), um dos principais cabos eleitorais do presidente no Nordeste em 2018. Na segunda-feira (9), foi a vez dele de entrar no alvo.

A mudança de postura de Eduardo, porém, é estratégica. Ao contrário do irmão senador, Flávio (sem partido-RJ), Eduardo não pode deixar a legenda para migrar ao novo partido que o pai quer criar, a Aliança pelo Brasil, sem perder o mandato. Por isso, enquanto busca uma saída jurídica, está atrelado ao PSL.

Segundo aliados de Bolsonaro, o papel de Eduardo na criação do novo partido será o de formar e atiçar a militância. A avaliação é a de que a influência e a atuação do deputado nas redes sociais possam impulsionar a coleta de assinaturas para a criação da nova sigla —e nada traz mais engajamento nas redes sociais do que uma boa briga.

Paralelamente a isso, o deputado mantém uma agenda de viagens internacionais. Na semana passada, foi a países árabes aliados dos EUA, como Omã, Kuwait e Bahrein. Antes, passou por Israel. 

Além de manter um pé na diplomacia, área de seu interesse, ele tem se movimentado para articular a direita internacional.

Foi ele o organizador, por exemplo, do CPAC (Conservative Political Action Conference) Brasil, que ocorreu em São Paulo em outubro.

A atuação beligerante de Eduardo tem provocado incômodo no Congresso, principalmente depois da fala sobre a ditadura militar. 

Em entrevista à jornalista Leda Nagle, o deputado afirmou que, se a esquerda brasileira radicalizar, uma resposta pode ser “via um novo AI-5”. Um dia depois, ele disse que foi “um pouco infeliz” na declaração.

Parte do centrão tem defendido que o Legislativo dê um recado ao deputado no Conselho de Ética. Seria uma forma de, segundo líderes partidários, impor limites aos arroubos autoritários do clã Bolsonaro e de integrantes do governo. 

A ideia é evitar a punição máxima, a cassação, mas suspender o deputado por pelo menos seis meses, período em que ficaria sem verba de gabinete, funcionários e atividade parlamentar.

A Folha tentou entrar em contato com o deputado na semana passada, mas não obteve nenhuma resposta.

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