'Não preciso desse tipo de benesse', diz Doria sobre uso de aeronaves pagas pelo governo

Tucano reagiu a reportagem sobre voos para agendas casadas e com caronas; oposição quer investigação

São Paulo

O governador João Doria (PSDB) reagiu nesta quarta-feira (15) à reportagem da Folha que revelou voos feitos por ele com recursos públicos para o cumprimento de agendas casadas e com caronas a aliados políticos. O tucano afirmou que não precisa "desse tipo de benesse de governo".

Doria fez 435 deslocamentos em helicópteros e aviões que pertencem ao estado ou foram locados com recursos públicos em 2019. Ele combinou traslados para comparecer a atividades oficiais com participação em eventos partidários e do Lide, grupo privado que fundou e do qual se afastou em 2016.

"Não preciso desse tipo de benesse de governo", afirmou ele em Coroados (SP), após ser questionado em entrevista coletiva sobre os voos com aliados. A lista de passageiros tem correligionários e amigos sem relação direta com a atuação no Executivo paulista.

O ex-deputado federal Bruno Araújo, presidente nacional do PSDB, tucanos que exercem cargos públicos e a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), por exemplo, foram transportados em voos pagos pelos cofres estaduais.

O governador João Doria (PSDB) durante evento do governo em Coroados (SP), nesta quarta-feira (15); em entrevista coletiva, ele reagiu a reportagem da Folha sobre seus voos
O governador João Doria (PSDB) durante evento do governo em Coroados (SP), nesta quarta-feira (15); em entrevista coletiva, ele reagiu a reportagem da Folha sobre seus voos - Governo do Estado de São Paulo

Doria reiterou a informação enviada à Folha pela assessoria de imprensa do Palácio dos Bandeirantes de que reduziu em 33% o número de horas voadas em aeronaves custeadas pelo estado na comparação com 2018, ano em que o governo foi comandado por Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB).

"O fato é que nós reduzimos em 33% a utilização de transporte aéreo em São Paulo, seja de helicóptero, seja de avião. Até porque, quando há deslocamentos de ordem pessoal, eu tenho meu avião, tenho meu helicóptero, e eu faço uso disso de maneira pessoal", disse.

O tucano é dono de um helicóptero Bell 429 com capacidade para oito pessoas, usado "em agendas pessoais, pontualmente, em fins de semana", segundo a assessoria do palácio.

O governo, em nota, destacou a atitude e disse que ele é "o primeiro governador do estado a custear voos de helicópteros com recursos próprios, por meio de sua aeronave pessoal". Não detalhou, porém, quais trechos foram percorridos no helicóptero dele.

Doria teve uma série de atividades no interior paulista nesta quarta (15). Segundo sua agenda oficial, ele decolou da capital às 8h30 rumo a Penápolis. O giro, que previa entrega de obras, visitas e assinatura de atos, incluiu as cidades de Coroados, Birigui, Bilac e Araçatuba. O retorno estava marcado para as 15h50.

Em Araçatuba, o chefe do Executivo falou novamente que não necessita de benesses e ressaltou que abriu mão da prerrogativa de morar no Palácio dos Bandeirantes, além de doar seu salário de governador a instituições beneficentes. "Não preciso de mordomia, não preciso de facilidade [do cargo]", afirmou.

Após a publicação da reportagem, deputados de oposição à gestão Doria na Assembleia Legislativa de São Paulo criticaram o governador e disseram que pedirão ao Ministério Público estadual para investigar possíveis irregularidades.

O deputado Paulo Fiorilo (PT) e o mandato de Monica da Bancada Ativista (PSOL) afirmaram que vão protocolar representação no órgão. Por se tratar de conduta diretamente ligada ao governador, a atribuição para determinar eventual apuração é do procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio.

Para o petista, as justificativas de Doria "são insuficientes para quem diz que não precisa de benesse". Fiorilo afirma que o tucano "faz cortesia com recurso público, o que é inadmissível".

Monica diz que o governador "instrumentaliza o cargo" para beneficiar a si próprio, a seu grupo político e aos empresários que fazem parte do Lide. "Ele se vangloria de abdicar do salário, mas as vantagens ilegais que está recebendo ao se utilizar de bens públicos certamente é muito maior", completa.

