Veja os passos da 'milícia digital' contra jornalista da Folha insultada no Congresso

Ex-funcionário de empresa de disparo em massa mentiu a CPMI das Fake News na semana passada

Aiuri Rebello Vinícius Segalla
São Paulo | UOL

A “milícia digital” de WhatsApp que compartilha mensagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e fake news e ataques contra aqueles vistos como adversários do governo federal é organizada em fóruns numerados, com pautas coordenadas, agendas e administração centralizada.

Por meio de grupos com rede de administradores trabalhando de maneira integrada, é possível estabelecer ações conjuntas de ataques a adversários ou campanhas em favor de agendas políticas.

O deputado estadual Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro
O deputado estadual Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro - Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress

Nos últimos dias, a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha, por exemplo, foi alvo de uma orquestração desse tipo. A reportagem do UOL acompanhou a movimentação nesses grupos.

Na terça-feira (11), uma testemunha depôs na CPI mista das Fake News, no Congresso, e fez diversas afirmações falsas sobre o trabalho e a conduta da jornalista. O depoente trabalhou em uma empresa de envio em massa de mensagens de WhatsApp durante as eleições de 2018 e foi uma das fontes de uma reportagem que ela ajudou a escreveu sobre o tema.

Em dezembro daquele ano, reportagem da Folha, baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos do depoente Hans River do Rio Nascimento, mostrou que uma rede de empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPFs de idosos para registrar chips de celular e garantir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Desde terça-feira, poucas horas após o depoimento dessa testemunha, começaram a chegar aos grupos links para notícias falsas, memes e vídeos dessa ação coordenada contra a jornalista.

Primeiro, sites especializados em fake news, notícias distorcidas e hiperpartidárias publicam a “notícia”. No caso, a de que a jornalista havia assediado a fonte em troca de informação e outras sobre o mesmo alvo.

Após as acusações, a Folha publicou reportagem contestando ponto a ponto as mentiras ditas pelo ex-funcionário da agência de marketing digital Yacows aos membros da CPMI.

A relatora da comissão parlamentar de inquérito, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), pediu ao Ministério Público Federal que investigue o depoente pelo falso testemunho

No pedido, Lídice afirma que Hans “apresentou diversas informações que, posteriormente, viriam a se mostrar inconsistentes ou inverídicas”. Além disso, continua, a testemunha se recusou a prestar informações quando questionada pelos membros da comissão.

A deputada lembra que o Código Penal estabelece que é crime, punível com reclusão de dois a quatro anos e multa, “fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral”.

O PTB, partido ao qual era filiado desde 2010, anunciou sua expulsão pelas mentiras e ataques à jornalista durante o depoimento.

Ex-funcionário de empresa de disparos em massa, Hans Nascimento (à dir.) presta depoimento nesta terça (11) na CPMI das Fake News - Jane de Araújo/Agência Senado

Até líderes do PSL ligados ao presidente Jair Bolsonaro (atualmente sem partido) condenaram o depoimento, como o caso do senador Major Olímpio (PSL-SP).

Nada disso, no entanto, fez diferença na disseminação de fake news nesses grupos de WhatsApp. Mensagens com calúnias contra a jornalista continuavam a chegar aos grupos de discussão até o fim da semana. 

Após os primeiros links com a notícia, começaram a aparecer nos fóruns de discussão links para postagens das redes sociais de expoentes bolsonaristas, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), repercutindo a “notícia”.

Em um terceiro momento, aparecem os memes. Nessas peças, o tom costuma subir, e os alvos são vítimas de xingamentos, montagens grosseiras e ilações fraudulentas.

Esse material recircula por vários dias em diversos grupos de WhatsApp até serem substituídos por um novo assunto do momento.

Chama a atenção que vários dos memes são assinados por pessoas, sites ou grupos de direita com forte atuação nas redes sociais.

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