Descrição de chapéu Eleições 2020

Todo o mundo gostaria que Haddad fosse candidato a prefeito de SP, diz Lula

Ex-prefeito resiste à ideia, mas tem sofrido pressão interna para ser o postulante do partido

Brasília

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, nesta terça-feira (18), que, se o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad quiser entrar na disputa pela capital paulista neste ano, ele será o candidato do PT.

Lula afirmou que o PT terá candidato à Prefeitura de São Paulo e que "todo o mundo" quer Haddad na disputa. O ex-prefeito, porém, resiste.

O ex-presidente lembrou que há um processo de prévias do PT em curso para escolher quem será o candidato à cadeira hoje ocupada por Bruno Covas (PSDB), mas indicou que os nomes que concorrem ao posto abririam mão da disputa por Haddad.

"O dia que o Haddad decidir que quer ser candidato, ele será o candidato. Todo o mundo que disputa, na verdade, gostaria que o Haddad fosse candidato, mas é uma coisa que temos que respeitar a decisão dele de querer ser ou não", afirmou.

O ex-presidente Lula com o ex-prefeito Fernando Haddad durante evento no Recife (PE), em novembro - Adriano Machado - 17.nov.2019/Reuters

Em reunião com as bancadas do PT no Senado e na Câmara dos Deputados, Lula ressaltou que Haddad tem um papel relevante no cenário nacional e disse querer o ex-prefeito viajando pelo país e participando de debates.

Haddad, por sua vez, nega ter a intenção de disputar. "Tem sete pré-candidatos, cheio de gente querendo ser prefeito", brincou o ex-candidato à Presidência pelo PT em 2018.

Em seguida, ele lembrou que não participa do processo interno de escolha do postulante. "Quem queria ser candidato se inscreveu na prévia. Eu me inscrevi na prévia? Quando eu quis, eu me inscrevi", disse.

No fim de semana, ao participar de bloco de Carnaval em São Paulo, Haddad já havia reiterado a posição de não entrar na disputa. Na ocasião, porém, negou haver pressão interna em prol de sua candidatura. "É uma pressão via mídia, não é real. Não me ligam para falar sobre isso", afirmou.

​Alas petistas que defendem uma chapa encabeçada por Haddad temem um resultado pífio se a legenda for às urnas com o inscrito nas prévias escolhido pelos filiados. O ex-prefeito seria, na visão de seus aliados, o único com alguma chance de chegar ao segundo turno.

A votação dos militantes está marcada para 22 de março. Os pré-candidatos estão participando de debates em diferentes regiões da cidade e tentando reunir apoios.

Estão inscritos: os deputados federais Carlos Zarattini, Paulo Teixeira e Alexandre Padilha, o vereador Eduardo Suplicy, o ex-deputado Jilmar Tatto, o ex-vereador Nabil Bonduki e a militante do movimento negro Kika Silva.

Jilmar é quem mais mobiliza a máquina interna do partido e é considerado favorito, mas não conta com o aval de boa parte da elite petista. Seu nome gera também pouca empolgação na militância.

O PT tem ainda uma carta na manga: Marta Suplicy (sem partido) indica que pode formar chapa com Haddad, o que também eleva a pressão sobre ele. Marta tem dialogado com partidos para decidir uma filiação, com a condição de que possa negociar a vaga de vice na campanha do ex-prefeito.

Como mostrou a Folha, a situação em São Paulo está embolada não só para o partido de Lula e Haddad, mas também para os campos políticos que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do governador João Doria (PSDB).

A menos de oito meses da eleição municipal, poucos partidos anunciaram seus candidatos para o pleito de outubro.

Haddad, que governou a cidade de 2013 a 2016, tentou a reeleição, mas foi derrotado por Doria, que levou a eleição no primeiro turno. O petista teve 16,7% dos votos e perdeu para o tucano inclusive em regiões da periferia onde historicamente o PT era soberano.

Alianças pelo Brasil

No início do mês, o PT aprovou uma resolução listando PC do B, PSOL, PDT, PSB, Rede, PCO e UP como parceiros preferenciais na busca por alianças em âmbito municipal.

Na ida a Brasília, Lula indicou que apoiará o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro.

"No Rio de Janeiro, já tem uma cultura estabelecida no PT do Rio que é o apoio ao Freixo. Tem uma coisa consolidada e é assim que a gente vai tocando o barco", disse o ex-presidente.