O valor total economizado por Doria em 2019 não foi informado. O estado também não explicou se há regras para caronas ou se as autoridades podem convidar qualquer um para embarcar.

Os dados sobre os voos, obtidos pela Folha via LAI (Lei de Acesso à Informação), apontam que, em 2 a cada 3 dias com compromissos externos, Doria usou aeronaves que pertencem à frota do governo ou foram locadas com recursos públicos.

A primeira-dama, Bia Doria, que preside o Fundo Social de São Paulo (braço do governo para assistência social) e também tem direito ao transporte aéreo, acumulou 22 voos feitos para atendê-la, sem contar as vezes em que embarcou como acompanhante do marido.

Em dois dos traslados feitos em seu nome, Bia levou junto uma irmã —as duas pegaram helicóptero que compõe a frota da Política Militar para chegar ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas, e tomar voo de carreira para visitar parentes em Santa Catarina. Trajeto semelhante foi feito no retorno.

O governador também viajou em companhia do cirurgião plástico Alexandre Senra (que disse ter o tucano como paciente e amigo), da presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna (que embarcou após palestrar em evento do Lide em Campos do Jordão), e do médico Claudio Lottenberg (que é próximo de Doria e informou ter pegado carona para fazer um atendimento de emergência).

Em uma rede social, o diretório nacional do PSDB reforçou o posicionamento do governo paulista sobre os voos de Doria e afirmou que "as aeronaves são usadas apenas em deslocamentos oficiais, de acordo com o previsto no decreto 48.526/2004".

Segundo a norma, as viagens necessárias aos traslados do governador e da primeira-dama, "bem como, excepcionalmente, de secretários de Estado e agentes públicos a serviço", devem ser feitas "com ênfase na economicidade e na segurança".

O decreto estipula que cabe à Casa Militar zelar pela segurança do governador, da primeira-dama e de seus respectivos familiares. A previsão é normalmente apontada como justificativa para os deslocamentos aéreos do chefe do Executivo e de seus parentes.

O governo paulista afirmou que razões de segurança —e ações governamentais contra a facção criminosa PCC— justificam viagens aéreas de Doria e da família e destacou não haver ilegalidades.

A ausência de uma regulamentação mais detalhada para a utilização das aeronaves, no entanto, dificulta ações de controle. Ex-governadores como Alckmin França já enfrentaram críticas por recorrer a voos bancados pelo estado em compromissos considerados privados.

O Palácio dos Bandeirantes não revelou os gastos totais com as aeronaves em 2019, mas, a partir de contratos de locação, a estimativa é que tenha sido gasto em torno de R$ 1,34 milhão com aluguel de helicópteros e aeronaves para voos de Doria e Bia ao longo do ano.

No dia 2 de dezembro, por exemplo, ele gastou R$ 95 mil em voos locados para inaugurar um presídio em Caiuá (SP).

Almejando uma candidatura à Presidência em 2022, ​Doria adotou um ritmo intenso de aparições em solo paulista e viajou a Brasília e a outros estados em seu primeiro ano à frente do Bandeirantes. A relação obtida pela Folha não abrange suas sete missões internacionais, feitas em voos de carreira.

O tucano tem à sua disposição um helicóptero do estado reservado para transporte do governador, além dos cerca de 30 helicópteros Águia da Polícia Militar e de um avião com capacidade para nove pessoas.

O governo ainda fretou aeronaves para a locomoção de Doria, que na maioria das vezes teve a companhia de secretários estaduais e assessores, cujo transporte aéreo está previsto na regulamentação estadual.

Agendas dentro de São Paulo e fora do estado

Ao longo de 2019, a agenda pública do governador exibiu compromissos dele no território brasileiro em 264 dias. Desse total, em 70 dias ele teve atividades só dentro do palácio. Dos 194 dias em que saiu, Doria utilizou aeronaves para chegar até os destinos em 63,4% das vezes.

Em 31 de maio, por exemplo, sua agenda registrou a ida a Brasília para a convenção nacional do PSDB. Para chegar ao aeroporto de Congonhas (zona sul), onde embarcou em jato locado pelo governo, ele utilizou um Águia. No retorno, outro helicóptero da PM levou Doria do terminal para casa.

Para buscar o tucano e a primeira-dama em casa e levá-los de volta, os helicópteros usam como base um heliponto do edifício onde fica a sede do Lide, na avenida Faria Lima. Doria e Bia residem a cerca de 800 m do prédio, na rua Itália, nos Jardins, zona oeste de SP.

