Descrição de chapéu Coronavírus

Bolsonaro se nega a mostrar exames que, segundo ele, deram negativo para coronavírus

Já presidente dos EUA divulgou laudo médico, assinado pelo médico da Casa Branca, após análise não detectar Covid-19

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro não divulgou cópia dos dois exames clínicos que realizou e que, segundo ele, deram negativo para o novo coronavírus.

Ele fez dois testes, um no dia 12 e outro no dia 17. Nas redes sociais, Bolsonaro informou que ambos deram negativo, mas não mostrou documento formal das análises.

O presidente Jair Bolsonaro, de máscara, durante entrevista coletiva para falar sobre coronavírus
O presidente Jair Bolsonaro, de máscara, durante entrevista coletiva para falar sobre coronavírus - Pedro Ladeira/Folhapress

Quando realizou seu exame, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou um memorando oficial assinado por seu médico atestando que a análise não havia detectado o Covid-19.

A Folha solicitou à Secom (Secretaria Especial de Comunicação) da Presidência da República cópia do exame em duas oportunidades, mas não obteve resposta.

Até o momento, pelo menos 23 pessoas ligadas à comitiva presidencial que viajou aos Estados Unidos no início deste mês receberam o diagnóstico da doença.

Entre elas estão dois ministros: o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Bento Albuquerque (Minas e Energia).

Bolsonaro lamentou nesta sexta-feira (20) estar afastado de Heleno, isolado por causa da doença. "Estou chateado, o maior conselheiro meu, general Heleno está em casa. Mas a gente supera isso aí. É melhor estar do meu lado do que falar pelo telefone. Estamos fazendo nossa parte."

Um dia antes de seu teste ter dado positivo, Heleno se reuniu três vezes com o presidente, sem máscara de proteção.

Heleno, um dos ministros mais próximos de Bolsonaro, tem 72 anos. Já Albuquerque tem 61. Por causa da idade, eles fazem parte do grupo de risco para a doença

Em entrevista na frente do Palácio da Alvorada nesta sexta, Bolsonaro confirmou que apresentaram resultado positivo para Covid-19 os exames de seu ajudante de ordens, major Mauro Cid, do assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, do diretor do Departamento de Segurança Presidencial, coronel Suarez, e do chefe do Cerimonial, Carlos França.

Na quarta-feira (18), o presidente disse a jornalistas que poderia realizar um novo teste. A expectativa é de que ele seja feito na próxima segunda-feira (23).

Também receberam diagnóstico de Covid-19 o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, e o número 2 do órgão, Samy Liberman. Ele compareceu ao Planalto na última semana, ao regressar da viagem aos Estados Unidos, o que gerou reclamação e desconforto de funcionários da Presidência. Questionada formalmente, a Secom não quis comentar o resultado do exame de Liberman.

Outros integrantes da comitiva que depois apresentaram resultado positivo para coronavírus foram o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Flávio Roscoe, e o secretário especial de Comércio Exterior, Marcos Troyjo, bem como o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Robson Braga de Andrade.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência havia informado no dia 15 que quatro membros da equipe que serviu de apoio à viagem de Bolsonaro a Miami estão infectadas.

No mesmo dia, o publicitário Sérgio Lima, responsável pela comunicação da Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro quer criar, informou que está com o coronavírus. A Folha confirmou que ele esteve com a comitiva presidencial nos EUA.

Divulgaram ainda resultados positivos para o coronavírus o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), o diplomata Nestor Forster, indicado para o cargo de embaixador do Brasil em Washington, a advogada Karina Kufa, tesoureira da Aliança, e o deputado federal Daniel Freiras (PSL-SC).

Entre os anfitriões, o prefeito de Miami, Francis Suarez, anunciou no dia 13 ter recebido o diagnóstico. Ele participou de evento com Bolsonaro e sua comitiva no dia 9.​

Bolsonaro também foi alvo de críticas por dizer, em uma entrevista à rádio Super Tupi, na terça-feira (17), que faria uma "festinha tradicional" para comemorar seus 65 anos neste sábado (21). Uma das principais recomendações dos especialistas diante da crise sanitária é a redução do contato social.

Após a repercussão negativa, o presidente anunciou que passará a data apenas na companhia da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, de sua filha caçula, Laura, e de sua enteada Letícia.

Em live semanal, na quinta-feira (18), o presidente questionou o efeito das medidas adotadas por governadores para tentar reduzir o risco de contágio da doença.

“O remédio quando é em excesso pode não fazer bem ao paciente. Uns fechando supermercado outros querendo fechar aeroporto. Outros querendo colocar uma barreira na divisa entre estados e fechando academias. A economia tem de funcionar”, disse.

Bolsonaro ressaltou que medidas que ele considera excessivas podem levar as pessoas a ficarem desabastecidas e a perderem seus empregos.

“As pessoas não vão ficar em casa e se alimentar do nada. Tem de buscar meio de sobrevivência. E, se faltar o emprego, falta o pão em casa e os problemas se avolumam”, disse.​

No último dia 15, o presidente ignorou orientações dadas por ele mesmo dias antes e pelo Ministério da Saúde ao estimular e participar dos protestos pró-governo sem demonstrar preocupação com a crise do coronavírus.

Ele também contrariou orientação da equipe médica da Presidência, que o aconselhara a evitar locais com aglomeração.

Sem máscara, participou das manifestações, tocando simpatizantes e manuseando o celular de alguns apoiadores para fazer selfies. "Isso não tem preço", disse, durante transmissão ao vivo em suas redes sociais.

Bolsonaro permaneceu por cerca de uma hora interagindo com apoiadores. Havia no local várias pessoas idosas, consideradas grupo de risco da nova doença e com taxa de mortalidade maior.

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