Congresso erra ao não impor limites a Bolsonaro, diz Alessandro Molon

Líder do PSB na Câmara afirma que presidente demonstra não acreditar na democracia e culpa centrão por resultados negativos da economia

Julia Chaib, da Folha Guilherme Mazieiro, do UOL
Brasília

Líder do PSB na Câmara, o deputado federal Alessandro Molon (RJ) afirma que o Congresso tem falhado por não impor limites a declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro que provocam o Legislativo.

O parlamentar avalia ainda que os partidos do chamado centrão —formado por PP, DEM, Republicanos, SD e PL— são sócios de resultados negativos na economia do país por apoiarem a agenda do governo.

As declarações foram dadas ao programa de entrevistas no estúdio compartilhado pela Folha e o UOL, em Brasília.

O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) durante entrevista ao UOL e à Folha no estúdio compartilhado em Brasília - Kleyton Amorim/UOL

Para Molon, as falas de Bolsonaro que incentivaram os atos que ocorreriam neste domingo (15) servem para incitar a população contra o Congresso.

Os protestos tinham como bandeiras apoio ao presidente e críticas ao Parlamento e ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Bolsonaro compartilhou vídeos chamando para as manifestações e estimulou a população a participar dos atos.

Por fim, os protestos acabaram cancelados pelos organizadores após sugestão do presidente em pronunciamento de rádio e TV, na quinta (12). Bolsonaro alegou que o avanço do novo coronavírus seria um risco para os manifestantes.

“Eu considero que é muito grave o que o presidente Bolsonaro vem fazendo, que é, na prática, incitar a população contra as instituições brasileiras, contra o Congresso, contra o Poder Judiciário”, avalia Molon.

O deputado critica, por exemplo, a afirmação de Bolsonaro de que houve fraude nas eleições de 2018. O presidente não apresentou nenhuma prova ou indício que embasasse sua declaração.

“É muito grave. É um comportamento reiterado do presidente, que demonstra a todo instante não acreditar na democracia”, continua.

Mesmo após o endosso do presidente aos atos, a cúpula do Legislativo adotou tom ameno ou silenciou em resposta a Bolsonaro. Molon considera essa reação um equívoco e uma forma de “passar a mão na cabeça do presidente”.

“É uma aposta equivocada na não reação, imaginando que ela pode resolver. No meu entendimento, isso, para uma pessoa como Jair Bolsonaro, significa um sinal verde para continuar avançando. É um equívoco”, afirma.

Na avaliação do deputado, há uma série de comportamentos do presidente que poderiam ser interpretados como crime de responsabilidade. Ele considera, porém, que hoje não há ambiente no Congresso nem clima na população para pedir o impeachment de Bolsonaro, apesar de setores da esquerda defenderem a medida.

“É preciso considerar esse ambiente que há no Congresso e que há na sociedade e pensar num processo dessa gravidade, com começo, meio e fim. Pensar como se começa isso e como termina para também não correr o risco de iniciar um processo como esse e terminá-lo dando mais força a um presidente da República que sonha em implantar um regime autoritário.”

Na entrevista, ainda critica medidas da agenda econômica do governo, como a reforma da Previdência, e diz que foram responsáveis pelo desempenho do PIB abaixo do esperado neste ano.

Apesar de direcionar as reclamações ao Executivo, ele aponta uma parcela de deputados como cúmplices de resultados negativos.

“O centrão é sócio desse fracasso e não vai poder chegar nas eleições de 2022 e colocar a culpa só no governo e dizer ‘nós não temos nada com isso’, porque essa foi a agenda deles. É claro que o responsável maior (é) o presidente da República. Mas o centrão apoiou essas pautas, está apoiando essas reformas e vai acabar sócio do fracasso econômico que está se abatendo do Brasil”, afirma.

Líder da oposição até a semana passada, Molon diz que os partidos que não apoiam Bolsonaro têm agido para impedir retrocessos no Congresso apesar de serem criticados pelas suas bases. Ele, porém, defende que a oposição atue de modo a não prejudicar o país e cobra medidas de curto prazo para o combate ao coronavírus.

“O PSB, por exemplo, não vota contra qualquer coisa que venha do governo só porque é do governo. Se mandar uma proposta que nós consideremos correta, nós votaremos a favor.”

Sobre as eleições municipais deste ano, Molon conta que o PSB tem conversado principalmente com Rede, PV e PDT com o objetivo de construir alianças nas principais capitais.

No Rio, sua cidade, ele afirma que o PSB ainda não bateu martelo sobre se apoiará Marcelo Freixo (PSOL-RJ), a delegada Marta Rocha (PDT-RJ) ou o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello (Rede-RJ).

Em relação à disputa pela Presidência da República, em 2022, o deputado avalia que é preciso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT deem espaço para que outros partidos concorram como cabeça de chapa na esquerda para tirar Bolsonaro do comando do Executivo Federal.

“Talvez até se a gente tivesse feito isso antes, a gente não chegaria onde chegou”, diz em referência à eleição de 2018, em que Fernando Haddad (SP) disputou pelo PT.

Molon cita o nome do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa como um dos mais competitivos para disputar a Presidência. Já aposentado, Barbosa é filiado ao PSB.

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