Depois de discursar no encontro de seu partido, o governador teve almoço em Brasília com o ministro das Relações Exteriores do governo Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, e duas entrevistas a jornalistas.

O trecho de ida e volta até a capital federal custou aos cofres estaduais, segundo valores de mercado, R$ 49.200. A tabela enviada pelo governo aponta que Doria acomodou no voo um colega de sigla, o deputado federal Carlos Sampaio (SP), mas o parlamentar nega essa informação.

Em 22 de abril, o ex-deputado federal Bruno Araújo —que no mês seguinte seria eleito presidente nacional do PSDB— acompanhou o governador em outra viagem de São Paulo a Brasília. O aluguel da aeronave pelo governo foi estimado em R$ 51.900.

A lista de tucanos entre os passageiros dos voos inclui ainda o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Cauê Macris, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

Doria também utilizou traslados pagos pelo estado para ir a eventos do Lide, que faz parte do Grupo Doria, cujo comando acionário o tucano passou aos filhos em 2016, às vésperas de assumir a Prefeitura de São Paulo.

Parte das agendas do Lide foi na capital paulista —como um seminário com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em agosto, e um "almoço-debate" com o presidente do Supremo, Dias Toffoli, também em agosto, e outro, com o ministro da Secretaria de Governo da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, em julho.

Além disso, o governador foi a evento do Lide em Campos do Jordão, cidade onde possui uma casa com heliponto, a Villa Doria, cujo terreno ocupa um quarteirão inteiro.

Em 4 de abril, o tucano embarcou em um helicóptero alugado pelo estado rumo à vila. O custo de mercado do voo é de R$ 18 mil. Sua agenda para aquele dia na cidade previa a assinatura de dois atos: um para autorizar a concessão de parques para ecoturismo e outro para permitir a concessão de um parque local.

Depois dessa cerimônia, que transcorreu das 17h às 17h30, seu compromisso era comparecer, como convidado especial, ao jantar de abertura do 18º Fórum Empresarial Lide.

Como não há registro de que ele tenha voado para a cidade de São Paulo depois do jantar, é possível supor que Doria pernoitou em Campos, já que no dia seguinte, às 8h30, ele fez a abertura oficial do fórum. 

No retorno à capital paulista, o helicóptero fretado pelo governo deu carona à presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna, que havia sido uma das palestrantes da conferência do Lide.

Em 12 de fevereiro, o governador paulista novamente combinou compromissos institucional e empresarial ao programar uma viagem para Belo Horizonte. Ele saiu do palácio em helicóptero do estado e foi para Congonhas, onde embarcou em um jato fretado pelo Bandeirantes com destino à capital mineira (custo estimado em R$ 25 mil).

O cirurgião plástico Alexandre Senra, que diz ter Doria como um de seus pacientes e ser amigo do político, foi um dos passageiros do avião. Depois de pousar no aeroporto da Pampulha, o governador viajou em um helicóptero privado rumo a Nova Lima, na região metropolitana de BH.

Lá ele participou de um almoço com empresários promovido pelo Grupo VB Comunicação, que é parceiro local do Lide, e voltou ao helicóptero para ir à Cidade Administrativa e se reunir com o governador de Minas, Romeu Zema (Novo).

A aeronave particular é operada pela Via Jap Comércio de Veículos Ltda., que disse ter feito o voo de graça, já que os proprietários da empresa são amigos dos diretores da VB, organizadora do almoço.

Doria desembarca em São Roque (SP) do helicóptero PR-GSP, que pertence ao governo e é usado para o transporte de autoridades; no local, governador participou de inauguração de aeroporto privado voltado à aviação executiva
Doria desembarca em São Roque (SP) do helicóptero PR-GSP, que pertence ao governo e é usado para o transporte de autoridades, em 16 de dezembro de 2019; no local, governador participou de inauguração de aeroporto privado voltado à aviação executiva - Cadu Rolim - 16.dez.2019/Fotoarena

A presença de Doria nessas atividades foi publicada no site do governo. A análise isolada da tabela de voos permite ver, no entanto, que em pelo menos 4 ocasiões o tucano fez voos custeados pelo estado para compromissos que não constam na agenda.

