Apoiador dos PMs, deputado vê legítima defesa de amotinados que balearam Cid Gomes

Apoiador dos policiais militares do Ceará, Capitão Wagner (Pros) criticou atitude do senador licenciado

Brasília

Um dos apoiadores do movimento de policiais militares amotinados no Ceará, o deputado federal Capitão Wagner (Pros-CE) considera legítima defesa os tiros que balearam o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) na tarde de quarta-feira (19).

Em entrevista à Folha antes de se reunir com o secretário de Segurança Pública do Ceará, André Costa, na manhã desta quinta (20), Capitão Wagner criticou a atitude do ex-governador do estado. “Parece que ele age com o fígado, ele age com desejo de se vingar dos policiais, e ficou muito claro quando ele jogou o veículo para cima dos manifestantes”, afirma.

O deputado federal Capitão Wagner (Pros-CE) - Divulgação - 21.out.2016

Cid Gomes foi atingido por dois tiros quando tentava entrar no 3° Batalhão da Polícia Militar em Sobral (270 km de Fortaleza) dirigindo uma retroescavadeira. Segundo o mais recente boletim médico, ele foi transferido para o quarto na manhã desta quinta (2) e passa bem. Por questões familiares, continua a nota, ele está sendo transferido para Fortaleza.

O que está acontecendo no Ceará? O senhor está liderando o movimento de PMs lá? A gente não está liderando o movimento, foi um movimento que saiu naturalmente da tropa, um movimento de esposas e policiais. A gente viu que os ânimos estavam se exaltando, eu convidei uma comitiva de deputados federais, o deputado [capitão] Alberto Neto (Republicanos-AM), a Major Fabiana (PSL-RJ), o Herbert [Barros], que representa o ministério [da Mulher, da Família e] dos Direitos Humanos. Viemos em comboio para o estado do Ceará com uma agenda pré-marcada com o governador, para a gente tentar sentar e dialogar. Mas o fato ocorrido em Sobral gerou um tensionamento ainda maior. A gente veio do aeroporto direto para o Palácio [da Abolição, sede do governo do Ceará], o governador não nos recebeu no dia de ontem [quarta], prometeu uma agenda hoje pela manhã [quinta].

A gente veio novamente para o Palácio, nem sequer tivemos permissão para adentrar o prédio. Só para você ter noção, a Major Fabiana precisou ir ao banheiro e foi escoltada até o banheiro para que fosse autorizada a entrada dela. E a gente lamenta que, com esses ânimos exaltados, com a atitude do senador [Cid Gomes] ontem. De forma premeditada, ele marcou nas redes sociais uma manifestação, chamou o pessoal para o aeroporto de Sobral às 16h. Lá chegando, todos os funcionários da prefeitura de Sobral, em horário de expediente, foram mandados para o aeroporto, foram mandadas duas máquinas, duas retroescavadeiras que não são da prefeitura, são de alguma instituição, de alguma construtora que presta serviço para a prefeitura. De forma irresponsável, o senador, que não tem habilitação para conduzir aquele veículo, passou a conduzi-lo e jogou por cima dos manifestantes e das suas esposas.

A gente ficou muito preocupado, os policiais reagiram, logicamente, por causa da maneira como ele atentou contra a vida dos policiais e das suas esposas e a gente está tentando apaziguar os ânimos. Fui ao local onde está ocorrendo a manifestação, no Antônio Bezerra, um bairro de Fortaleza. Conversei com os policiais para apaziguar, para baixar o nível da tensão, mas sem uma possibilidade.

Por que o governador não recebe vocês? Ele simplesmente diz que não tem agenda e que não iria nos receber. A gente lamenta porque sem o diálogo, sem sentarem à mesa representantes dos manifestantes e o governo, a gente não vai resolver nunca isso.

O que os manifestantes querem? Há uma série de reivindicações. Há a questão salarial, a carga horária de trabalho, que hoje, no interior, é de 62 horas semanais, a gente quer reduzir essa carga horária. São 17 pontos, alguns não têm sequer repercussão financeira, e outros têm. A gente entende que o governo não pode dar tudo, não pode dar tudo que os manifestantes querem, mas, ao mesmo tempo, alguém tem que ceder. Ambas as partes têm que ceder.

Falando da participação do senador. O que aconteceu? O senador é da cidade de Sobral, o prefeito [Ivo Gomes] é o irmão dele. Na manifestação que houve em 2011/2012 ele era governador, e não apareceu em nenhum momento na negociação. No próprio vídeo ontem de manhã ele diz isso: "olha, em 2011, 2012 era para eu ter tomado uma atitude que eu não tomei. Agora vou tomar essa atitude". Parece que ele age com o fígado, ele age com desejo de se vingar dos policiais, e ficou muito claro quando ele jogou o veículo para cima dos manifestantes.

Como o senhor avalia a atitude dele? Irresponsável, imprudente. A gente está feliz por ele ter sobrevivido, por ele estar se restabelecendo, afinal de contas ninguém quer que alguém morra, mas aquilo que foi ocasionado pela irresponsabilidade dele. A gente pode fazer inclusive uma correlação. Imagine se nós tivéssemos aqui um grupo de sem-terra que tivesse invadido uma propriedade privada. Nem o proprietário dessa propriedade teria legitimidade para pegar uma retroescavadeira e jogar por cima dos manifestantes. Imagine um senador sem ordem judicial, sem estar na função de senador. Ele não era governador, ele não é comandante dos policiais, ele não tinha qualquer legitimidade para jogar o veículo em cima dos manifestantes. Não se justifica um erro com outro. Ninguém está querendo passar a mão na cabeça de ninguém, mas acho que faltou por parte do senador equilíbrio e responsabilidade também.

Mas o senhor não acha que o fato de terem atirado num parlamentar, como em qualquer pessoa, como algo grave? Na hora que jogaram pedra nele, que atiraram, foi legítima defesa. Estavam vendo uma retroescavadeira passar por cima de policiais e de mulheres. Tem uma mulher que está com a perna quebrada, tem um policial que está lesionado. A legítima defesa que eu aprendi no meu curso de direito está plenamente caracterizada.

O senhor foi aí para se unir aos manifestantes? Eu vim tentar abrir um canal de diálogo, em nenhum momento eu estou organizando a manifestação nem estou aqui no governo, eu quero ser o mais isento possível. Não quero nem fazer parte da negociação, até porque eu posso ser considerado suspeito por ser policial militar. Então a gente quer que eles sentem com a liderança que lá estão e negociem com eles a solução.

O que o senhor acha que acontece com o movimento daqui para a frente? A gente acabou de receber a ligação do secretário de Segurança Pública, estamos indo lá. A gente sabe que o secretário de Segurança não tem autonomia para resolver as demandas dos policiais, mas, para provar que a gente quer dialogar, estamos indo lá agora.​

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