'Sou imbrochável', diz Bolsonaro ao negar que governe de olho na reeleição

Presidente disse também não ver nada de errado em atuação de Wajngarten, secretário investigado pela Polícia Federal

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta quinta-feira (6) que não governa o país de olho na disputa pela reeleição em 2022. Ele, que já declarou a intenção de concorrer a mais um mandato, falou sobre o tema ao mais uma vez reclamar das críticas feitas a seu governo pela imprensa.

"Não estou preocupado com reeleição. Podem continuar escrevendo [incompreensível]. Não vou brochar para atender vocês [jornalistas] pensando em reeleição. Eu sou imbrochável", disse Bolsonaro, pela manhã, ao deixar o Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência. Ele falou por 50 minutos.

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores e fala com a imprensa do lado de fora do Palácio da Alvorada - Pedro Ladeira/Folhapress - 27.dez.2019

O presidente comentou ainda que quem se preocupa com política "não dá certo". Essa última declaração foi feita quando questionado sobre a situação do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), que tem favorecido seu reduto eleitoral à frente da principal pasta do governo, como mostrou a Folha.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente disse que dará 'cartão vermelho' para ministros que usarem o cargo de olho nas eleições. 

"[O caso de Onyx] é um ponto a ser estudado, tá ok? Qualquer ministro que, porventura, queira aí usar o ministério [para], em vez de atender ao Brasil, atender ao seu estado ou ao seu município está fadado a levar um cartão vermelho. Eu não vou confirmar o que você falou aí, mas, em havendo…", disse.

Levantamento feito pela Folha identificou uma média de três encontros por semana do ministro Onyx com representantes e políticos do Rio Grande do Sul, estado pelo qual o ministro se elegeu deputado em 2018.

Onyx está enfraquecido no cargo de ministro após uma série de desgastes que levaram a um esvaziamento de sua pasta. Ele já perdeu, por exemplo, a articulação política e a coordenação jurídica da Presidência. Até o momento, Bolsonaro tem evitado falar sobre sua permanência no governo.

O presidente voltou a falar que vai alterar verbalmente as regras para uso de jatinhos da FAB (Força Aérea Brasileira) depois de ter demitido Vicente Santini da secretaria-executiva da Casa Civil por ter usado um voo exclusivo para viajar a Déli, na Índia. 

"Falei com o general Fernando, que ele falou com o comandante da Aeronáutica, [sobre] certas normais verbais minhas sobre o uso dos aviões da Força Aérea. Quais normas? Por que não bota no papel? Porque para mim vale mais a palavra. Fio do bigode. E assim está sendo feito. Uma medida vou falar para vocês, suplente, ministro interino, não usa avião. A não ser que tenha uma coisa gravíssima para resolver, e assim mesmo vai ter que chegar no meu conhecimento. Não usa avião. Já tivemos caso aqui que o cara ficou dois dias interino, ficou na cidade dele", disse.

Reportagem da Folha mostrou que o então ministro interino do Turismo, Hercy Filho, usou um avião da FAB para dar uma palestra em seu reduto eleitoral no Tocantins.

Na mesma entrevista, Bolsonaro disse não ver nenhum problema na conduta do chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), Fabio Wajngarten. ​

"O que está de errado no Wajngarten até agora? Não vi nada de errado. Não viram nada de errado", disse, ao ser indagado sobre investigação da Polícia Federal aberta contra o secretário e sobre ele ter omitido informações à Comissão de Ética da Presidência. 

A Polícia Federal abriu inquérito para investigar Wajngarten por supostas práticas de corrupção passiva, peculato (desvio de recursos por agente público) e advocacia administrativa (patrocínio de interesses privados na administração pública), apuração motivada por uma série de reportagens da Folha.

No dia 15 de janeiro, a Folha mostrou que Wajngarten é sócio de uma empresa, a FW Comunicação, que recebe dinheiro de emissoras de TV, entre elas Record e Band, e de agências contratadas pela própria Secom, ministérios e estatais do governo Jair Bolsonaro. Ele nega irregularidades e conflitos de interesse.

A legislação que trata do tema proíbe integrantes da cúpula do governo de manter negócios com pessoas físicas ou jurídicas que possam ser afetadas por suas decisões. Entre as penalidades previstas está a demissão do agente público. A prática também pode configurar ato de improbidade administrativa, se demonstrado o benefício indevido.

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