Alguns casos foram motivados por emergências, como o massacre na escola Raul Brasil, em Suzano, e o velório do banqueiro Lázaro Brandão —no retorno do funeral, o helicóptero deu carona ao médico Claudio Lottenberg, que é conselheiro do hospital Albert Einstein e chairman do UnitedHealth Group Brasil.

Filiado ao partido Novo, Lottenberg é próximo do tucano e foi cotado para assumir a Secretaria de Estado da Saúde.

Doria fez ainda dois pousos não programados no hospital Sírio-Libanês, onde seu correligionário Bruno Covas estava internado para tratamento de câncer, em 24 e 28 de outubro.

Chama a atenção a ida do governador à unidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Liberdade (região central). Ausente da agenda dele de 9 de novembro, a visita foi feita em companhia da deputada estadual Damaris Moura, que é fiel da igreja e se filiou recentemente ao PSDB a convite de aliados de Doria.

Além de ter mobilizado um helicóptero Águia para levar o tucano ao templo, o governo enviou fotógrafo oficial para registrar a presença dele, que recebeu uma homenagem e se ajoelhou no altar durante uma oração. Damaris não viajou na aeronave, segundo os registros.

Outros dois deslocamentos aéreos feitos em nome do governador estão omitidos da agenda. Um em 27 de setembro, quando um helicóptero saiu do Bandeirantes rumo a Congonhas em um dia no qual ele teve apenas compromissos internos. 

Na lista de voos, a viagem foi descrita como "traslado solicitado pelo capitão PM Kamada", uma referência a Marcelo Kamada, que é ajudante de ordens de Doria.

Em 1º de dezembro, uma viagem cuja descrição se resume à palavra traslado foi feita em helicóptero que saiu de Congonhas e pousou no edifício do Lide, perto da casa do governador. Ele não teve compromissos públicos como governador nessa data, a mesma em que nove jovens foram mortos em um baile funk em Paraisópolis.

Esteve naquele domingo, porém, no Rio de Janeiro para filiar ao PSDB o ex-ministro Gustavo Bebianno, que comandou o PSL na campanha de 2018 e se tornou desafeto do presidente Bolsonaro.

Questionado, o governo não informou a razão dos dois deslocamentos que estão sem especificação.

Os voos que atenderam à primeira-dama (que representam 5% dos feitos pelo marido) foram todos justificados e têm relação com campanhas e programas do Fundo Social.

Os que destoam são os deslocamentos em que deu carona à irmã Rosani Bettanin Salanitri com destino ao aeroporto de Viracopos. As duas desceram do Águia e embarcaram em voo da companhia Azul rumo a Chapecó (SC), que fica a cerca de 60 km da cidade natal delas, Pinhalzinho (SC).

Um site local relatou um encontro de Bia com o prefeito do município catarinense e afirmou que ela foi lá "rever seus familiares". A viagem foi feita no feriado de Corpus Christi, em junho.

Em outro voo, em maio, a primeira-dama levou a deputada Joice Hasselmann, aliada política de Doria, e a ativista de perfil conservador Raquel Gerde a agendas do Fundo Social no interior de São Paulo.

Na ocasião, voaram a Araçatuba, onde houve um evento da chamada caravana da Previdência, que percorreu cidades em busca de apoio às mudanças na aposentadoria.

Joice aproveitou os eventos com Bia para defender o projeto para empresários. Gerde, que é ex-integrante do MBL (Movimento Brasil Livre), também militava pela causa.

A primeira-dama ainda deu carona ao chef Erick Jacquin e à assessora de imprensa dele. Jacquin, que é jurado do programa "MasterChef", da Band, embarcou no helicóptero para participar da aula inaugural de um projeto do Fundo Social em Santo André.

O governador também se valeu de voos governamentais para chegar até pontos onde embarcaria em aeronaves privadas.

Um dos casos foi em 14 de junho, quando saiu do palácio em um helicóptero do estado e desceu no aeroporto de Congonhas para entrar em um jato particular, não custeado pelo governo, rumo ao Rio de Janeiro.

Naquele dia, ele foi homenageado em jantar na casa do empresário Paulo Marinho, hoje filiado ao PSDB, e teve sua candidatura ao Planalto informalmente lançada para convidados cariocas. O evento foi computado em sua agenda pública

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