De indignado a colaborador, Cabral citou até Odete Roitman em defesa; veja evolução de suas falas

Ex-governador do RJ teve delação homologada pelo ministro do STF Edson Fachin nesta quinta-feira (6)

Rio de Janeiro

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (MDB), já se apresentou à Justiça Federal por 25 vezes para ser interrogado sobre as acusações do Ministério Público Federal.

Excluindo as duas em que ficou em silêncio, suas falas aos juízes Sergio Moro e Marcelo Bretas expõem a evolução do réu indignado ao recente colaborador das autoridades.

As mudanças nas estratégias se refletem também nos cinco escritórios que já assumiram sua causa e as constantes mudanças de estratégia.

Cabral teve nesta quarta-feira (5) o acordo de colaboração com a Polícia Federal homologado pelo ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal). O Ministério Público Federal foi contra, por considerar que ele tem pouco a contribuir às investigações.

Em seus dois primeiros interrogatórios, Cabral não respondeu aos questionamentos de Moro, Bretas e procuradores, apenas aos de sua defesa. Ali, já apresentava a tese de que não cobrou propina durante sua gestão (2007-2014), mas sim se apropriou de sobras de caixa dois de campanha.

Após sofrer a primeira condenação, de Moro, a 14 anos e 2 meses de prisão, o ex-governador adotou tom mais incisivo. Classificou as denúncias de que cobrava 5% sobre grandes contratos de “maluquice”.

Mencionou até a personagem Odete Roitman, da novela “Vale Tudo” exibida na década de 1980 pela TV Globo, ao responder sobre o motivo de tantos delatores o apontarem como destino de suborno.

“Eu não matei Odete Roitman. Que há uma possibilidade das pessoas colocarem na minha conta má conduta que não foi cometida por mim, eu não tenho dúvida”, disse ele a Bretas, em julho de 2017.

Nesse período, o ex-governador afirmou estar sendo injustiçado e até discutiu nas audiências com o procurador Eduardo El Hage, chefe da força-tarefa da Lava Jato fluminense, e com Bretas. O bate-boca com o magistrado culminou com a determinação de transferência para um presídio federal, depois revogada pelo ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Ele foi depois, em janeiro de 2018, transferido para Curitiba, onde foi algemado nas mãos e nos pés, em razão de regalias que tinha na prisão no Rio. Retornou tempos depois.

Após ver no fim de 2017 a delação do “gerente” de sua propina, o economista Carlos Miranda, ser homologada no STF (Supremo Tribunal Federal), Cabral reduziu o tom em seus depoimentos. Manteve a linha de defesa, mas fez depoimentos mais emocionados na tentativa de conquistar a confiança de Bretas.

“Eu não soube me conter diante de tanto poder e tanta força política”, declarou o ex-governador em junho de 2018.

Ao fim daquele ano, Cabral já se aproximava dos 200 anos de pena somadas, sem qualquer perspectiva de sair da prisão.

A estratégia do advogado Márcio Delambert foi confessar os crimes mesmo sem qualquer acordo. O objetivo era tanto obter uma redução de pena como criar um ambiente favorável a uma eventual colaboração.

Já no início de 2019, Cabral mencionou supostos crimes que cometeu em favor de outros políticos, como o ex-prefeito Eduardo Paes, o ex-presidente Lula e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella —todos negam.

Também mencionou “tratos” com ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do TCU (Tribunal de Contas da União), sem nomeá-los.

Aos poucos, os interrogatórios passaram a se tornar mais objetivos, atendo-se aos temas dos processos. Cabral, contudo, sempre deixou claro que daria mais informações “em outras circunstâncias”.

Foi o que ocorreu em seu último depoimento, na segunda-feira (3), quando disse ter conhecimento de uma pessoa que seria o responsável por guardar a propina supostamente entregue ao ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB), seu sucessor.

Cabral responde a no total 31 ações penais decorrentes da Lava Jato, e outras duas por outros crimes. Tem ainda 12 interrogatórios a participar, além daqueles que serão marcados em futuras ações penais a serem abertas.

O próximo depoimento de Cabral está marcado para esta segunda-feira (10).

As várias fases de Sérgio Cabral

PRESO
nov.16 - Sérgio Cabral é preso na Operação Calicute

dez.16 - Mulher de Cabral, Adriana Ancelmo, é presa

jan.17 - Procuradoria identifica contas com US$ 100 milhões no exterior, em nome de laranjas do ex-governador

EM SILÊNCIO
abr.17 - Depõe pela primeira vez ao juiz Sergio Moro e afirma ter se apropriado de sobras de caixa dois de campanha

jun.17 - Cabral é condenado pela 1ª vez, por Moro, a 14 anos e 2 meses de prisão

CONTESTADOR
jul.17 - Ex-governador chama de "maluquice" a acusação de que pedia 5% de propina sobre os grandes contratos durante sua gestão no governo fluminense

out.17 - Durante depoimento, discute com juiz Marcelo Bretas, que determina sua transferência (depois suspensa) para presídio federal

nov.17 - Cabral pede desculpas a Bretas

dez.17 - Principal operador financeiro de Cabral, economista Carlos Miranda tem delação homologada pelo STF

jan.18 - Antes preso no Rio, é transferido para Curitiba após revelação de que tinha regalias dentro da cadeia (recebia visitas fora do horário permitido e tinha iguarias culinárias em sua cela, por exemplo). Só volta ao RJ em abril

HUMILDE
jun.18 - Em depoimento a Bretas, Cabral diz que não soube se conter diante de tanto poder, reconhece promiscuidade com empresários e afirma que adotou práticas desonestas. Ainda assim, muda pouco a linha de defesa, afirmando que nunca pediu propina, mas se apropriou de sobra de caixa dois. Dizendo questionar a importância do patrimônio quando se está longe dos filhos, ex-governador decide abrir mão de seus bens apreendidos para a Justiça. Pouco antes do depoimento, conhece seu primeiro neto, após autorização de Bretas

RÉU CONFESSO
fev.19 - Cabral confessa pela primeira vez na Justiça ter recebido propina. "Dinheiro e poder se tornaram um vício", diz

abr.19 - Ex-governador diz ter sido achacado por deputados e senadores e afirma que teve que fazer tratos com ministros do STJ e do TCU

COLABORADOR
nov.19 - Fecha acordo de delação com a PF

fev.20 - Delação é homologada pelo ministro do STF Edson Fachin

As ações contra Cabral em números

  • R$ 440,5 milhões recebidos em propina, segundo denúncias do MPF
  • 31 ações penais vinculadas à Lava Jato
  • 13 condenações, sendo 1 em 2ª instância
  • 282 anos e 5 meses de penas acumuladas
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