Ex-assessor de Gil Diniz diz não ter novas provas de 'rachadinha' na Assembleia de SP

Em depoimento à Promotoria, ele afirmou ter sido 'mal interpretado' sobre documentação de esquema em gabinete de deputado

São Paulo

O pivô da acusação de "rachadinha" no gabinete do deputado estadual de São Paulo Gil Diniz (PSL) disse ao Ministério Público não ter novos elementos para reforçá-la além das declarações e documentos apresentados no segundo semestre de 2019. 

Em depoimento prestado na última sexta-feira (10) à Promotoria e ao qual a Folha teve acesso, Alexandre Junqueira, ex-assessor do deputado, repetiu a acusação, mas disse não ter novas provas da "rachadinha" no gabinete do antigo aliado. O inquérito corre em sigilo.

Questionado pelo promotor sobre declarações de que levaria outros documentos para a comprovação do caso, Junqueira afirmou que "deve ter sido mal interpretado", pois tudo já havia sido enviado.

Ele acusa Gil Diniz, líder do PSL na Assembleia e ligado à família Bolsonaro, de coagir seus funcionários a devolver parte dos salários e fazer um rodízio de recolhimento em espécie das gratificações. O dinheiro seria usado para pagar contas de apoiadores.

Além disso, Junqueira acusa um assessor, Thiago Cortês, de ser funcionário fantasma do gabinete de Gil Diniz. Afirma que Cortês exercia a função de secretário-geral do PSL, um cargo voluntário, mas do qual ele se ocupava em horário de serviço. Cortês nega a acusação e diz que trabalha em horário integral no gabinete.

O deputado estadual Gil Diniz (PSL) durante sessão na Assembleia de SP - José Antonio Teixeira/Alesp - 10.jan.2020

Ao protocolar a denúncia, Junqueira apresentou seu relato, cópias de mensagens de WhatsApp trocadas com integrantes do gabinete e multas e extratos de pedágio para reforçar sua atuação no estado durante a campanha.

Procurado, ele afirmou à Folha que está proibido de falar sobre esse assunto. "Eu não posso comentar pelo fato de estar em segredo de Justiça. Se eu comento, eu é que vou estar infringindo a Justiça", afirmou. "Mas não retiro uma vírgula do que falei."

Gil Diniz e seus atuais assessores negam as acusações e dizem ter aberto mão do sigilo bancário para ajudar as investigações.

Antes de prestar depoimento, Junqueira mostrou à reportagem um grupo de WhatsApp, que seria do gabinete de Gil Diniz, e do qual ele teria sido expulso em maio de 2019. Essa seria a prova de que ele foi impedido de trabalhar após negar participação no suposto esquema.

Além disso, mostrou anotações do que seria a evolução de salário de Cortês, a quem acusa de ser funcionário fantasma. Ele afirma ter recolhido a informação por meio de portais da transparência.

O advogado de Gil Diniz, Roberto Beijato Junior, afirmou no dia do depoimento que a razão da denúncia é uma disputa pelo diretório do PSL da cidade de Suzano (SP), que era de interesse do ex-assessor de seu cliente. "Nós temos um áudio dele, que vamos apresentar, em que ele abertamente faz uma chantagem", afirmou. Junqueira nega as acusações.

Na época, Gil Diniz era vice-presidente do PSL no estado de São Paulo. Próximo ao presidente Jair Bolsonaro (eleito pelo PSL e hoje sem partido), ele é visto como braço direito do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

No depoimento, a passagem é contada de outra forma. Segundo a versão de Junqueira, ao negar fazer parte do suposto esquema, Gil Diniz iria rebaixá-lo ao cargo de motorista. O ex-assessor teria se recusado e pedido "que fosse transferido para um escritório político a ser montado (...) na região do Alto Tietê [onde fica Suzano]".

Conheça os envolvidos

Gildevânio Ilso dos Santos Diniz, hoje Gil Diniz, ganhou fama na internet como “Carteiro Reaça”. O antigo posto nos Correios e as críticas ácidas ao que chamava de aparelhamento da estatal pelo PT lhe renderam o apelido.

Em 2015, tornou-se assessor de gabinete do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O convite veio após conhecê-lo durante a campanha de Eduardo para a Câmara em 2014.

Alexandre Junqueira, que acusa Diniz de promover esquema de "rachadinha" em seu gabinete na Assembleia, também se projetou na internet.

De uma página com dicas de viagem, a “Carioca de Suzano” —apelido de Junqueira— virou uma plataforma política, com cobranças às autoridades e vídeos em apoio a Bolsonaro.

O ex-assessor afirma ter trabalhado em 2018 como motorista de Eduardo Bolsonaro durante a campanha.

A proximidade, segundo Junqueira, resultou em convite para assistir a apuração da eleição na casa do atual presidente e passar a virada do ano de 2018 para 2019 na Granja do Torto, em Brasília, onde Diniz também estava.

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