TV do Pará afasta jornalista após ele xingar repórter da Folha

Joaquim Campos diz não concordar 'que trocar informações por sexo seja jornalismo', repetindo frase mentirosa de depoente no Congresso que insultou Patrícia Campos Mello

Belém

A RBA (Rede Brasil Amazônia), afiliada da TV Band em Belém, afastou o jornalista Joaquim Campos, apresentador do programa policial "Metendo Bronca" e também vereador pelo Podemos, por declarações na tribuna sobre a repórter da Folha Patrícia Campos Mello

Segundo um vereador do PSOL confirmou à reportagem, na tribuna nesta quarta-feira (19), ele xingou Patrícia de vagabunda. A reportagem tentou contato no gabinete do vereador, mas ninguém havia respondido até a tarde desta quinta-feira (20).

Joaquim Campos, apresentador da RBA (Rede Brasil Amazônica), afiliada da TV Band em Belém
Joaquim Campos, apresentador da RBA (Rede Brasil Amazônica), afiliada da TV Band em Belém - Reprodução

Depois, em postagem no Facebook, Joaquim Campos afirmou não concordar "que trocar informações por sexo seja JORNALISMO". Ele repetiu o insulto feito a Patrícia por Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por Whatsapp.

Hans prestou depoimento na semana passada à CPMI das Fake News do Congresso. Ele trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018.

Em dezembro daquele ano, reportagem da Folha baseada em ação na Justiça do Trabalho, além de relatos de Hans e documentos enviados por ele à jornalista mostrou que uma rede de empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular e assim conseguir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Na ocasião, Hans declarou: "Quando eu cheguei na Folha de S.Paulo, quando ela [repórter] escutou a negativa, o distrato que eu dei e deixei claro que não fazia parte do meu interesse, a pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção, que a minha intenção era ser ouvido a respeito do meu livro, entendeu?".

Hans, porém, fez declaração mentirosa. A repórter nunca se insinuou para ele. Desde o primeiro contato, ela afirmou que fazia uma reportagem sobre o processo trabalhista. Todas as conversas e trocas de mensagens estão gravadas e documentadas.

Em Belém, o insulto feito por Joaquim Campos à profissional da Folha ocorreu enquanto vereadores comentavam na Câmara a respeito do insulto, com insinuação sexual, feito pelo presidente Jair Bolsonaro à repórter.

O vereador Fernando Carneiro (PSOL) confirmou à reportagem que, neste contexto do debate, houve o xingamento. "Nesse ínterim, Joaquim Campos, que é bolsonarista, pediu um aparte na fala do vereador Toré Lima (PRB) e disse no microfone da sua bancada que ela [Patrícia] era uma vagabunda. Esse termo ele já usou outras vezes no plenário, para se referir, por exemplo, à ex-presidente Dilma e à vereadora Marielle Franco”.

Após o afastamento pela RBA, Joaquim Campos comentou nesta quarta, em redes sociais, o episódio ocorrido na Câmara e repetiu os termos mentirosos usado por Hans para insultar Patrícia. "Também não concordo com os vereadores de esquerda da Câmara Municipal de Belém, que ao invés de estar discutindo os problemas do município, (que não são poucos), estão mais preocupados com o que o presidente Bolsonaro fala ou deixa de falar. Como também não concordo que trocar informações por sexo seja JORNALISMO".

Depois fez nova menção do caso no Facebook. "A balbúrdia começou quando o Vereador Fernando Carneiro começou a ofender o presidente Bolsonaro sobre a jornalista que propunha sexo por furo de reportagem e que o presidente da República deveria se preocupar com 13 milhões de desempregados". E então citou a repórter. "Se me referi à tal jornalista da Folha de S.Paulo que insinuava sexo em troca de furo de reportagem, se foi ofensivo, tomaria a mesma atitude com qualquer outro profissional" --a atitude mencionada seria a de defender o presidente.

Em nota oficial, a RBA disse que “repudia atitudes e manifestações ofensivas, preconceituosas e de misoginia, que venham a ferir a dignidade humana e a honra das pessoas e tomou a decisão de afastar o apresentador [Joaquim Campos] de suas funções na emissora”. Ainda segundo a nota, "as palavras do parlamentar não representam, em momento algum, a linha editorial adotada pela RB".

A foto e o nome do apresentador, porém, aparecia em destaque na página da RBA na internet, nesta quinta. "Ele já não foi para o ar hoje, está fora do vídeo. O processo de demissão ainda não ocorreu, mas a decisão imediata foi pelo afastamento. Mas não há a menor chance de ele retornar, a não ser que haja uma retratação. Com a situação que está hoje, ele não retorna", diz Camilo Centeno, diretor-geral do Grupo RBA.

Já o presidente do Podemos no Pará, o deputado estadual Igor Normando, disse em nota oficial que “diante do fato ocorrido, tomando conhecimento de que o mesmo [Joaquim Campos] ainda está filiado ao partido e não existindo condições da permanência do filiado nos quadros do Podemos, a Direção Estadual, por unanimidade, encaminhou o acionamento do referido vereador no conselho de ética, iniciando, assim, o processo de expulsão”.

A nota afirma ainda que “o Podemos não tolera qualquer tipo de preconceito, agressão e violência contra as mulheres”.

O Sindicato dos Jornalistas no Estado do Pará (Sinjor/PA) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj/PA) também emitiram uma nota de repúdio: “Sem nenhum respeito ao trabalho dos jornalistas, apesar de atuar como comunicador, Joaquim Campos discutiu com quem o criticou, proferindo expressões de misoginia, machismo e total falta de decoro no plenário do Parlamento Municipal”.

O governador do Pará, Helder Barbalho, também manifestou seu repúdio no Twitter: “Como pai, esposo e filho, fico chocado ao ver ataques como o do vereador Joaquim Campos (Podemos) à jornalista Patrícia Campos Mello, principalmente por vir de um profissional de comunicação”.

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