Jornalista é alvo de insultos de bolsonaristas após revelar vídeo divulgado por Bolsonaro

Vera Magalhães foi atacada por congressista e teve dados pessoais expostos

São Paulo

A jornalista Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, virou alvo de insultos de bolsonaristas após publicar que o presidente Jair Bolsonaro havia compartilhado no WhatsApp um vídeo de apoio ao ato marcado para 15 de março a seu favor e contra o Congresso.

Em sua conta no Twitter, a deputada federal Alê Silva (PSL-MG) publicou, em resposta a Vera: "E aí, a senhora também está louca para dar... furo”.

Após a frase com insinuação sexual, a congressista negou ter tido essa intenção. "Eu falei de 'furo jornalístico'. Talvez eu não tenha sido feliz em completar a frase", disse.

Alê Silva ofendeu a jornalista usando o mesmo termo empregado por Bolsonaro para insultar a repórter da Folha Patrícia Campos Mello no último dia 18.

“Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]”, disse o presidente, em entrevista diante de um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada. Após uma pausa durante os risos, Bolsonaro concluiu: “a qualquer preço contra mim”.

A declaração do presidente foi uma referência ao depoimento de um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, dado à CPMI das Fake News no Congresso.

Deputada federal Alê Silva (PSL-MG) no Congresso
Deputada federal Alê Silva (PSL-MG) no Congresso - Najara Araujo/Câmara dos Deputados

Procurada pela Folha, Vera afirma que as ofensas não prejudicarão seu trabalho de jornalismo profissional.

“Os ataques pessoais pelas redes sociais não são novidade para mim. Mas eles escalaram muito nas últimas horas, e sempre permeados de insinuações machistas, misóginas e sexistas, como é o padrão quando se trata de jornalista mulher”, diz.

“Não vou deixar de fazer meu trabalho por nenhuma tentativa de intimidação, por parte de nenhum grupo político. Já vivi isso por parte de outros grupos, mas a intensidade, a virulência e a participação de ministros, parlamentares e outras autoridades são inéditas”, completa a jornalista.

Entre os ataques à jornalista Vera Magalhães, que revelou o primeiro vídeo com apoio ao ato do dia 15 compartilhado por Bolsonaro, está o de um perfil de um apoiador do presidente que exibe papéis com dados pessoais dela e exposição de seus familiares. Há ainda montagens com simulação de mensagens trocadas. 

No Twitter, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicou: “Lançamento para o mercado brasileiro: Playmobil Pinóquio!”.

Ex-funcionário de empresa de disparos em massa Hans Nascimento (à dir.) em depoimento na CPMI das Fake News
Ex-funcionário de empresa de disparos em massa Hans Nascimento (à dir.) em depoimento na CPMI das Fake News - Jane de Araújo/Agência Senado

O presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Marcelo Träsel, qualificou o episódio de “atentado grave contra a liberdade de imprensa”.

“É um caso muito grave porque, além das ofensas misóginas e machistas, que infelizmente viraram feijão com arroz nos ataques a jornalistas, há nesse caso um 'doxxing', que é a exposição de dados pessoais na internet. Isso embora juridicamente não seja visto necessariamente como um crime, qualquer jornalista entende o recado, e o recado basicamente é uma ameaça à integridade física de sua família”, afirmou Träsel.

A presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) Maria José Braga afirmou que a entidade “tem reiteradamente alertado para a institucionalização da violência contra jornalistas por meio da Presidência da República. Isso é muito grave porque acaba gerando ações de terceiros. O presidente da República sempre que se manifesta, se manifesta também para provocar ações e manifestações dos seus seguidores. Precisamos exigir uma conduta condizente com o cargo do presidente, e que ele exija de seus correligionários respeito aos jornalistas e à imprensa de forma geral”.

“O que estamos vendo hoje em relação à Vera Magalhães infelizmente ocorreu há poucos dias com a Patrícia Campos Mello. É preciso que haja uma reação à altura das demais instituições brasileiras. Achamos que o que devemos fazer é pedir o impedimento do presidente por falta de decoro, mas para isso precisamos do apoio da sociedade brasileira e das instituições democráticas”, disse.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) emitiu nota se solidarizando com a jornalista. A organização destacou que "os ataques do presidente e de pessoas próximas a ele ocorrem preferencialmente contra mulheres, demonstrando machismo e misoginia".

"Registramos, ainda, que mesmo não tendo sido o autor imediato da agressão, as atitudes de Bolsonaro estimulam agressões contra a imprensa, o que faz dele também responsável por elas", afirmou a associação.

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