Advogados youtubers descomplicam leis e atraem milhões de visualizações

OAB não tem regra clara sobre presença nas redes sociais; em alguns estados atuação pode ser considerada infração

São Paulo

Escolher temas que mexem diretamente com o bolso, além de palavras-chave certas e títulos chamativos, faz parte da fórmula de sucesso dos youtubers jurídicos com maior número de seguidores no país.

Eles não têm produção sofisticada nem equipe voltada para isso. No geral, afirmam gastar no máximo um dia da semana com a atividade e, em alguns casos, gravam com o próprio celular.

​Ao descomplicar o universo das leis e processos, acabam por atrair grandes audiências, em geral de pessoas interessadas em tirar dúvidas online sem a necessidade de recorrer a um escritório de advocacia.​

Homem com óculos, camisa social, gravata e sorrindo, sentado em um banco, em cada um de seus lados refletores para filmagem. Ao fundo mesa de escritório, parede cinza e alguns quadros de fundo branco com símbolos como o botão de curtir, logo do instagram, entre outros.
O advogado e youtuber Ricardo Reis no estúdio de gravação que montou em casa, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Com milhões de visualizações, os vídeos mais populares incluem “segredos que o INSS não te conta”, “como limpar o nome sem pagar a dívida” e “doenças que geram direito à aposentadoria por invalidez”. ​

Um dos canais de destaque do gênero é a página do advogado Ricardo Reis, com 384 mil seguidores. Para ele, que mora em Brasília, o YouTube foi um divisor de águas.

“Hoje em dia me apresento às vezes muito mais como youtuber do que como advogado. Advogado infelizmente tem essa fama de enrolão, de que só ele ganha dinheiro nas causas. Já [como] youtuber é muito legal, consigo me comunicar com a meninada e com os idosos", afirma Reis à Folha.

Com vídeos que explicam como dívidas caducam e com títulos por vezes apelativos, o advogado diz ser alvo de críticas.

“Tem muita gente que me xinga, que diz que estou incentivando a dar o calote. Essa pessoa está fazendo uma má interpretação. Eu interpreto a lei. Se uma dívida prescreve em cinco anos, eu não vou tratar isso como segredo. A informação liberta.”

Seu vídeo mais popular, com o título "Como limpar seu nome sem pagar a dívida", foi publicado no fim de 2018 e desde então teve mais de 2 milhões de visualizações.

Apesar disso, ele mesmo considera que “a gravação ficou muito ruim”. À época, Reis utilizava técnica de cromaqui, usando um fundo verde removível, que permitia variar os cenários dos vídeos.

“No nosso grupo de youtubers a gente sempre diz que vídeo pronto é vídeo postado, tem que postar para ver o que acontece”, afirma.

Aliada à monetização dos vídeos com publicidade, por meio do próprio YouTube, outra fonte de renda é a venda de um curso online voltado para pessoas endividadas.

Além dos canais identificados pela reportagem, foi fornecida pelo YouTube listagem com alguns dos perfis do gênero que mais se destacam: com mais de 565 mil seguidores, lidera a lista a advogada Liliana Delfino. Diferentemente de Reis, a atuação como advogada ainda é sua atividade principal.

Natural de Resende (RJ), Delfino conta que, antes de ser youtuber, já conduzia um programa sobre temas de direito em uma rádio local. Para replicar o que fazia na rádio, criou o canal no site e passou a postar conteúdo principalmente na área de direito da família e previdenciário.

No mundo virtual, ela afirma que é comum que as pessoas desistam da consulta ao saber que o serviço é cobrado. "O principal problema é que, se você não souber filtrar, você trabalha mais e ganha menos.”

Delfino diz acreditar que serve como inspiração para outras mulheres: “Tem toda a questão do preconceito, é uma mulher, é uma advogada acima do peso, que hoje é a maior youtuber jurídica do país. A pessoa às vezes presta atenção até no anel que estou usando, na minha unha pintada.”

Graças à popularidade que conseguiu com o canal, ela conta que tem conseguido clientes em diversas cidades do país, o que tem impulsionado seu escritório virtual.

Há também advogados que acabaram mudando de rota e trocaram a clientela em potencial por seus próprios pares.

Alguns desses influenciadores são praticamente metalinguísticos: ao mesmo tempo em que constroem sua própria presença nas redes, trazem dicas de como outros advogados podem aumentar sua presença virtual por meio de marketing jurídico.

Mulher segura celular enquando fala para uma câmera. Na metade da tela aparece aplicativo com trechos de leis
Mariana Gonçalves dá dicas práticas para advogados recém-formados - Reprodução/Youtube

Entre os conteúdos, há desde cursos online pagos até podcasts. Neles advogados encontram dicas sobre como cobrar honorários e responder possíveis clientes no WhatsApp, além de relatos sobre como é a experiência da primeira audiência.

É o caso da advogada de direito imobiliário Mariana Gonçalves, do canal Minutos de Direito, e que é quem mais se aproxima da definição de uma influenciadora digital.

"Comecei a perceber quando tudo que eu mostrava gerava muita curiosidade. De modo que me procuravam para saber qual programa eu estava utilizando, qual livro eu uso para fazer determinado contrato."

Comparada a Reis ou a Delfino, Gonçalves é a que tem maior público em outra rede que não o YouTube (onde tem pouco mais de 123 mil inscritos): seu Instagram soma cerca de 61 mil seguidores e intercala postagens profissionais com registros de sua vida particular e mensagens motivacionais. Além dos cursos que oferece, ela também tem uma fonte de renda como palestrante.

Apesar de a presença de advogados nas redes sociais ser uma realidade, os limites desse uso não são bem definidos.

Embora as regras gerais de publicidade tenham sido alteradas em 2015 com a aprovação do último Código de Ética da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a regulamentação específica sobre o tema não é atualizada há praticamente duas décadas —sendo portanto anterior ao surgimento de plataformas como o próprio YouTube, Facebook e Instagram.

O corregedor nacional e secretário-geral adjunto do Conselho Federal da OAB, Ary Raghiant Neto, afirma que em alguns estados a presença nas redes sociais é tolerada, enquanto em outros ela é considerada uma infração.

De acordo com Raghiant Neto, o conflito de decisões advém da falta de uma norma clara: “Nosso Código de Ética [e Disciplina] estabelece que a publicidade do advogado tem que ter caráter informativo, deve ser sóbria e moderada. Com base nisso, que chamamos de conceitos abertos, indeterminados, fica muito no subjetivo dizer o que é moderado”.

A OAB Nacional não possui números centralizados quanto às punições ou procedimentos éticodisciplinares instaurados nas seccionais por prática de publicidade irregular em redes sociais ou fora delas. Entre os advogados contatados pela reportagem, nenhum considera descumprir as regras.

Nos próximos meses, a OAB mantém consulta pública aberta para que advogados enviem suas sugestões quanto às regras de publicidade. A intenção, segundo Raghiant Neto, é que ainda neste ano novas regras sejam aprovadas e os limites sejam mais bem definidos.

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