O petista falou ainda sobre a disputa em Porto Alegre, onde Manuela d'Ávila (PC do B) é pré-candidata. "Acho que há uma tendência natural do PT apoiar a Manuela. É até uma questão difícil de a gente poder de fora dar um palpite", avaliou.

Lula disse que gostaria que o PT tivesse candidatos em todas as cidades, mas ponderou que os diretórios estaduais têm autonomia e pediu preferência aos municípios onde o partido terá mais tempo de televisão.

"A disputa eleitoral é o momento de usar rádio e televisão para poder dizer qual é o legado do PT, as coisas boas que foram feitas desde a primeira prefeitura que a gente elegeu, em 82, até as coisas boas que você fez no governo federal que o governo atual está desmontando", disse.

"Mas aí o PT em cada cidade tem autonomia. O diretório estadual tem autonomia para decidir o que é melhor. De qualquer forma, a Manuela é uma grande companheira e será uma grande candidata."

Apesar de Lula dizer que os diretórios locais têm poder de decisão, a resolução aprovada na reunião do PT do início do mês determina que a palavra final sobre as alianças em cada estado será do diretório nacional.

O documento é importante porque o PT negociará com os outros partidos os apoios nos estados. Há, por exemplo, uma ala do diretório nacional do PT que quer o apoio do PC do B para o futuro candidato em São Paulo em troca da aliança com Manuela em Porto Alegre.

Ainda a respeito das eleições municipais, Lula disse diz que defende o nome da deputada Marília Arraes (PT) na disputa pela Prefeitura do Recife (PE).

"Obviamente que a decisão final depende da Marília e depende da decisão do diretório regional. Eu só posso demonstrar o que eu tenho preferência. Quando o PT se reunir e tomar uma decisão, o Lula será um soldado a serviço do PT", afirmou.

A decisão sobre quem disputará a Prefeitura do Recife é relevante para o PT porque pode representar uma quebra na aliança com o PSB.

O deputado João Campos (PSB-PE) é pré-candidato à capital pernambucana. Se o PT insistir em lançar Marília, a decisão pode colocar em risco as alianças com o PSB nacionalmente.

No encontro com os deputados e senadores, Lula ponderou que é preciso que os correligionários se preparem para a possibilidade de ele não recuperar os direitos políticos, mas afirmou que viajará o país para apoiar os candidatos.

Ele voltou a criticar a política econômica de Bolsonaro e estimulou os parlamentares a fazerem oposição, com obstruções, a projetos do governo atual.

"A economia não cresce, não há investimento, há retirada de dinheiro do estrangeiro do Brasil. Eu digo sempre uma coisa: o sucesso da governança de um país está na credibilidade de um governo e na previsibilidade do governo", disse.

Morte de miliciano

Lula ainda comentou a ofensiva de Bolsonaro sobre o governador da Bahia, Rui Costa, que é do PT. Nos últimos dias, o presidente disse acreditar que tenha havido "uma provável execução" de Adriano da Nóbrega, ex-PM acusado de chefiar uma milícia no Rio, pela "polícia da Bahia do PT".

Nesta terça, Bolsonaro disse que pedirá uma perícia independente sobre as circunstâncias da morte do miliciano e afirmou que não teria interesse numa "queima de arquivo".

Adriano tinha ligação com a família Bolsonaro, já foi condecorado por Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, e tinha parentes empregados no gabinete do senador.

O ex-presidente disse que não esperava outra coisa do presidente, que "nasceu para contar mentira", mas ponderou que Adriano não deveria ter sido morto pela polícia.

"Esse cidadão [Adriano] não deveria ter sido morto. Esse cidadão deveria ter sido preso. Se tinha a polícia inteira para cercar a casa desse cara."

Em seguida, Lula saiu em defesa do colega de sigla: "Eu vou conversar com o governador, tenho certeza que o Rui Costa é um homem de bem, é um homem que respeita os direitos humanos".

E completou: "Tenho certeza que o Rui Costa jamais faria uma coisa para queimar arquivo porque quem tem que queimar arquivo é quem está no governo federal, e não o Rui".

PT NA ELEIÇÃO EM SP

Pré-candidatos inscritos nas prévias

  • Kika Silva, militante do movimento negro
  • Carlos Zarattini, deputado federal
  • Paulo Teixeira, deputado federal
  • Alexandre Padilha, deputado federal
  • Jilmar Tatto, ex-deputado
  • Eduardo Suplicy, vereador
  • Nabil Bonduki, ex-vereador

15.mar
data marcada para as prévias do PT

5.ago
último dia para que as convenções partidárias escolham os candidatos a prefeito

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